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Bate-papo com Shirley Paes Leme
DATA
13 Abr 2026
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AUTOR
Diogo Bolota
“Desta visita à obra de Shirley Paes Leme, retenho em boa memória o rigor do seu trabalho, que se reflete no fato de sua escultura libertar-se de excessos, sobrando apenas a sua essência. Numa frase, diria que o trabalho da artista, mais do que capturar o “nada”, deixa-nos ao sabor do vestígio de uma memória de infância em Goiás, que leva consigo para todo o lado.”
Na Boca do Sol (Arthur Verocai, Vitor Martins)
Na minha cidade do interior Tudo que chegou, chegou de trem Minha mãe olhava pra estação E vendo viagens dentro de mim Desenhou no ventre mais um irmão   Na minha cidade do interior Pra quem mora lá, o céu é lá Lembro da manhã na boca do sol Vou da avenida à estação Com medo dos pais ou por solidão   Toda a minha vida eu vi passar No brilho dos trilhos de um trem Que me vem e parte toda manhã Engolindo túneis que a gente tem E a preguiça não deixou fechar   Na minha cidade do interior Perto da manhã, na boca do sol Pra quem mora lá, o céu é lá    
No fim de março, no fim do verão no Brasil, as chuvas tropicais dão o sinal de que o outono se aproxima. Finaliza também o Carnaval e o ano inicia um novo ciclo de atividades, depois de uma longa pausa em que a folia misturada com inúmeras cores berrantes começa a ganhar tons mais pastéis, avizinhando essa mudança de estação, que conduz a uma dinâmica de vida diferente nas cidades. Numa metrópole como São Paulo, quando os residentes regressam das suas viagens, o frenesim é substituído pelo foco no trabalho. E durante esse período de assimilação da rotina na cidade, os paulistanos vão fazendo pequenas fugas para a natureza no decorrer do resto do ano.
Também foi o meu caso na passada visita ao Rio de Janeiro, cujo motivo principal foi uma palestra da artista Shirley Paes Leme, que decorreu no auditório da UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro, no âmbito do programa de pós-graduação em artes. Sob o tema Minha terra está em mim, a artista falou aos alunos sobre seu percurso e contou algumas das histórias, imediatamente após a abertura de uma exposição individual em Porto Alegre intitulada Dias Normais, precedente à sua chegada ao Rio.
Nesta e noutras exposições, como é habitual na sua trajetória, o seu trabalho expressa-se em várias frentes, viajando do desenho até outros trabalhos que requerem tecnologia de ponta. Tal como o título da conferência indica, o seu interesse pela ideia de pertença à sua terra e a vontade de a dar a conhecer muito se relacionam com o conhecimento sobre a arquitetura vernacular e urbana. Deste modo, o trânsito de uma realidade para outra, representado também na sua obra, remete para o êxodo entre a cidade e o campo, a metrópole e o sertão. Mas independentemente dessa ideia de fluxo, desde que era garota, na infância passada na Cachoeira Dourada onde nasceu, o maior encantamento de Shirley eram elementos naturais, com os quais convivia regularmente na fazenda. Refiro-me ao ar sobre a forma de poeira, ao fogo proveniente do fogão a lenha e das lamparinas, numa época em que não existia eletricidade e, claro, à água proveniente das cachoeiras/cascatas.
É nesse contexto rural de um interior do país em Minas Gerais que as brincadeiras de Shirley ganhavam contornos de premissas para as suas primeiras ideias como artista. No entorno da casa de infância, num galpão de depósito de cereais, coabitavam picumãs, uma palavra em Tupi-guarani com uma tradução possível para “peruca”. A artista, enquanto jovem, capturava essas formas, destruindo a sua forma original por via desta ação, sob outro ponto de vista, uma transformação, em que, ao aplicar um gel que evapora, as fixava sobre uma folha de papel. Este processo natural de captura do efêmero era o início de uma pesquisa em torno da própria efemeridade da arte.
Em 1970, a Spiral Jetty de Robert Smithson foi um marco no Utah e assinalou, entre outras obras, o nascimento da landart; nessa época, Shirley ainda era adolescente e talvez tenha descoberto nessa construção de picumãs um fenómeno que acompanhou o seu trabalho desde então. A fumaça/o fumo sobe assim como a gordura dos fogões a lenha, juntam-se às teias de aranha, criando o picumã; matérias naturais que a escultora tem utilizado desde sempre. Este processo, inevitavelmente, culminou na utilização do próprio fumo congelado no papel, como a tentativa de fixação ou captura do mesmo, apesar da sua imaterialidade. Daí surgiu uma série intitulada Através da Janela para Amílcar de Castro, realizada com fumaça, que homenageia a obra do escultor.
Anterior ao desígnio do desenho sob a forma de escultura, numa época em que lecionava na Universidade Federal, em Uberlândia, e em que mundialmente o retorno à pintura era o enfoque principal, a artista realizou a sua obra de maior escala até então, chamada Formas Lúdicas no Espaço: um parque lúdico para crianças, no parque Sabiá, na mesma cidade. Um dos principais atrativos do parque era o Túnel Sonhado, uma construção tecida com cordas de sisal, com 60 metros de comprimento que seriam atravessados pelas crianças. Esta obra constituiu o ponto de partida para as instalações de grande escala que se seguiram.
