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Dois Stereos, de João Pimenta Gomes
DATA
05 Jan 2026
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AUTOR
Mariana Machado
A exposição Dois Stereos, de João Pimenta Gomes e com curadoria de João Ribas, ocupa a Galeria da Boavista com uma demonstração do título bastante literal. Dividindo-se em duas peças que ocupam cada uma um piso do espaço (adicionando uma fotografia polaroid nas escadas), a exposição apresenta dois mecanismos estereofónicos que se centram, e exploram, nesta potencialidade técnica. Neste sentido, ambas as peças partem de dispositivos existentes para rever e expandir mecanismos que constituem tecnologias analógicas periféricas. O artista utiliza a expressão “assombro do som” como descrição deste processo onde as referências às tecnologias sonoras ressurgem transformadas com intenções exploratórias.
Sendo assim, no primeiro piso, encontramos a peça Double Fantasy, que parte da coluna de som Western Electric 16A, uma corneta acústica introduzida na década de 1920 como parte fundamental dos primeiros filmes sonoros. Utilizada atrás dos ecrãs de cinema, esta coluna permitia a reprodução sonora para uma enorme plateia. Embora concebida para a reprodução monofónica, o dispositivo apresentado transporta uma reconfiguração que lhe permite uma estereofonia de ponto único – como refere o artista na folha de sala – , ou seja, uma simulação de áudio stereo através de uma fonte mono e uma série de efeitos que permitem transmitir a impressão de estereofonia. Deste modo, e através da conjugação deste dispositivo com um sintetizador modular Eurorack, percebemos como o assombro do mecanismo, que interessa ao artista, surge tanto ressuscitado como transformado. Ou seja, ainda que o gesto seja, acima de tudo, direcionado a mecanismos antiquados, estes surgem através de uma re-apropriação que não ignora novas potencialidades. Ora, o artista ressalta o contraste entre a materialidade das tecnologias outrora dominantes e as tecnologias digitais atuais, relembrando a abordagem hantológica proposta por Mark Fisher. O autor encontrava em determinadas abordagens sonoras e musicais uma preocupação com a materialidade e a memória que contrastava com a ilusão digital: “Essa fixação com a memória materializada levou ao que será porventura a principal assinatura sonora da hantologia: o uso da crepitação, esse ruído superficial feito pelo vinil. A crepitação faz-nos ter a noção de que estamos a ouvir um tempo que está desconjuntado; não permite que caiamos na ilusão da presença.”1 Se, por um lado, não nos parece ver no mecanismo de João Pimenta Gomes a melancolia que Fisher observa na música hantológica, parece-nos, pelo contrário, evidente essa mesma preocupação em revisitar o mecanismo analógico e a sua plasticidade material como oposição ao éter digital. É neste sentido que a noção de assombração parece desempenhar um papel importante para ambos: “A assombração pode, pois, ser entendida como um luto falhado. Prende-se com a recusa em abrir mão do fantasma ou – o que por vezes pode ir dar ao mesmo – a recusa do fantasma em abrir mão de nós.”2
No segundo piso, a abordagem parece semelhante. Desta vez, o artista parte do Cristal Baschet, um instrumento desenvolvido na década de 1950 através do qual se produz som através da fricção de dedos húmidos em varas de vidro, posteriormente transmitido por hastes metálicas até um sistema de ressonadores passivos. Se, por um lado, o instrumento é originalmente exclusivamente acústico, o artista reaproveita apenas os cones e utiliza-os como amplificadores passivos de sons eletrónicos sintetizados, mais uma vez, através de um Eurorack. O próprio sistema de Baschet, como descreve o artista, já comportava um carácter assombroso no seu funcionamento. No entanto, mais uma vez, retorna na peça presente como um fantasma de um outro tempo que é reatualizado em contacto com o tempo presente. Tanto neste caso como no anterior, os dispositivos existentes aparecem menos como entidades fixas a ser relembradas e mais como potencialidade técnicas a ser reativadas. Operando enquanto modelos dos sistemas aos quais referenciam, este processo não se resume à simples imitação. Pelo contrário, produz-se no carácter construtivo da modelação, onde ela não apenas referencia, mas pragmaticamente agencia novas possibilidades. É neste sentido que podemos apontar para a análise do processo de simulação de Antoine Bousquet quando defende precisamente que “a simulação não é a atividade de apenas representar a realidade, mas, pelo contrário, um intenso espaço para a sua criação”3 Encontramos na exposição não só um trabalho de modelação através da referência, mas a reactualização de processos construtivos de novos mecanismos, uma alavancagem no passado conjugada com uma projeção no futuro.
A exposição Dois Stereos pode ser visitada na Galeria da Boavista, em Lisboa, até dia 11 de janeiro de 2026. Dia 10 de janeiro decorrerá ainda, por ocasião da exposição, um Workshop de Sintetizadores Modulares com Tom Whitwell e João Pimenta Gomes. Poderá encontrar mais informações sobre o evento aqui.


1 Fisher, M. (2020). Fantasmas da Minha Vida: Escritos sobre Depressão, Hantologia e Futuros Perdidos, p. 51
2 Fisher, M. (2020). Fantasmas da Minha Vida: Escritos sobre Depressão, Hantologia e Futuros Perdidos, p. 53
3 Bousquet, A. (2015). A Short History of Wargames, p. 19. Tradução livre
BIOGRAFIA
Mariana Machado (2000) nasceu no Porto e estudou Cinema na Escola das Artes - Universidade Católica Portuguesa. Neste momento, frequenta o Mestrado em Artes Digitais e Sonoras, também na Escola das Artes. É artista e investigadora, interessando-se acima de tudo por manifestações que articulem a imagem em movimento num contexto entre o cinema e a arte contemporânea, assim como pelas potencialidades artísticas de novas tecnologias e suas articulações com outras materialidades.
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