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Intervalo, de Eduardo Matos: o primeiro passo numa estação que já passou
DATA
17 Ago 2026
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AUTOR
Rita Barqueiro
"A gare interior da Estação Nova é agora o lugar da mais recente exposição de Eduardo Matos, voltada sistematicamente para a observação de um espaço desativado, desarticulado de uma região progressivamente arredada num processo de degradação do acesso à cidade. Com curadoria de Jorge Simões e produção do Centro de Artes Visuais, o artista ocupa a área da fachada com o eixo orientado a sudeste, entrelaçando o processo artístico e os sinais de vida numa troca contínua entre ambos os lados, num espaço deslocado pelo movimento das coisas, inconcluso, “um ponto de partida”, nas suas palavras, elaboradas em torno das letras que compõem o parêntese que o título abre — intervalo."
Houve um tempo em que tudo se repetia como um curso de água, sob os enormes ponteiros parados durante longos períodos, acumulando um retrato da passagem dos dias. Faz pouco mais de um ano desde o encerramento desta saída, após cerca de um século corrido nas mesmas coordenadas, com o fim da ligação ferroviária à baixa de Coimbra.
A gare interior da Estação Nova é agora o lugar da mais recente exposição de Eduardo Matos, voltada sistematicamente para a observação de um espaço desativado, desarticulado de uma região progressivamente arredada num processo de degradação do acesso à cidade. Com curadoria de Jorge Simões e produção do Centro de Artes Visuais, o artista ocupa a área da fachada com o eixo orientado a sudeste, entrelaçando o processo artístico e os sinais de vida numa troca contínua entre ambos os lados, num espaço deslocado pelo movimento das coisas, inconcluso, “um ponto de partida”, nas suas palavras, elaboradas em torno das letras que compõem o parêntese que o título abre — intervalo.
O átrio central, ladeado por dois círculos intersectados por outras formas, compreende partes de corpos dobrados pelo peso da sua matéria homogénea. Acham-se ímpares e cruas as esculturas de argila extraída do rio. São bocas esculpidas pelo tempo ou marcas proverbiais já destacadas pelos bonecreiros, que se elevam de uma plúvia camada freática em suportes de diferentes alturas, organizados por uma cadência colorida, confrontada com os trabalhos em ferro da gare. As espécies de água doce passam, da sua materialidade, a moles pigmentos, recuperando, para além da escadaria, os desvios do cardume. Verificam-se as evidências de certos aspetos do que já foi, no cenário conservado por uma distopia urbana, como se lhe tivessem demolido as paredes, sob os rumores de um regresso ao dilúvio.
A desocultar o centro de uma das antigas salas de espera está o vídeo homónimo da exposição, desenvolvido ao longo de oito anos, preenchendo-o com diversas feições de formação de cavernas. O limite e a materialidade do dispositivo corrompem a compreensão dos objetos perdidos, que, esquecidos do seu uso, deixam de responder pelas expetativas que lhes são atribuídas. Encontramo-los do ponto de vista do recoletor, imagens que suspendem o contacto, que funcionam como sinais eletroacústicos e possibilidades sonoras, impregnadas de uma distância na perceção destes instrumentos, de uma escuta imaginada.
Moldado entre duas peças escultóricas, o caminho trilhado desde as profundezas reconstitui-se, por fim, na identificação com os achados dos lugares de enunciação revolvidos, de onde se formaram raízes. O trabalho de observação e de projeção documentarista da forma da ficção é alimentado pelos inúmeros cadernos preenchidos com bestiários, mais que fantasmagorias, para os esquissos de uma composição vitral.
Do lado oposto, gira um disco sobre o azul das mesas dispostas num ângulo reto, que parece suportar um templo com diversas oferendas, entre as quais uma almofada de madeira, uma espécie de protótipo para uma nave trasladada, e, sob este plano, três formações sedimentares suspensas. A composição Three-eyed fish (2008–2020) leva o nome de um dos desenhos ali expostos, o registo de uma mutação na forma de um olho parietal, de tal acrisolado detalhe que lembra um primitivo vertebrado inibido pela luz face aos severos impactos na biodiversidade marinha e na saúde do planeta.
As intrusões dos objetos enquanto réplicas contaminam por aliteração o espaço, que se constrói numa ligação tanto telúrica quanto universal, como um órgão vestigial com um sistema esquelético bilateral e simétrico, semelhante àquela estrutura, de onde ainda é possível ouvir os comboios. A mostra ramifica-se pelas zonas adjacentes, em apontamentos do artista camuflados entre as notas informativas e as placas de sinalética dos postos de informação evacuados. A esta dimensão performativa soma-se a apresentação do projeto sonoro de Eduardo Matos com André Cepeda, numa colaboração com Jonathan Uliel Saldanha no dia do encerramento.
A enfatização da função de uma máquina de reprodução da imagem prolonga-se nos objetos intrusivos e aprofunda-se na sua enumeração implícita, em estudos dos problemas suscitados pelo atravessamento da luz, provas de gradientes ou vapores metálicos, análises elementares do minério, sem assegurar, no entanto, uma recolha isenta de impurezas. Um padrão respiratório interrompido na superfície evidencia o gesto meditativo de aproximação autobiográfica ao distante. Imagina-se, como no poema de Poe, o suspiro de Cícero: O, Tempora! O, Mores!
A narrativa diluída neste espaço interior traça um paralelismo com a derivação contemporânea do “lugar de memória” idealizado pelo historiador Pierre Nora na obra Les lieux de mémoire (1984–1992), com base na subjetividade que o produz, enquanto espaço ou acontecimento, no sentido do que é desenvolvido, essencialmente, pela intersecção afetiva da memória coletiva, à margem de uma constituição historiográfica que impassivelmente o situe.
Intervalo evidencia um abismo sobre o que nos é negado, um desfecho que se havia esperado, a que se dedicaram elegias por parte de quem teve ali um ponto por onde poderia partir, da necessidade para uma plenitude. De um território em transição, transposto por intermédio do dispositivo expositivo, ao encontro de uma expressão de intensidade que o desdobra como legado e parcela de um tempo infinito, desenha-se, por sua vez, uma sequência encadeada por um olhar lento sobre a natureza que o reflete.
Intervalo de Eduardo Matos, de 21 de julho a 13 de setembro, na Estação Nova, em Coimbra. Mais informações e programação completa em www.veraoa2tempos.pt.
BIOGRAFIA
Mestranda em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, onde se formou em Estudos Artísticos com especialização em Estudos Cinematográficos e menor em Filosofia. Pós-graduada em Cinema e Audiovisuais pela Escola Superior Artística do Porto. Comprometida com as artes experimentais com foco em projetos artísticos multimédia e na relação do som com a imagem em movimento, motivos explorados na programação cultural e na produção sonora e locução numa prática radiofónica vinculada à Rádio Universidade de Coimbra.
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