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Retirar a gravidade à queda, de Carolina Serrano
DATA
24 Jun 2026
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AUTOR
Laurinda Branquinho
Ao primeiro olhar, a galeria parece vazia. Após os primeiros passos, a perceção ajusta-se e torna-se claro que a localização das obras não coincide com a expetativa imediata de um espaço expositivo. As primeiras peças não se apresentam no nosso campo de visão: estão atrás das paredes, integradas numa arquitetura construída para esta exposição, onde o próprio corpo da galeria se infiltra no corpo da obra e, nesse gesto, desloca também o nosso corpo convocando-o para a procura.
Somos assim introduzidos à primeira exposição individual de Carolina Serrano na galeria Balcony, onde o acesso às obras depende de uma relação ativa com o espaço, exigindo que o nosso corpo se incline e que o olhar se ajuste para encontrar aquilo que não se revela de imediato. Esse desvio inicial organiza toda a exposição: ver torna-se um processo de deslocação e de aproximação que conduz a uma sucessão de obstáculos subtis que reconfiguram continuamente a posição de quem vê.
Há, de forma recorrente, um interesse pela fenda, pela entrada semi-aberta, pelo fruto que, ao secar, nos deixa olhar para as suas sementes. Na série Digo apenas em palavras o que conheceis em pensamento, a artista torna o fruto de Hakea o núcleo da escultura. Ao espreitarmos, observamos ramos cobertos de cera onde apenas o fruto permanece intacto. Ao cobrir os troncos e deixar visíveis as sementes, Serrano desloca o foco do objeto para aquilo que nele permanece em suspensão. O mesmo acontece na série Delírio, onde a artista volta a trabalhar a semente enquanto corpo minúsculo que carrega a hipótese de vir a ser.
Este estado de latência acompanha toda a exposição. As sementes, as passagens, as fendas ou as entradas semiabertas surgem como imagens recorrentes; são portas de acesso que não se fecham totalmente sobre si mesmas e que mantêm o visível em tensão com aquilo que o interrompe.
São estas imagens que encontramos na série Vislumbre (2026), onde a estrutura da escultura parece assumir a forma de uma caixa de tampa aberta ou de um baú, que, novamente, se dilui nas paredes da galeria e só se revela quando nos aproximamos. A imagem nasce no seu interior, refletida no espelho que duplica o ponto de vista, e é nesse reflexo que encontramos fotografias de entradas de grutas e de aberturas em rochas. A gruta, enquanto primeiro refúgio e primeira galeria sagrada, emerge como figura de acesso, convocando uma relação com o desconhecido. Já os espelhos - presentes em todas as obras da exposição - operam como dispositivos de retorno, inscrevendo o observador na própria experiência de observação. É precisamente a partir deste jogo entre aproximação e revelação que a relação entre a gruta - enquanto figura literal e metafórica - e o espelho se adensa, porque ambos prolongam o movimento que a obra já nos impõe. Avançamos para ver melhor e, no entanto, no instante em que chegamos perto, o espelho devolve-nos a nossa imagem, criando um intervalo onde o olhar se torna consciente de si.
As fendas que Carolina Serrano abre nas paredes da Balcony foram construídas para revelar e esconder simultaneamente, estabelecendo um jogo de aproximação onde somos nós que temos de descobrir e insistir, dando corpo à palavra “procurar”. Deste movimento resultam encontros com objetos e imagens que, à primeira vista, não estavam visíveis, e é nesse surgimento inesperado que novas questões se sobrepõem às anteriores.
É esse movimento de curiosidade que nos guia pela exposição Retirar a gravidade à queda, título que sugere precisamente a transformação da queda num estado de suspensão e possibilidade. Em vez de dissolver o peso do desconhecido, a exposição parece deslocá-lo para a própria experiência de ver, fazendo com que o que vemos dependa sempre da nossa aproximação e do modo como nos colocamos no espaço. O olhar não se fixa nem se resolve, ajustando-se continuamente ao que vai sendo revelado pela própria exposição.
Retirar a gravidade à queda está patente até ao dia 4 de julho na galeria Balcony.

BIOGRAFIA
Laurinda Branquinho (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.
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