Em 1917, Raul Brandão publicava pela primeira vez Húmus. Imbuído de um ímpeto vincadamente modernista, que acelerava, fragmentava e mergulhava na profundidade da alma humana – o que tem de maravilhoso e escatológico –, Brandão registava a crónica do pensamento sobre a vida e a morte. A Natureza, essa, que brilha com o esplendor do sol e os raios refletidos nas folhas orvalhadas da manhã, que frutifica abundante e desponta sobre o mistério da criação, é bela – diziam os românticos. Mas se houve algo que os modernos foram lestos a reconhecer foi o artifício que dançava no olhar romântico, incapaz de ver o que se escondia por trás da vida, incapaz de desvelar o monstro que dormia entre as aparências das criações divinas, e que escondia, sob o peso do seu corpo, a verdade. Brandão olhou o monstro de frente. Húmus é a matéria necrótica depois da vida, o caldo morno e pungente, fétido e langoroso, que escorre dos membros, que tudo esvazia de vida para dar lugar à morte. É bolor, mofo, necroses. O sonho é o escape para esse destino irreversível. É através dele que se funda uma outra consciência – uma nova consciência. Os dias passam na sua rítmica monotonia e neutralidade. E o inferno, todos o temem. Danados sejam os que descobrem a verdade – como Gabiru, nos seus acessos de loucura metafísica.
Décadas mais tarde, no rescaldo de uma modernidade que se vira a braços, há não muito, com os demónios da humanidade, Herberto Helder, sábio conhecedor da obra de Brandão, escreve um poema com o mesmo título. Neste, a morte é relembrada uma e outra vez, como se o poeta a quisesse matar de vez – matar a morte, matar os mortos, extinguir os gritos dos defuntos, porque a morte morre, mas aparece outra vez. Escreve:
"É preciso matar os mortos,
outra vez,
os mortos."
Serve isto de preâmbulo à exposição homónima, no Atelier-Museu Júlio Pomar, com a curadoria de Ana Rito e as obras de Júlio Pomar, Graça Morais e Daniel Moreira e Rita Castro Neves. Versos e frases de Brandão e Helder acompanham a constelação de obras e servem de elo entre os artistas.
Há muito em Húmus (a exposição) que recorda a viragem etnográfica debatida por Hal Foster na década de 1990. Em The Artist as Ethnographer?, Foster critica uma disciplina – a arte – que se deixou seduzir pela fantasia primitivista e por uma nova onda de flânerie, capaz de transformar todo o discurso sobre o Outro numa autoanálise pequeno-burguesa. E depois, uma certa inveja de parte a parte: a inveja artística dos antropólogos e a inveja antropológica ou etnográfica dos artistas. Nem uns compreendem os desígnios estéticos e formais da arte, nem outros, a cientificidade e o rigor analítico subjacente à arqueologia. Nada do ponto de vista lógico e argumentativo pode ser contrariado neste texto. A viragem etnográfica na arte contemporânea é mais do que óbvia, e a crítica de Foster a essa viragem é perfeitamente plausível e até identificável em muitos casos. E, no entanto, há um certo cinismo em toda a argumentação – pois que revela o que há de problemático sem reconhecer o que há de fraturante e expansivo nos artistas que com toda a sinceridade (apesar de tudo preferível à autenticidade) e dedicação exploram as formas culturais legadas ou deixadas pelo tempo. Para todos os artistas que se apropriam de uma discursividade que vai da alteridade à auto-outrização como forma de capitalizar uma tendência neoliberalizada e institucional, há sempre vários artistas que acedem a essa produção cultural partindo das suas heranças, do seu património, do local em que trabalham e produzem, e segundo uma colaboração proveitosa e até necessária, que busca o que de melhor há num dos lados e no outro.
A exposição-ensaio que Ana Rito propõe para o Atelier-Museu Júlio Pomar é um desses exercícios, recolhendo das obras de Júlio Pomar, Graça Morais e Daniel Moreira e Rita Castro Neves um saber ancestral profundamente enraizado em Portugal. É sobre eles – sobre os artistas –, sobre o seu território e as suas memórias, que atuam. São eles que reproduzem e dão forma aos ecos do tempo, às sobrevivências, à technè legada de geração em geração, para, assim, agirem sobre o mundo e, no limite, explicá-lo. É sobre essa presciência inspiradora e transformadora, esse saber arraigado na terra e difícil de iluminar, que a exposição se manifesta. Compreender e experienciar Húmus é escavar do solo o subterrâneo em nós.
A obra de Daniel Moreira e Rita Castro Neves inscreve-se num território específico: de Trás-os-Montes e Alto Douro à Beira Alta, a obra da dupla tem vindo a explorar a produção etnográfica e arqueológica aí presente. A ruralidade e a cultura popular são indissociáveis do seu trabalho e são elas que ditam e informam a materialização da obra. Mas há também muito no seu trabalho que deve à arqueologia experimental, um ramo da arqueologia que teoriza e ensaia as tecnologias e comportamentos através dos registos arqueológicos, procurando entender o modo como objetos e estruturas se comportavam e para que efeito.
