Cronia, do grego Kronos, é o sufixo que exprime a ideia de tempo. Sincronia, ao mesmo tempo; diacronia, evolução através do tempo. É também o sufixo de Terrcronia, ou o tempo da terra, projeto levado a cabo pela Associação Oficinas do Convento, sob a curadoria de João Rolaça, para Montemor-o-Novo. A cidade é uma das pertencentes ao distrito de Évora, Capital Europeia da Cultura 2027. Terracronia acontece ao abrigo de um evento maior - VAGAR - que nomeia a programação que decorre no território alentejano de 2026 a 2027.
Foi em torno do conceito de VAGAR que o programa cultural de Évora orientou seu projeto na região do Alentejo. Alicerçada em três linhas temáticas - Tempo, Espaço e Matéria - a programação cruza arte e ciência, o local e o global, lançando sementes para o futuro da região. Dialoga, nesse sentido, com a particularidade da região alentejana, suas cidades e comunidades, ao mesmo tempo que responde e evoca o caráter cosmopolita do projeto.
Nesse contexto, durante os meses de maio, junho e julho de 2026, Terracronia vem sendo um percurso de encontros e atividades que pretende integrar práticas materiais e metafísicas ao território da cidade. O projeto inclui artistas convidados e palestras que orbitam em torno dos temas da Floresta de Montado, característica da região, a Terra e seus processos de Produção e Poesia; o Encontro de Gerações e Saberes Tradicionais na sua relação com a arte contemporânea — e os Imaginários necessários para construir um mundo.
A propósito deste último tópico, entre os dias 20 e 23 de maio, decorreram três encontros com o filósofo italiano Federico Campagna a respeito do seu próximo livro How to Build a World. Em diferentes lugares da cidade de Montemor-o-Novo - O Convento de São Francisco, a Biblioteca Municipal, a Ermida da Nossa Senhora da Visitação - o filósofo apresentou as principais ideias do seu novo livro, que pensa o mundo não como uma realidade simbólica estática, mas passível de ser construído e reconstruído.
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Federico Campagna é um filósofo italiano que mora em Londres, autor de Otherworlds: Mediterranean Lessons on Escaping History (Bloomsbury, 2025), Prophetic Culture: recreation for adolescents (Bloomsbury: 2021), Technic and Magic: the reconstruction of reality (Bloomsbury, 2018), e The Last Night (Zero Books, 2013). Federico Campagna caminha entre a filosofia e a arte, sendo possível defini-lo como um filósofo que pensa as condições de possibilidade, os impactos e as consequências de “criar mundos” a partir da história e das lições da metafísica e do seu encontro com o mundo artístico.
Em Mediterranean Lessons On Escaping History, o filósofo reúne um conjunto relevante de histórias dos imaginários da região mediterrânea, da mitologia grega às lendas de Alexandre o Grande, de forma a sublinhar o carácter “criativo” que marca as grandes narrativas históricas, bem como a relação entre a metafísica criadora e a materialidade dos grandes eventos e ciclos transformadores da história da região. O filósofo parte da ideia embrionária de que toda a grande mudança e toda a grande perda implicam a necessidade de (re)pensar a nossa realidade.
A partir daí, Federico Campagna apresentou os principais princípios metafísicos do estabelecimento das bases do Real por meio da metáfora da construção arquitectónica da casa. Do infinito e oceânico das percepções infinitas, o filósofo delimitou, segundo sua teoria, como se forma o Real do Real: o quê e como se constituem as fundações daquilo que acreditamos; de que forma são forjados os seus pilares; como se constroem os seus pisos; se devemos ou não abrir portas e janelas; e qual é o melhor telhado para oxigenar a nossa própria realidade.
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Aldous Huxley, em As Portas da Percepção, retoma uma antiga intuição de William Blake, inscrita no livro O Casamento do Céu e do Inferno: “Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria ao ser humano como é: infinito. O ser humano fechou-se em si mesmo, até que passa a ver todas as coisas através de estreitas fendas da sua caverna.”
É precisamente a partir desse vertiginoso infinito que caracteriza o Real que Federico Campagna inicia a sua digressão: diante da vertigem que seria olhar e sentir o mundo de acordo com a eternidade que marca cada objeto e cada vida — criamos mundos.
Ao olhar um objeto simples como um barril, argumenta o filósofo, estamos perante mais do que um barril: estamos diante de um objeto metafísico. A árvore que o constitui, e que antes de ser árvore, era outra coisa ainda; a mão de obra que o produziu, e a história dessas mãos; a terra em que a árvore cresceu; a história dessa terra. Tudo o que existe, na metafísica, é um pedaço da eternidade. Federico parte dessa eternidade para dizer que a construção de mundos é uma necessidade colectiva e individual. Para que possamos lidar com essa vertiginosa eternidade, fatiamo-la e recortamo-la.
Criar mundos é, portanto, fundamental para a existência. O filósofo vai da antropologia à filosofia para mostrar a vasta capacidade de diferentes sociedades na criação de símbolos, mitos, monstros, deuses, fantasias, verdades, objetos sagrados e profanos, formas de categorizar, imaginar e justificar os acontecimentos do mundo.
Essa pluralidade do real é fundamental para o filósofo, que sublinha a necessidade de manter uma certa elegância em relação à toda a verdade: sabemos que é verdade, mas também não podemos ser engolidos pela verdade. É preciso deixar uma fresta aberta para o Real além do Real: saber que a nossa realidade é uma realidade, e não toda a realidade, é uma das partes fundamentais da construção da realidade. Deixar que o telhado oxigene, que possamos ter dúvidas, que nos encontremos com outros mundos - é parte fundamental do mundo. Nessa necessidade primária de nos atarmos a um Real, observamos, com humildade, que há uma pluralidade de mundos. Que mais do que um Real, estamos diante de uma pluralidade de Reais, forjados cultural, coletiva e individualmente enquanto formas de enlaçar sujeitos e comunidades a si próprios, evitando que saiam voando no infinito abismo da existência.
