article
Scrolls, no Buraco: Os Dois Lados da Mesma Moeda
DATA
25 Jun 2026
PARTILHAR
AUTOR
Maria Inês Augusto
“O título da exposição remete-nos para pergaminhos, mas também para o scroll, um gesto de consumo: deslizar, avançar. A imagem reduzida à sua condição mais descartável. Ainda assim, os artistas parecem propor exactamente o contrário, sem nunca o transformar numa espécie de declaração moral. Obriga-nos a voltar atrás, a perdermo-nos num detalhe, a tentar perceber o sistema. Há coisas para ler ali - pede tempo. Tempo para perceber aquilo que desaparece e aquilo que persiste nas pinturas de Sofia. Tempo para acompanhar as imagens pressionadas de Roger. Tempo para ler esta proposta de procurar chegar aos primórdios da linguagem de representação, o falso automatismo num gesto que é, afinal de contas, intencionado - apesar de não haver necessidade de estudo, de grande preparação para o que se constrói e apresenta.”
Combinei com o João Bragança Gil ir ao Buraco visitar Scrolls. Cheguei com pressa — não queria perder aquilo que tinha para ver — e sem grande urgência em procurar relações entre os artistas. Ou melhor, entrei convencida de que, tendo em conta a exposição que era, não fazia sentido esse exercício de aproximação. Roger Paulino e Sofia Mascate vêm de lugares demasiado distintos para caberem numa leitura unificada, pensei eu. E isso parecia-me, à partida, suficientemente claro.
Mas há exposições que não se deixam ficar onde as colocamos.
Roger parte frequentemente da gravura enquanto prática e método: matriz, prova, erro, repetição. Um sistema em que a imagem se constrói pela insistência do gesto, por variações cromáticas sobre outras variações, por inscrições estruturais, por objectos e formas que vão e vêm. Como se cada obra fosse um teste de resistência à própria ideia de imagem.
Sofia vem da pintura, embora isso diga pouco sobre a exploração que desenvolve no seu trabalho. Nele reconhece-se uma vontade de composição que funciona também como forma de pensamento histórico. Naturezas-mortas, dispositivos visuais com universos próprios, centros gravitacionais carregados de referências que acumulam tempo e memória. Sem qualquer desejo de restauração, porém. O que se encontra é, antes, um exercício de reinvenção, uma exploração que avança por desvios, subtracções e descobertas.
Dito assim, na teoria, tudo parece afastá-los. Na prática, percebi que alguma coisa insistia em aproximá-los - mas já lá iremos.
Scrolls começa quase como um prólogo. Logo à entrada, duas obras antecipam o que iremos percorrer: Lungs (2022), de Roger, e Regress (2026), de Sofia. Linogravura de um, desenho a caneta sobre cartão de outro - este último recortado num ângulo que funciona simultaneamente como suporte e moldura.
No piso superior encontram-se Tamagotchi (2024), de Roger, e uma série de desenhos de Sofia com figuras, cornucópias, laços, jarras, búzios e frutos. Há qualquer coisa de imediato nestas composições, mas não de ingénuo. Imagina-se um traço rápido, quase compulsivo, como se os signos precisassem de ser libertados antes de se organizarem. E, no entanto, essa rapidez não implica uma leitura rápida. Pelo contrário.
Nas pinturas a óleo sobre vidro aqui apresentadas, essa lógica torna-se ainda mais evidente - Summer, Winter, Spring, Autumn (2025). Existe uma aproximação à tradição que a artista simultaneamente convoca e desmonta. No centro da sala, um dispositivo com a representação de dois cães afrontados, enquadrados por uma moldura rematada por um laço e ladeados por jarras floridas, convoca ecos da pintura clássica num sentido amplo. A composição é cuidadosamente centrada e a narrativa visual encontra-se, a meu ver, carregada de significado. Algo semelhante acontece no trabalho de Roger, embora por outros meios: através de uma especificidade técnica que tem vindo a refinar e de uma atenção persistente à construção da imagem.
