Enquanto projecto expositivo alargado, Diante do Tempo constrói-se a partir de uma reflexão sobre a passagem do tempo na arte, sobre património, política e a dimensão temporal inscrita na própria materialidade das obras. O tempo é aqui entendido como uma matéria viva, atravessada por descontinuidades, retornos e camadas de memória, sujeita a processos de interrupção, reactivação e reconfiguração que produzem sentido no presente. Ao longo dos seus diferentes momentos, o projecto abre-se a uma multiplicidade de práticas, gerações e linguagens, promovendo confluências, mas também fricções e confrontos.
Segundo Vera Appleton, este projecto implicou um exercício distinto do que habitualmente orienta a programação da associação, uma vez que foi pensado para a itinerância, exigindo processos de adaptação a diferentes contextos expositivos. Parte da exposição concretizar-se agora na galeria em Lisboa, num período de mudança, assume um carácter particular e especial. A mostra, que se desenhou a partir da identidade e da “genética” da Appleton, ganha, depois da sua desmultiplicação, nova expressão na sua base - a casa-mãe, como Vera refere - evidenciando dinâmicas próprias.
É neste enquadramento que a integração de Appleton Recess #4 se revela também particularmente significativa. Concebido desde a sua origem como um espaço de encontro entre práticas artísticas de diferentes gerações e campos de investigação, este ciclo opera como um dispositivo curatorial que intensifica a lógica relacional do projecto mais amplo. Em entrevista com a Umbigo, a propósito dos dezoito anos da galeria e da inauguração de Diante do Tempo em Elvas, Vera Appleton sublinhou que o convite a Ana Anacleto e Bruno Marchand partiu da vontade de promover uma deslocação curatorial deliberada, capaz de introduzir um olhar exterior que não reiterasse os pressupostos existentes, mas os reconfigurasse a partir de outras metodologias e sensibilidades. Esta abertura afirma-se como um gesto estrutural, permitindo que a exposição se construa a partir de modos distintos de pensar e apresentar a prática artística. No contexto desta edição, o que aproxima as obras apresentadas é uma atenção partilhada à linguagem enquanto matéria instável, sujeita a processos de fragmentação, deslocamento e transformação. A presença de Ana Hatherly, através de obras como Hand made (2000) e Labirinto urbano (a) (1999), introduz um campo de investigação em que a escrita se afirma simultaneamente como forma visual, gesto e vestígio material. A linearidade da leitura é sistematicamente interrompida, expondo o signo como entidade instável - precária, até. As obras apelam a um exercício de decifração no qual a acumulação de gestos e rastos se torna constitutiva da experiência.
Esta problematização da linguagem encontra ressonância na prática de Pedro Diniz Reis, cujos trabalhos exploram a articulação entre som, imagem e percepção a partir de procedimentos abstractos e diagramáticos. Trabalhos como Alphabet (Japanese), Alphabet (Russian) e Alphabet (Greek) (2005–2006) desenvolvem-se com base em sistemas formais e metodologias de organização espácio-temporal ou de recolha de dados, construindo ambientes que pedem uma atenção prolongada. A repetição e a variação aqui funcionam como princípios estruturantes, dando lugar a uma experiência imersiva que se afirma mais como processo em contínua activação do que como forma concluída.
A intervenção de Sara Graça introduz outro tipo de tensão no conjunto expositivo. Através de uma única obra - comissionada especificamente para este encontro -, a artista apresenta uma composição que parece ter em si um código próprio, capaz de dialogar simultaneamente com o espaço e com os gestos das outras obras, transformando a sua presença num ponto de abertura dentro do próprio dispositivo expositivo.
O diálogo entre estas práticas constrói-se, assim, a partir de tensões subtis e zonas de contacto, onde a dissolução da carga representativa, a atenção à materialidade e a recusa de formas conclusivas operam como elementos de aproximação. O espaço expositivo configura-se como um campo de negociação contínua, no qual as obras se afectam mutuamente. Um exemplo particularmente elucidativo desta articulação surge em Labirinto urbano (b), de Pedro Diniz Reis, onde a escuta da composição de Sérgio Nascimento orienta o olhar do espectador para a obra de Ana Hatherly. O gesto de ouvir enquanto se observa introduz uma sobreposição de regimes perceptivos, activando uma leitura cruzada que intensifica a experiência e reforça a dimensão relacional.
No piso inferior, a presença dos Osso Exótico acentua esta lógica ao deslocar o eixo da experiência para o domínio da escuta e da acção corporal. A obra assume uma presença autónoma, introduzindo uma temporalidade cíclica que activa o espaço como lugar de acontecimento. Através do vídeo e de sons sustentados, constrói-se uma dramaturgia marcada por gestos minimalistas e por um tempo dilatado, característico da prática do grupo. A possibilidade de pensar esta obra com a performance experienciada no contexto singular da cisterna de Elvas e a sua reinscrição num espaço distinto evidencia as potencialidades da itinerância, da variação, enquanto processo de adaptação e reconfiguração, abrindo o trabalho a novas leituras.
Há, nesta exposição, uma relação entre obra, gesto, escuta e percepção que explora a condição porosa do tempo, os seus vestígios, as suas camadas, a forma como se infiltra, se expande e contamina os gestos, as matérias, os modos de ver e sentir. Nos movimentos a que dá impulso, recorda-nos que o sentido se constrói a partir da experiência e não da classificação, a partir da recuperação de memórias que permanecem para serem revisitadas, reinscritas e pensadas de novo, neste ou noutros lugares. E a linguagem. Sempre a linguagem.
A exposição pode ser visitada na Appleton até dia 14 de fevereiro de 2026.