I am not for everyone (não sou para toda a gente) é a frase que abre a exposição. Assim demonstrando a singularidade identitária de cada indivíduo, esta declaração convoca um todo e, simultaneamente, revela uma “intimidade” partilhada: um pensamento, uma emoção e uma perceção individual que se projeta a um nível interpessoal com o qual se é possível relacionar e permite o espelhamento no outro. E, tomando a sua forma espiral, desencadeia um desenrolar de movimentos que partem do individual para o múltiplo e do múltiplo para o individual. A frase revela-se em si mesma movimento, dando início à construção da multiplicidade do eu num constante jogo dialético entre o privado que se torna público, entre o que é pensado e o que é dito, entre o estático que se transforma em móvel.
Numa primeira parte da exposição, a experiência é a de entrar numa casa que não é a nossa, mas na qual nos reconhecemos. Um espelho no qual nos vemos, mas que reflete um outro que nos encara. Uma mesa que, no lugar de cadeiras, apresenta espelhos como reflexos de uma ausência subentendida - objeto este que circundamos, mas que, numa relação dual, nos capta de volta como sua parte integrante. Embora estático, cria, apresenta e emite o movimento. Um som iminente invade o espaço, convida-nos à aproximação, colocando em foco dois elementos naturais que remetem à origem do planeta e de toda a vida, incitando a reflexão sobre como a nossa própria criação é também procedente de movimento.
Aqui, a multiplicidade do eu manifesta-se tanto nos reflexos dos espelhos, permitindo que o espectador se torne parte deste múltiplo, como nos gestos diários de uma rotina que não é a nossa, mas que se inscrevem como identidade na presença subentendida de um corpo ausente que deu uso a uma cama. Estes objetos implicitamente habitados tornam-se parte do eu e são meios de expressão do seu íntimo.
Numa segunda parte da exposição, permite-se uma exploração mais imediata da expressão do corpo enquanto objeto habitado pela consciência. Um corpo que se oferece ao uso e que, através do espernear, dançar, correr, encolher ou esticar, se transforma num espelho da mente e num meio de transmissão do eu e da sua identidade. Os olhares dos diferentes “eus” presentes na exposição dão azo a pensar na dimensão especulativa de como nos interrelacionamos, e sobre como essas linhas se esbatem na relação com o espaço e com o outro. Num momento final, a exposição insere-se novamente num jogo de escondidas em que o ínfimo movimento transforma toda a realidade.
O eu como múltiplo age como um espaço celebrativo, mas igualmente experimental, das tangências da identidade em movimento. Refletindo que se cada gesto é criador de instante e, por consequência, de uma memória, somos uma construção física de memórias, de palavras, de imagens e de movimentos. Por fim, a exposição age como um campo de diálogo entre as contradições e possibilidades infinitas da complexidade do sujeito.
Com curadoria de Carolina Quintela, a exposição está patente na galeria 4 do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM) até 4 de maio de 2026.