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Intervalos – WhiteBox #1, no Museu do Caramulo
DATA
23 Jun 2026
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AUTOR
Inês Ferreira-Norman
“Tal heterogeneidade foi o que José Maçãs de Carvalho viu como oportunidade, pois é através da heterocronicidade da coleção que se revelam os seus intervalos. White Box #1 surge como contraproposta a uma primeira intervenção artística contemporânea, a Black Box, realizada em 2017, com curadoria de João Louro. Porém, a metodologia de Maçãs é residencial, com o intuito de reavivar a filosofia do próprio Abel Lacerda, que pretendia trazer a contemplação (da arte) para a montanha.”
No Museu do Caramulo podemos encontrar duas coleções: uma coleção automóvel e uma coleção de arte. Nos circuitos turísticos, é um museu bem conhecido pela sua coleção automóvel, mas foi a coleção de arte que motivou a sua criação em 1952. Imaginado pelo colecionador Abel Lacerda e levado a cabo pelo seu irmão João Lacerda, inaugurou em 1959 com “poupa e circunstância” o edifício que ainda hoje podemos visitar.
No seu ethos, está a valorização da coleção como um índice do que é o colecionador e a individualidade das obras. As obras em exposição e o seu arquivo - todo o acervo na sua totalidade – são uma identidade eclética de doações, quer de artistas, quer de colecionadores ao longo do tempo, e a coleção enverga essa polifonia como a sua assinatura. Tal heterogeneidade foi o que José Maçãs de Carvalho viu como oportunidade, pois é através da heterocronicidade da coleção que se revelam os seus intervalos. White Box #1 surge como contraproposta a uma primeira intervenção artística contemporânea, a Black Box, realizada em 2017, com curadoria de João Louro. Porém, a metodologia de Maçãs é residencial, com o intuito de reavivar a filosofia do próprio Abel Lacerda, que pretendia trazer a contemplação (da arte) para a montanha. Assim, Maçãs de Carvalho convidou quatro artistas que se interessam por alguns dos grandes temas do museu no seu todo: os automóveis, a sua natureza circundante, a pintura de retrato e a relação entre a história de Portugal e o mundo. Ao longo de vários meses, os artistas interagiram com o museu e produziram obras originais, específicas para este espaço.
A exposição instiga o olhar do observador, por vezes, a procurar as novas obras e, por outras, a pensar nas relações estabelecidas entre elas e as já existentes no museu. Com uma abordagem predominantemente formal, não obstante, a exposição desvela as vivências dos artistas no interior da coleção.
A obra de Catarina Leitão, por exemplo, vive da investigação sobre a nossa relação com o que entendemos ser a natureza. Nesta exposição, a artista apresentou várias esculturas alcunhadas de ‘jardins portáteis’, que, pelas suas características têxteis, conversam com as tapeçarias da coleção (as da coleção maioritariamente na parede, as de Leitão no chão). Mas é na pintura Vertumnus and Pomona, de Jacob Jordaens, que Leitão encontrou um firme diálogo, pois Vertumnus e Pomona revelam mitologias (romanas) associadas à manutenção de jardins e pomares. A escultura Naturfatura 5.0 B, colocada mesmo ao lado desta monumental pintura, ecoa os aspetos formais das árvores na pintura, sublinhando, de igual modo, o carácter híbrido da sua obra, pois um pomar é em última instância o produto de um cuidado cultural e da dádiva natural. Em exibição entre os pratos e cerâmicas de vitrine, a artista apresenta também um conjunto de desenhos e um diálogo mais intimista com as louças, produzindo uma coleção de livros-de-artista intitulada ‘Montanha Mágica’.
