No antigo laboratório de anatomia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, Sofia Saleme instala Histórias lindas de morrer. A exposição transforma o corpo em superfície de observação e o espaço, antes clínico, em lugar de cura simbólica. Composta por dez telas verticais suspensas na sala Branca Edmée Marques, convoca o visitante a enfrentar o que o corpo recorda: as feridas, a matéria e o que resiste, as cicatrizes.
Saleme aborda o espaço com o mesmo rigor com que observa o corpo. Mede, desenha e traduz as suas entranhas, transformando o gesto artístico num exercício de reconhecimento do que é imperfeito, vulnerável e vital. O desenho é a sua linguagem nativa, o ponto de contacto entre o físico e o simbólico.
A artista, nascida em São Paulo em 1989 e hoje a dividir a sua vida entre Lisboa e São Paulo, propõe um gesto simples e eficaz: substituir a folha de sala por uma bula farmacêutica. “Leia atentamente este folheto antes de ingerir as Histórias lindas de morrer”, lê-se. A ironia devolve ao público o papel de paciente e à arte, a função de diagnóstico a partir da reflexão. O museu transforma-se num consultório simbólico onde cada pintura age como sintoma, remédio ou recaída. Os materiais reforçam essa ideia de reparação, ao recorrer a pigmentos naturais japoneses, como o gofun, branco retirado de conchas de ostras, e à folha de ouro aplicada sobre a tela como quem cobre uma cicatriz a artista enfatiza a importância e a beleza do corpo marcado pelo tempo. O ouro, aqui, não é metáfora de triunfo mas de aceitação. Ao usar técnicas associadas à filosofia Wabi-Sabi, valoriza a imperfeição e a vulnerabilidade como matéria estética, por exemplo em obras como Céu Estrelado ou Pústula Ouro, o corpo é tratado como território de memória e de transformação, o que é incómodo ou rejeitado, como a ferida, o pus, a gordura ou o envelhecimento, é recoberto por ouro e transformado em cicatriz preciosa. O gesto é íntimo, quase ritual, e traduz uma tentativa de reconciliar o que a sociedade tende a ocultar.
Os títulos das obras, Peso do Invisível, Compulsão Prazerosa, Arrepio e Entre o Pus e o Ouro, lembram diagnósticos médicos de mãos dadas com a poesia. Funcionam como espelhos daquilo que não se vê mas se sente, daquilo que faz parte da nossa memória e do nosso corpo, onde este se assume como um arquivo através das suas imperfeições.
Há um paralelismo evidente entre as obras e o espaço onde se encontram. O museu, que guarda a coleção Cuidar e Curar, ligada à Faculdade de Medicina, torna-se cúmplice deste diálogo entre arte e anatomia, entre cura e doença. A curadoria de Sofia Marçal acentua precisamente essa relação entre arte e ciência. Ao escolher o antigo laboratório de anatomia e integrá-lo no contexto museológico, a curadora transforma o espaço num prolongamento conceptual da obra. O corpo, que antes era objeto de estudo, torna-se aqui território de reflexão e de memória.
Sofia Saleme trabalha entre o íntimo e o clínico, o belo e o objeto, o visível e o que escapa. A exposição não romantiza a dor, mas observa-a, nomeia-a e cobre-a de ouro. Histórias lindas de morrer não fala sobre o fim, mas sobre a continuidade. Sobre o que permanece depois da ferida, e sobre a capacidade de a arte, como o corpo, se aceitar a partir daquilo que dói. E o tempo, que naturalmente aceita o seu percurso e a sua materialidade, expõe marcas na pele de quem o vive.