Foi no piso inferior, enquanto conversava com João Bragança Gil, que percebi estar a estabelecer relações sem autorização, um desvio em que os dois se encontram. Uma mancha que me parecia responder a outra, um fragmento que repetia uma forma noutra parede. Surgiam continuidades que não estavam inscritas em lado nenhum, mas que pareciam aproximar as tentativas de ambos os artistas de interpretar o mundo: a história da arte, os fragmentos de vida, os símbolos e os signos. A forma como atravessam passado e presente sem qualquer pudor, fazendo coexistir referências antigas e contemporâneas na procura de algo ainda por formular.
Sofia trabalha também por apagamento, por subtracção de matéria, por transparências e sobreposições. Algumas das obras a óleo sobre vidro funcionam como frente e verso - outras composições surgem conforme nos deslocamos à sua volta - enquanto outras não dependem dessa inversão. Há pinturas em que as duas faces coexistem sem hierarquia, como se uma superfície prolongasse a outra e a obra recusasse fixar um ponto de término. Explora, no seu trabalho, uma reinvenção de um barroco vivo, alimentado por uma iconografia policromada.
Roger, pelo contrário, produz instabilidade através da proliferação, da repetição e da recusa do encerramento. Pressiona a imagem contra o papel de algodão, insistindo na sua transferência física para a superfície. O resultado, quando visto em conjunto, é uma densidade activa, em que cada elemento parece carregar mais do que aquilo que mostra. Duas estratégias distintas para enfrentar o mesmo problema: como impedir que a imagem se resolva depressa demais.
E depois há a intervenção mural, que é, na verdade, onde tudo começa. Três dias de imersão, techno e gesto contínuo transformam a parede numa superfície saturada de signos. Ao trabalhar na intersecção entre pintura e impressão, procurando uma linguagem que pertence simultaneamente a ambos os territórios, o mural, com tempo de vida limitado, torna-se extensão natural dessa pesquisa.
O título da exposição remete-nos para pergaminhos, mas também para o scroll, um gesto de consumo: deslizar, avançar. A imagem reduzida à sua condição mais descartável. Ainda assim, os artistas parecem propor exactamente o contrário, sem nunca o transformar numa espécie de declaração moral. Obriga-nos a voltar atrás, a perdermo-nos num detalhe, a tentar perceber o sistema. Há coisas para ler ali - pede tempo. Tempo para perceber aquilo que desaparece e aquilo que persiste nas pinturas de Sofia. Tempo para acompanhar as imagens pressionadas de Roger. Tempo para ler esta proposta de procurar chegar aos primórdios da linguagem de representação, o falso automatismo num gesto que é, afinal de contas, intencionado - apesar de não haver necessidade de estudo, de grande preparação para o que se constrói e apresenta. Os dois artistas não se aproximam pela linguagem. Aproximam-se pela resistência - cada um à sua maneira, com os seus materiais, os seus ritmos e as suas obsessões. Dois lados de uma mesma moeda que não se resolvem um no outro, mas que existem precisamente porque não coincidem. No fim, a exposição não é sobre semelhança. É sobre desdobramento: esse modo de manter o que é representado em suspensão, a contaminar. E, como Mariana Tilly escreve na folha de sala, que prazer quando se dá desdobramento.
A exposição pode ser visitada até dia 4 de Julho de 2026.
BIOGRAFIA
Maria Inês Augusto, 34 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) na área dos Serviços Educativos como estagiária e trabalhou, durante 9 anos, no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada durante várias edições e colaborou, em 2023 com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas. Desenvolve, actualmente, um projecto de Art Advisory e curadoria, colabora com o Teatro do Vestido em assistência de produção e tem vindo a produzir diferentes tipos de texto.
PUBLICIDADE
Anterior
article
DAWN, de João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira
24 Jun 2026
DAWN, de João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira
Por Ana Grebler