Duas criaturas douradas recebem o espectador no que outrora foi o atelier de Júlio Pomar. São reproduções e depurações de gravuras rupestres no Vale do Côa, resultantes de um longo processo laboratorial e de investigação, entre levantamentos noturnos e visitas às reservas do Museu do Côa. De trás, escondidos na estrutura que serve de suporte às silhuetas, artefactos de sílex, ramos e penas assumem a forma de objetos ritualistas. A magia e a superstição abrem portais para outros mundos ou planetas. São o que Francis Yates, na esteira da tradição hermética renascentista, chamaria de talismãs. Através deles, príncipes e artistas podiam aceder ao conhecimento dos planetas. Giordano Bruno vem à memória.
Diante das criaturas, na parede branca, perfila-se uma série de objetos escultóricos construídos com paus, pedras, pelo, chocalhos e ferramentas agrícolas. A lavoura da terra é seminal na obra dos três artistas. Os chocalhos do pastoreio, as alfaias agrícolas, a cultura da batata, o pastoreio de caracóis, de cabras. Todos estes elementos devolvem à arte uma sensorialidade esquecida.
As questões metafísicas retornam às obras de Helder e Brandão. A morte espreita a um canto, com caveiras e ossadas desenhadas. No entanto, nada há de angustiante nesta representação da morte. Não há medo, justamente porque a morte é apenas mais um estágio no conhecimento do planeta. A arte faz-se em diálogo como a morte. Sempre se fez. No lado oposto da parede, uma escada construída com troncos queimados de árvores, que pereceram num dos muitos incêndios rurais que assolam o país anualmente. Moreira e Castro Neves cuidam das juntas dos troncos, como se curassem e dessem nova vida aos restos da morte. A escada sobe periclitante, mas decidida, erguendo-se ao céu para tocar a criação divina – uma pena de grifo, espetada no alto do museu. Essa ideia de circularidade, essa mística de uma vida que também é morte – malditos os que à força contrariam a finitude do corpo – é pontuada um pouco por toda a exposição. Não muito longe, outra pena – desta vez de Júlio Pomar. E na base, escrito a giz, a evidência do que é e o lamento do que pode ser “é uma pena”.
A mulher-mito, a mulher-natureza, coube a Graça Morais explorar. Figuras femininas são insetos e plantas. A metamorfose do seu corpo parece querer dizer que o corpo feminino é uma forma que se altera, funde e confunde com o ambiente em seu redor e o tempo. Por vezes delicada, por vezes grotesca e violenta; maternal e intempestiva. O desenho é violento, os riscos, vincados com força no papel.
As linguagens convivem harmoniosamente em artistas de diferentes gerações. Mas é sempre espantoso notar o experimentalismo e a curiosidade de Júlio Pomar, antevendo o que seria mais tarde uma preocupação de muitos artistas pelo território, pela paisagem e pelas produções culturais do povo. Pomar deixou-se atravessar pelo Tempo. Preparou o que poderia ser chamado de ecologia da arte moderna, na transição para a arte contemporânea; galgou as fronteiras das disciplinas; e desenvolveu uma prática que, por estas vias, soube ser todo o Tempo, para agora dialogar com todos os artistas, todos os movimentos do século XX e toda uma nova vida que se desenrola no encalço da sua obra.
Esta é, todavia, uma exposição com forte cunho autoral. Do ponto de vista da curadoria, há uma voz que marca o ritmo e a leitura da exposição. Rito, nos trechos que acompanham determinadas obras, sublinha o exercício da plagiotropia proposto por Haroldo de Campos, que “designa um modo de leitura e de escrita que se funda na apropriação criativa, na transfiguração e no desvio.” Ao contrário do simples plágio, a plagiotropia é um recurso criativo que “reorienta” e cria nexo polissémico que expande os fragmentos recolhidos. Húmus é uma plagiotropia no que respeita ao exercício curatorial: serve-se da obra dos artistas para criar novas narrativas e assume um gesto total. Nesta perspetiva, a exposição de Ana Rito é uma proposta curiosa e informativa sobre parte do exercício curatorial.
Cabe ao desenho ser a forma primeira da exposição. Como refere Jean-Luc Nancy, “O desenho é a abertura da forma: [...] a abertura enquanto início, ponto de partida, origem, envio, ímpeto ou levantamento, e a abertura como disponibilidade ou capacidade própria”1. Mas o desenho é também a ideia, o desígnio, o devir-forma. É através dele que o húmus – essa morte fértil e inelutável – se materializa e consubstancia.
Húmus está patente no Atelier-Museu Júlio Pomar até 5 de abril, com a curadoria de Ana Rito e as obras de Júlio Pomar, Graça Morais e Daniel Moreira e Rita Castro Neves.
1 Nancy, J-L. (2022) O Prazer no Desenho [tradução de Jorge Leandro Rosas]. Lisboa, Fundação Carmona e Costa, Documenta