Foram nas tapecarias ‘À maneira de Portugal e da Índia’ que o exotismo da chegada marítima dos portugueses à Índia foi documentado. Comissionadas aproximadamente em 1520, retratam a glorificação do processo colonial, sobre o qual João Fonte Santa se debruçou. Num vermelho garrido, com uma energia presente só em cenas de gore como no Kill Bill ou em bandas desenhadas japonesas, as pinturas minuciosas de detalhes das tapeçarias, transformam-se num jogo de achar ‘Onde está a pintura?’ no espaço do museu. Não é que as telas sejam pequenas, contudo, enquanto algumas são impossíveis de nos escapar, outras parecem que estiveram desde o ínicio do Museu nas suas paredes, assimilando-se muito facilmente na companhias das outras obras da coleção; é certamente uma consequência da metodologia de José Maçãs de Carvalho, que, durante a inauguração do catálogo, falava numa “adição, substração e substituição” da exposição permanente, um processo resultante da sua curadoria.
Também dedicada à pintura, a obra que Daniela Krtsch produziu só podia ter sido realizada em residência, uma vez que retrata as pessoas que aqui trabalham. A sua obra, Mensageiro, sombria mas luminosa, reflete o lado humano do Museu. Quando nos referimos ao museu, pensamos imediatamente num edifício, nas salas de exposição, nas coleções, nas exposições, na programação, nos fundadores ou nos artistas e curadores que já nele programaram. Aqueles que são quase invisíveis para o grande público eternizam-se, assim, na coleção do Museu através de uma lente focada na representação do corpo humano, democrático, e da formalidade de o colocar numa tela, constituindo um loop irónico. Os tons sóbrios, resultantes de uma técnica de iluminação muito pessoal e tão característica da pintura de Krtsch, focam-se na singularidade da existência humana, mostrando que as instituições, mesmo aquelas que se figuram como coleções de privilégio, não funcionam sem o comum dos mortais.
Para completar uma residência no Museu do Caramulo, seria natural que um dos artistas tivesse uma predileção por automóveis, e essa presença desenhou-se com Fabrizio Matos. Mestre do desenho a carvão, o artista apresenta-nos, logo na primeira sala (a par de uma obra de João Fonte Santa), Alfa Romeo Disco Volante, que evoca os posters de cinema, enquadrando a Serra do Caramulo como o cenário de um filme fictício. Com uma obra profícua durante esta residência, o trabalho retroiluminado em mobiliário, retirado do arquivo para esta exposição, alude ao futurismo italiano e permite-nos, segundo Maçãs de Carvalho, “ouvir o barulho dos carros ou Álvaro de Campos”. A obra Sem título B, Composição de vários desenhos sobrepostos transborda de movimento. É, aliás, no cinema italiano que muitas das referências de Fabrizio Matos encontram origem. Quer a sua afinidade pelo movimento, quer a sua afeição particular pela dinâmica espacial confinada no interior destes veículos, remetem para o imaginário de cineastas como Paolo Sorrentino. Foi através destas influências que Fabrizio Matos compôs, durante a residência, uma paisagem cultural luso-italiana.
Os ‘Intervalos’ criados por cada artista em residência, apelam à interpretação de uma coleção que tem a característica peculiar de envergar a sua heterogeneidade em punho. Torna-se evidente, ao longo da exposição, que a reunião de artistas com práticas tão distintas amplia as possibilidades de diálogo com a coleção, permitindo atualizá-la, subvertê-la ou questioná-la a partir de perspetivas contemporâneas. Partindo de encontros formais com as obras do museu, os trabalhos desenvolvidos durante a residência, no refúgio da montanha, promoveram não apenas uma aproximação dos artistas à coleção, mas também a integração de olhares singulares, construídos e aprofundados ao longo do processo. Este exercício revelou de que modo diferentes dimensões da prática artística de cada residente encontraram ressonância no museu, cumprindo, assim, o propósito máximo do Museu que Abel Lacerda imaginara.
Com curadoria de José Maçãs de Carvalho, a exposição pode ser visitada no Museu do Caramulo até dia 8 de agosto de 2026.
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