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Metodologicamente, o filósofo serve-se da metáfora da casa para guiar a construção de um mundo. O seu intuito é guiar o público em uma empreitada à jornada filosófica, que é a construção simbólica do mundo. O filósofo abrirá a porta da ontologia, da metafísica, da construção dos conceitos, enredando-os na sua ideia de que a filosofia pode ser uma maneira de erguer uma casa que nos protege da vertigem do real, à maneira de quem joga um jogo de vídeo em um terreno de paisagem excessivamente abundante.
As bases fundamentais que antecedem a construção de um mundo são: o espaço onde construiremos este mundo e qual a sua função. Um mundo que não tem uma função talvez seja um mundo que não precise de ser criado. Porque, para o filósofo, ao criar um mundo, o mais importante é ter em conta as consequências desse mundo. Um mundo deve ser julgado pelas suas consequências, não pela sua verdade, diz o filósofo. Nesse sentido, o espaço interior-exterior em que se situa a construção do mundo, o espaço limiar da imaginação, deve ser acompanhado de uma pergunta ao mesmo tempo prática e ética: para quê um mundo?
Um mundo pode ser a ideologia moderna europeia, a mitologia grega. Um mundo pode se referir aos fundamentos do islão, assim como à mitologia Yanomami. Mais do que isso, pode também se referir ao nosso próprio mundo individual: aquilo que guia as nossas ações cotidianas, escolhas e crenças fundamentais.
A questão é que um mundo tem sempre uma razão de ser. Como o próprio filósofo pontua no seu livro Mediterranean Lessons, a experiência da imigração é, por exemplo, um emblemático momento de perda de mundo. É uma entrada num terreno limiar, num entre-mundos. Migrar é uma experiência que nos coloca diante de uma espécie de niilismo, uma vez que aquilo que acreditávamos ser fundamental para nossa individualidade e para a nossa identidade colectiva pode se tornar uma banalidade em outro contexto.
E o luto particular dessa experiência é uma perda simbólica, mas também uma possível conquista. Muitas questões actuais passam por essa perda e, consequentemente, pela possibilidade de novos encontros: o encontro entre culturas, o choque entre mundos, a convivência com a diferença, a mudança de paisagem física e mental, tudo isso remete à nossa capacidade e necessidade de, ao longo do tempo e da história, recriar as nossas mitologias fundacionais.
Um mundo, nesse sentido, serve para nos abrigar, mas também para nos conceder estabilidade. Sua função deve comportar uma certa dose de flexibilidade, conviviabilidade e abstração. Mas mais do que isso - e é esse aspecto que podemos tirar como lição do niilismo - é saber que os mundos são ficções. Esse conhecimento nos permitirá medir adequadamente as consequências do nosso mundo, para não sermos engolidos pela própria verdade que incorporamos. Há uma dose de autonomia fundamental em relação ao mundo, uma certa elegância que é da ordem da distância.
Mas Federico pontua ainda duas coisas fundamentais na construção desse mundo que, valha o jargão um pouco neoliberal, ilumina questões práticas importantes: quem é o cliente? Ou seja, quem paga pela construção do mundo? Quem tem o poder de “worlding?” Quando nos deparamos com um desejo ou com um sonho, temos de ter sempre a certeza de que não se trata do sonho de outra pessoa. Ou, numa perspectiva mais materialista, temos de ter sempre a certeza de que não estamos construindo o mundo daquele que está pagando pela construção.
Nesse sentido, o poder e a capacidade de criar mundos deverão ser devidamente diagnosticados: é uma grande corporação, o poder da comunidade, o Estado? Tudo deve ser devidamente avaliado para que possamos criar mundos, bem como identificar quem são os “stakeholders”. Os “stakeholders” para Federico são os “afetados” pelo nosso mundo ou, enfim, aqueles que nele estão implicados. Devidamente considerados, fazem parte da avaliação das consequências do nosso mundo. Dado o jargão neoliberal, estou em dúvida se o livro não poderá ajudar a construir políticas públicas futuristas.
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O livro, que se encontra também ele em construção, vagueia entre o pragmatismo e uma nova-normatividade-criativa, partindo do encontro do niilismo com a metafísica. Dado o contexto artístico de Federico e sua relação com a construção de mundos nos vídeo-jogos, a abordagem acaba por tornar-se uma interessante abertura para a filosofia enquanto campo criativo, bem como para a necessidade contemporânea de repensar nossas mitologias fundamentais.
No contexto da Terracronia, um evento que tem no seu nome um movimento que é, de facto, muito coerente com o que vivemos na contemporaneidade - as mudanças geológicas e cósmicas, colectivas e individuais, físicas e virtuais - as apresentações do filósofo italiano compõem uma espécie de partitura desse Vagar que Évora, enquanto capital da Cultura, propõe ao país e ao continente: uma movimentação mais lenta, ouvindo os ritmos da terra, em contacto com a comunidade, realizando essa tecelagem sofisticada entre o passado e o futuro, entre o contemporâneo e o tradicional, entre a filosofia e a construção material do mundo.
Terracronia é um evento promovido pela Oficinas do Convento – Associação Cultural de Arte e Comunicação, com direção artística e curadoria de João Rolaça. Os próximos eventos decorrerão dia 6 de julho, às 18h, com Teresa Pinto Correia e Ana Fonseca e 8 de julho, às 18h30, com Teresa Pinto Correia e Céu Salgueiro, ambos sobre a Floresta de Montado.