You leave in the morning with everything you own in a little black case
Alone on a platform, the wind and the rain on a sad and lonely face
(Smalltown Boy - Bronski Beat)
Esta é uma das frases presentes em Cry, Boy, Cry (2026), o primeiro dos quatro bares-esculturas que fazem parte da exposição Dawn, de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, patente na Galeria Cristina Guerra. São muitos os estímulos visuais que compõem a peça, mas a referência à Bronski Beat captura especialmente minha atenção. Tal como na noite, nos perdemos nos escritos acumulados pelas paredes dos banheiros, parando naquele que toca um lugar afetivo, do reconhecimento, da memória. Como um filme, relembro cenas, as sensações ambíguas de voltar ao amanhecer para casa, epifanias em meio às luzes e lasers, a sinergia com as pessoas ao redor, a melodia que alcança uma profundidade íntima, a melancolia, a solidão, o retorno. Dentre tudo isso, se sentir viva.
Da experiência individual à coletiva, Dawn é uma exposição marcante e simbólica. A dupla Vale + Ferreira, que traz em seu corpo de obra a vivência queer, apresenta, desta vez, o bar enquanto espaço político, de encontro e partilha da comunidade LGBTQIAPN+, onde é possível ser quem se é, por inteiro. Longe dos estigmas e opressões da heteronormatividade, os bares são espaços onde, muitas vezes, encontram um lugar de pertencimento, ao mesmo tempo refúgio e palco, paradoxalmente.
Lá fora a cidade cuspia-nos na cara. Cá dentro aprendemos novos nomes para o desejo.1
O ambiente escuro, com exceção das luzes dos bares e do reflexo do globo de Cry, Boy, Cry (2026) que se espalha por toda a galeria, evoca uma teatralidade, junto às cenas que acontecem simultaneamente, interpretadas por Cire Ndiaye, Diogo Bento, Afonso Peixoto e Ângelo Castro. O percurso não linear pode prolongar-se, envolvendo o espectador com textos emblemáticos e interações com os performers. Cada um dos bares apresenta uma proposta estética e um desenho singular, um apurado trabalho realizado em colaboração com o estúdio de arquitetura fr-ia. Enquanto RISE (2026) exibe uma estrutura em espiral com transparências e luzes que se alteram em cores, STUD (2026) impõe-se de maneira mais bruta, pelo formato e pela materialidade do ferro, contrastando o seu peso com a leveza de RISE (2026). São oferecidas doses ao público. Aceito as misteriosas poções até que, através das grades pontiagudas e sob a luz vermelha de STUD (2026), me dizem ser lágrimas. Pela primeira vez, recuso - bastam as minhas.
Vivemos tempos sombrios. Num período em que crescem as ameaças aos direitos e liberdades das pessoas LGBTQIAPN+, vemos espaços queer serem fechados em Lisboa e direitos retirados de pessoas trans - com a recente revogação da lei de autodeterminação de gênero em Portugal -, esta exposição ecoa em sua urgência. Num circuito relativamente restrito como a cena de arte portuguesa, ter artistas estabelecidos que trazem e ampliam tais discussões para além da própria comunidade é fundamental. Em cartaz durante o mês do orgulho LGBTQIAPN+, a exposição sublinha a potencialidade da arte enquanto espaço de reflexão crítica, de confrontar o retrocesso e o conservadorismo, reafirmando-se enquanto força ativa de resistência. Dawn - o alvorecer - é um instante que reverbera.
A exposição está patente na Galeria Cristina Guerra até dia 4 de julho, data em que decorrerá a última performance. Mais informações sobre a exposição estão disponíveis aqui.
1 Trecho do texto de STUD (2026), Dawn.