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Louvado lavor: Ana Jotta no messieurs-dames
DATA
28 Jan 2026
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AUTOR
Diogo E S Dietl
“E se o recinto já nos seria conhecido, o recheio ecoa familiar - a artista retorna a imagens e frases que já encontrámos. Retornar, repensar, refocar e rematar. Sejam os resultados imprevistos ou reencontros, denotam que no momento certo a mão não hesita, faz. A reconstrução não repete e sim ressoa, e é com desembaraço e eficácia que Ana efabula por instantes e cenas, artefactos e desenhos, palavras e sonhos.”
Sentimo-nos como se dentro de uma campânula, solidamente resguardados do exterior, que vemos ligeiramente distorcido - talvez por alguma oscilação química do vidro, numa gama policromada -, acolhidos numa afável e abstrusa fantasia. Deixamos lá fora a inquietação das figuras azuis, dos veículos lilases, das janelas verdes e amarelas, e tocamos à campainha.
La Ronde, a quarta exposição de messieurs-dames, projecto de Eva Mendes desenvolvido num apartamento desocupado na Penha de França, parece uma inauguração. Em rigor, o mesmo poderia ser dito de cada uma das entusiasmantes mostras que a precederam, no que à tipologia diz respeito; se uma composição arquitectónica em diferentes salas, desde logo, pode facilitar renovadas abordagens narrativas, aqui refiro-me concretamente à novidade formal que cada ocasião tem apresentado. E agora, perante as mesmas paredes, estamos num espaço reconstruído de raiz. Reconstruir é um condão de Ana Jotta. E se o recinto já nos seria conhecido, o recheio ecoa familiar - a artista retorna a imagens e frases que já encontrámos. Retornar, repensar, refocar e rematar. Sejam os resultados imprevistos ou reencontros, denotam que no momento certo a mão não hesita, faz. A reconstrução não repete e sim ressoa, e é com desembaraço e eficácia que Ana efabula por instantes e cenas, artefactos e desenhos, palavras e sonhos.
¡Algo se partiu!
Assarapantados, sondamos à volta, espreitamos nas outras divisões, e tudo julgamos intacto. Inspiramos da serenidade e procuramos assumir a compenetração do retiro. Há tanto de arcano e encoberto como de disponível e magnético. O fazer de Ana Jotta parece acontecer num lugar em que o evidente está tão alumiado que se torna difuso. Um ponteiro solitário impele-nos em busca de fantasmas, 1001, que vamos encontrando bem tangíveis. Pausamos diante de magnânimos objectos e assemblages, ao passo que os desenhos irrequietos nos inquietam. Distinguimos diálogos cruzados e correntes energéticas, mas também cogitações interiores e distraídas. O passado e o agora, o hoje, combinam-se no desagregar dos elementos do labor, e enquanto um esquilo deriva pela parede, parte chama parte nada, campos de cores profundas e telúricas são Pangeia no limite de o ser.
De novo tocamos à campainha. Matrizes de peças porvir fantasiam-se com a ligeireza de quem toma o ficar no lar como evento por-si. Vir, nascer, implica dor e ferida, estilhaços íntimos e expostos, porém a clarividente confiança no sarar zela por cada passo em diante. Reparar. Reencontrar a surrupiada fonte duchampiana devolvida da memória ao tempo, hoje um pneu de bicicleta desinsuflado. O afinco do ser em fazer traz-nos de volta. ¡Krntrschkshh!
A folha de sala elenca algumas poucas e próximas ferramentas para a reconstrução. Se não há pregos para tudo, não seria por isso que a artista nos iria privar de paisagens singelas. Tudo encaixa e se equilibra. Num foco de maior solenidade, uma nuvem carrega uma antiga estrofe, homenagem ao aconchego da casa, dissipando-se num lacrimejar de lume; no solo, um pão, ferido pelo ritual de acalentar a dor, repousa num redopiar de entes-magos e centelhas-bruxuleantes. A cerimónia resulta: as intempéries ameaçam, mas cá dentro a chuva não cai.
Em Fontenay-aux-Roses, Yves Klein atirou-se ao vazio. Ser é atirarmo-nos do vazio, e fazer um insuflar da alma que traça a nossa marca. Em Fontenay-aux-Roses, Ana traçou a sua marca. O título da exposição relembra como até o reencontro esperado pode configurar indizível espanto - no vazio, antecipa-se o completar da volta ao carrossel, da roda do baile, e o retomar das vistas e olhares familiares, e... eis que assim é! Quando o rolar findar, onde quer que seja, poderemos continuar, para cá ou acolá, a fazer.
La Ronde, de Ana Jotta, está patente no messieurs-dames até 7 de Fevereiro.

BIOGRAFIA
Diogo ES Dietl, licenciado em História pela Universidade Nova de Lisboa, acompanha a criação artística contemporânea desde 2012, atuando ocasionalmente nas suas margens através da escrita, assessoria, divulgação, produção e co-curadoria.
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