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Carlos Mensil – A Grande Dança
DATA
10 Abr 2026
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AUTOR
Mariana Machado
A exposição A Grande Dança, de Carlos Mensil, ocupa o Fórum Arte Braga até 24 de abril. Com curadoria de João Terras, a exposição apresenta novas produções a par de algumas obras reapropriadas a este contexto, que recebe o seu título de uma expressão do físico italiano Carlo Rovelli. Através de vários mecanismos continuamente em movimento ou processos de ativação/desativação, onde a luz assume um enorme protagonismo, o trabalho de Mensil parece focar-se, acima de tudo, nesta intervenção clínica e precisa sobre a matéria, que nos devolve oscilações sensoriais.
A relação entre os trabalhos aqui presentes, o vocabulário e a conceptualização científica é imediatamente notória, seja na referência explícita no título da exposição, nos títulos de peças como x̄’ ou Buraco Negro ou nos próprios objetos que as constituem - entre eles, corante alimentar, atomizadores ultra-sónicos, um aquário, componentes eletrónicos, lupas, entre muitos outros que, contrariamente a invisibilizarem-se perante o objeto artístico apreendido, oscilam entre a invisibilidade e a sua faceta mais direta e reconhecível dependendo do estado luminoso do espaço. Vemos, então, estruturas que rodam, recipientes que enchem, luzes que acendem e que, muitas vezes, provocam outros fenómenos em sequência. Mas estas relações de causalidade – numa semelhança menos exagerada a Fischli & Weiss -, interferência ou simultaneidade definem o espaço que, constantemente em desenvolvimento, assim se assemelha quase a um laboratório de imagens, no sentido de nos apresentar processos de experimentações técnicas. Não que a tecnologia não faça parte da produção de qualquer imagem, mas peças como Engrenagem revelam a produção de uma pequena animação, simples e cíclica, através de sombras e de um mecanismo aberto e visível.
Esta relação clínica com o material e com a produção artística ressoa com a forma como o artista sonoro e músico Mark Fell descreve o seu próprio trabalho: “uma descrição da criatividade como um processo de sintonia com o ambiente material, e não como uma viagem isolada ou interior para os próprios pensamentos ou mente ou alma (...) uma conduzida por uma curiosidade critica ao invés de uma coisa chamada inspiração... da qual não sei nada”1. Esta aproximação entre dois campos, muitas vezes antagonicamente colocados, parece ainda mais explícita pelo caráter visual da exposição. A questão já não remete apenas ao método, que antecede o objeto, mas à apresentação de um método no objeto, que se forma através de uma jornada orientada acima de tudo por um sentido de descoberta. Como refere Catherine Z. Elgin relativamente à arte e ciência, “não estando restringida a factos, a compreensão é mais abrangente que o conhecimento jamais esperou ser. (...) A compreensão estética é semelhante. Não se trata primordialmente de conhecer verdades sobre arte ou verdades que a arte revela, mas de usar a arte eficazmente como veículo para exploração e descoberta”2. Certamente, esta aproximação recai igualmente no campo da ciência e nas transformações que sofreu no último século, nomeadamente na física quântica que sustenta o título da exposição como ‘a grande dança do mundo’. O conhecimento sobre o mundo – ou mundos, ou materiais – forma-se não por um processo de leitura, mas de intervenção, a base para definir o que usualmente chamamos de experimentação ou exploração.