Após a conclusão do projeto do parque, a artista foi bolseira da Comissão Fulbright e continuou os seus estudos em Arte nos Estados Unidos da América. Enquanto isso, o seu regresso a Uberlândia, onde teve o seu primeiro estúdio, foi adiado pelo começo de uma carreira internacional, só voltando a expor na Galeria da Oficina Cultural de Uberlândia em 1998, dezoito anos depois. Na galeria, ao redor do silêncio e da inexistência de uma única aragem, vislumbrava-se uma série de galhos sobrepostos e cobrindo toda a área do recinto. Avistava-se na exposição Pela Fresta, no centro da sala, uma chama protegida que anuncia também a iminência de uma calamidade. Mas o infortúnio não se manifestou nesta exposição, não havendo nenhum incêndio. Ao invés disso, anos mais tarde, a prefeitura destruiu o parque Sabiá para construir campos de futebol em 2005. Este episódio assinalou uma relação diferente com Uberlândia, coincidindo com a sua mudança para São Paulo. Com o novo estúdio na cidade, a sua pesquisa sobre a fumaça acentuou uma relação estreita com o seu índice de poluição, pesquisa iniciada em 1984 nos Estados Unidos. Quem sabe se o conceito de cultura, que esteve durante muito tempo associado à Natureza (cisão que Kant anuncia), passou a ser para Shirley, nesta sua nova residência, o binómio de “cultura enquanto natureza”/“existir apenas cultura na cidade”. E esta eloquência das palavras, presente desde muito cedo no trabalho de Shirley Paes Leme, tornou-se parte integrante das suas esculturas em 2014, numa exposição em Belo Horizonte, em que palavras viram imagens refletidas num espelho de água: um dos quatro elementos da terra, referido no início deste texto.
O uso da palavra pela artista, e o recurso à poesia, deve-se, em parte, à sua relação com a literatura e ao facto de ter sido professora durante muito tempo, nomeadamente na Faculdade de Santa Marcelina em São Paulo. A mesma cidade, onde se encontra o seu atual estúdio (não muito longe da Galeria Raquel Arnaud que representa o trabalho da artista), foi alvo de uma reflexão sobre a qualidade do ar, recorrendo à utilização de filtros usados de carro como formas para fazer desenhos/colagens que, ainda que escultóricos, remetem para a ideia de paisagem, aludindo ao skyline da urbe. Nesse estúdio, onde passa o seu dia a dia, Shirley Paes Leme divide-se entre a elaboração de maquetes para novas ideias e projetos e a preparação de exposições, incluindo a exposição que inaugurará na Appleton Square, em Lisboa, no próximo 2 de julho de 2026. Para além do mais, dedica-se ao restauro e à manutenção de algumas peças, cuja fragilidade requer cuidados constantes, e à inventariação da sua biblioteca pessoal, com livros de décadas de investigação.
Posso respirar fundo, ainda que regressado a São Paulo e não seja muito aconselhável inspirar o ar citadino: desta visita à obra de Shirley Paes Leme, retenho em boa memória o rigor do seu trabalho, que se reflete no fato de sua escultura libertar-se de excessos, sobrando apenas a sua essência. Numa frase, diria que o trabalho da artista, mais do que capturar o “nada”, deixa-nos ao sabor do vestígio de uma memória de infância em Goiás, que leva consigo para todo o lado.
BIOGRAFIA
Diogo Bolota (Lisboa, 1988). Vive e trabalha em São Paulo. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, entre 2006 e 2008, e licenciou-se em Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, em 2012. Em 2013, concluiu o MA Drawing pelo Wimbledon College of Arts, University of Arts, Londres. Expõe regularmente desde 2014. Apresentou as exposições individuais: Nítido e Oscuro, 2025, na Obejto Particular em São Paulo, A infamiliaridade das coisas, 2024, CAMA - Kubikgallery, em São Paulo; C'est quoi cette danse?, 2024, Dialogue Gallery, em Lisboa; Partida do Fim, 2023, Gabinete Giefarte, em Lisboa; The Air-Conditioned Nightmare, 2021, Uma Lulik Gallery em Lisboa; Defeito Desfeito, 2020, no Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes; Sinalefa, 2016, no Mu.sa - Museu das Artes de Sintra; Esgaravatar, 2016, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, em Lisboa; Objectar, 2016, no Museu Geológico de Lisboa; e Sabotagem, 2015, n'A Ilha no Maus Hábitos, no Porto. Entre as exposições coletivas destacam-se Escuta à procura de som, 2019, no Consulado Geral de Portugal em São Paulo; Nome do meio, 2018, na Moradia; Cidade Jardim, 2017, na Galeria Diferença; Babel, 2015, na Miguel Justino Contemporary Art; e Canto Chanfrado, 2014, no Espaço Avenida 211. Tem o seu trabalho publicado pelas editoras Sistema Solar/ Documenta, Caixa Negra (Saco Azul) e Fundação de Serralves. Em 2024, foi nomeado para o Prémio Norberto Fernandes da Fundação Áltice e em 2017, foi nomeado para o prémio Novo Banco Revelação, Fundação de Serralves. Em 2019, foi artista residente da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) em São Paulo, Brasil.
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