O silêncio alienado, a palavra implícita, a tensão de vozes contraditórias e a pausa onde tudo se insere constituem o ponto de partida desta exposição, que inaugura uma nova dimensão do conceito The House of Private Collections. Entre a Palavra e o Silêncio parte da coleção particular convidada de José Carlos Santana Pinto, apresentada na galeria 3 do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM), tornando a coleção privada num espaço de reflexão pública.
Num território de suspensão, a palavra e o silêncio constroem-se mutuamente, num espaço onde o pensamento se forma, hesita e, ainda assim, se transforma. A ambiguidade da palavra é transmitida ao longo da exposição por meio da cor verde. Transversal a diferentes obras, esta cor remete à dimensão cinematográfica, onde é frequentemente utilizada como arma de manipulação, de transformação e de ocultação de elementos presentes. Em articulação com a frase inscrita na parede inicial da exposição, “siempre digo la verdade, pero no toda la verdade”, estabelece-se um diálogo entre obras que permite uma reflexão sobre o que é oculto, o que permanece além da visão e que pertence ao pensamento íntimo. A palavra revela-se, assim, como um lugar de poder: um dispositivo que seleciona, afirma, mas também silencia.
Quem detém o poder da palavra? E de que forma o exerce? Terá a palavra o mesmo poder quando dissociada de quem a enuncia? Estas são algumas questões que emergem ao deambular na exposição, particularmente através de obras em que os rostos são ocultados, revelando o silêncio de um corpo ausente, ou surgem esbatidos por uma névoa que os distancia, intensificando a suspensão e o silêncio. A relação entre a palavra e quem a profere permite questionar se existem desequilíbrios de poder, uma vez que, se pessoas distintas disserem a mesma coisa, esta pode ser recebida de forma diferente. A obra Original World #2 - Peintures d’histoire (2006), de Agnès Thurnauer, propõe exatamente esta reflexão: ao tornar os nomes de ilustres pintores em nomes femininos, questiona se a palavra desses artistas, caso tivesse sido a de uma mulher, teria o mesmo impacto cultural.
Ao longo do percurso expositivo, a palavra afirma-se simultaneamente como presença material e como campo de rutura e questionamento. A presença de muros no corredor lateral, junto às janelas, convoca diferentes leituras. Num primeiro momento, estabelece-se uma relação direta com o exterior. Os muros rebaixados, que permitem a visão além das paredes de exposição, sugerem que este espaço entre a palavra e o silêncio se manifesta também na criação de horizontes. Por outro lado, esses mesmos muros podem ser interpretados como metáforas das barreiras impostas pela linguagem. A linguagem surge, assim, numa constante tensão entre limite e possibilidade, Paradoxalmente, esta pode também ser entendida como uma força de unificação universal, capaz de provocar o desmoronar simbólico dos muros entre pessoas, lugares e culturas.
Em algumas obras, a palavra surge de forma direta, gráfica e insistente, ocupando o espaço visual com a contundência de um enunciado aparentemente inequívoco. É o exemplo do tríptico Tout va bien (2003) de Antoni Muntadas onde esta frase, repetida, deslocada, cromaticamente alterada, perde progressivamente a sua função afirmativa, tornando-se quase irónica. Aqui, a palavra expõe o desfasamento entre linguagem e realidade, revelando como o discurso pode operar como superfície que encobre, mais do que como instrumento de clareza. O excesso de visibilidade da palavra conduz paradoxalmente ao silêncio do sentido.
As obras reunidas na exposição revelam diferentes vertentes do acervo, marcado pela convivência entre artistas portugueses e internacionais, bem como por diálogos transversais que ultrapassam fronteiras geracionais, disciplinares e linguísticas. Em múltiplos suportes, da escrita ao desenho, da escultura à instalação, a palavra desdobra-se em fragmento, enunciado, repetição ou ausência e, por sua vez, o silêncio manifesta-se na suspensão do discurso.
A exposição, que procura formular respostas, afirma-se como espaço de interrogação. O pensamento não é imposto, mas provocado. Entre o que é dito e o que permanece por dizer, abre-se um campo fértil de reflexão sobre linguagem, conhecimento, perceção e poder.
Entre a Palavra e o Silêncio, com a curadoria de Adelaide Ginga, está patente na galeria 3 do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM) até 1 de junho de 2026.