Os dispositivos que encontramos na exposição são, assim, ao mesmo tempo autónomos e interinfecciosos. O exemplo mais claro é provavelmente a peça Buraco Negro que, ocupando o centro do espaço expositivo, através de um aquário que progressivamente oscila entre cheio e vazio, transforma a iluminação do espaço entre escuro, iluminado e todos os espaços intermédios. Sendo assim, a luz, talvez o material protagonista de toda a exposição, é em todo o espaço determinada em função deste mecanismo que, seguindo o conceito astronómico que lhe dá nome, controla a energia de tudo o que o rodeia e que funciona de forma mais subtil. Nesse sentido, obras como Levantar Ondas ou Teia mostram precisamente movimentos rotacionais contínuos através do contacto entre mecanismos minimalistas e luzes pontuais que difratam e refletem ao encontrar água ou aço. Desta forma, a dominação espacial introduzida por Buraco Negro não introduz apenas um mecanismo com uma escala diferente, mas, acima de tudo, uma oscilação generalizada na própria organização da interação entre o espetador e toda a exposição. Quando o espaço se encontra mais escurecido, os mecanismos encontram-se ocultos, de difícil perceção, e as suas subtis e serenas manifestações mais apreensíveis. Por outro lado, quando o espaço se encontra mais iluminado, as luzes provenientes das peças desvanecem-se e os esqueletos que as constituem evidenciam-se. A exposição parece sustentar-se sobre esta oscilação entre estas duas imagens que oscilam, inseridas nos mesmos objetos e espaço. Com as devidas imprecisões, relembramos a binariedade das imagens científicas e manifesta como enunciadas por Wilfrid Sellars: “Caracterizei a imagem manifesta do homem-no-mundo como a estrutura através da qual o homem se encontrou consigo mesmo. (...) O que quero dizer com imagem manifesta é um refinamento ou sofisticação do que poderia ser chamado de imagem 'original'. (...) Assim, a estrutura conceptual a que chamo de imagem manifesta é, no seu sentido apropriado, em si uma imagem científica. Ela não é apenas disciplinada e crítica; também utiliza aqueles aspetos do método científico que poderiam ser agrupados sob o título 'indução correlacional'. No entanto, há um tipo de raciocínio científico que ela, por estipulação, não inclui, a saber, aquele que envolve a postulação de entidades impercetíveis e princípios a elas pertinentes para explicar o comportamento de coisas percetíveis.”3 Ou seja, para Sellars, o que distingue as duas imagens, decorrentes da ciência contemporânea, é precisamente a inclusão ou não de entidades impercetíveis que explicam as entidades percetíveis, da mesma forma que a oscilação entre estados na exposição oscila entre fenómenos percetíveis e explicações impercetíveis – tornadas percetíveis.
É deste modo que o papel do artista, nesta dinâmica, fica aproximado ao do cientista intervencionista que concilia as diferentes imagens. Lembrando a figura do engenheiro, referenciado também na folha de sala, “ao estudar e manipular uma viga de aço, por exemplo, os engenheiros não procuram uma imagem da viga que permaneça a mesma, independentemente do nível de zoom. O que lhes interessa é como o comportamento da organização material da viga se altera à medida que aumentamos o zoom ou passamos de um nível para outro. (...) Explicar uma sombra na parede por si só, isto é, referindo-nos às suas próprias características, é apenas descrever a sombra. Para explicar a sombra, é necessário intervir ou manipular o que a projeta. Ao manipular o poste de madeira, decidimos se ele explica a sombra ou não e, em caso afirmativo, de que maneira. Isso é o que se chama de explicação manipulacionista: X explica Y se, e somente se, tivéssemos intervido em X, Y não teria sido produzido. Intervenção torna-se sinónimo de explicação.”4 É com materiais semelhantes aos deste exemplo que encontramos no trabalho de Mensil a mesma lógica de descoberta manipulacionista. Por exemplo, Miragem é direcionada em torno de um fenómeno ótico pré-existente que condiciona uma investigação ao mesmo tempo replicante e formalmente construtiva. É através deste jogo entre o escuro e o iluminado, representativos de duas imagens da exposição ou do mundo, que Carlos Mensil constrói a grande dança da descoberta do mundo, científica ou artística, entre o espaço escuro e o iluminado.

1 Mark Fell, In and On Tools
2 Catherine Z. Elgin, Understanding: Art and Science, pp. 14-15
3 Wilfrid Sellars, Philosophy and the Scientific Image of Man, pp. 6-7
4 Reza Negarestani, Frontiers of Manipulation
BIOGRAFIA
Mariana Machado (2000) nasceu no Porto e estudou Cinema na Escola das Artes - Universidade Católica Portuguesa. Neste momento, frequenta o Mestrado em Artes Digitais e Sonoras, também na Escola das Artes. É artista e investigadora, interessando-se acima de tudo por manifestações que articulem a imagem em movimento num contexto entre o cinema e a arte contemporânea, assim como pelas potencialidades artísticas de novas tecnologias e suas articulações com outras materialidades.
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