article
O que não se vê: "O que elas viram, o que nós vemos. Fotógrafas amadoras em Portugal, 1860–1920"
DATA
12 Jan 2026
PARTILHAR
AUTOR
Maria Inês Augusto
“O gesto que funda esta mostra é, em si mesmo, um acto correctivo. Ao reunir e apresentar publicamente os registos de Margarida Relvas, Mariana Relvas e Maria da Conceição de Lemos Magalhães, a curadoria intervém numa narrativa tradicionalmente pautada pela omissão do contributo feminino, procurando reinscrever estas autoras no panorama da fotografia portuguesa, entre o romantismo tardio e o auge do pictorialismo.”
Desde meados do século XIX que a fotografia se afirmou lentamente como uma nova linguagem, oscilando entre a técnica e a arte, entre a documentação e a intimidade, entre o espaço público e o refúgio privado. Na sua primeira fase, a cultura fotográfica em Portugal enraizou-se sobretudo no estúdio, na representação urbana e rural, na fixação do retrato burguês e nos álbuns domésticos que começavam a substituir, como dispositivos de memória, as antigas miniaturas pintadas. A câmara convertia-se, assim, num instrumento ambíguo, ao mesmo tempo máquina de registo e aparelho de construção simbólica, capaz de sedimentar identidades, consolidar estatutos e cristalizar um olhar sobre a sociedade e o mundo. É neste contexto que emerge a exposição O que elas viram, o que nós vemos. Fotógrafas amadoras em Portugal, 1860–1920, associada ao projecto de investigação WOMENPHOT.PT, cujo objectivo declarado é recuperar, do silêncio da história, a presença de mulheres que fotografaram num campo largamente dominado por homens.
O gesto que funda esta mostra é, em si mesmo, um acto correctivo. Ao reunir e apresentar publicamente os registos de Margarida Relvas, Mariana Relvas e Maria da Conceição de Lemos Magalhães, a curadoria intervém numa narrativa tradicionalmente pautada pela omissão do contributo feminino, procurando reinscrever estas autoras no panorama da fotografia portuguesa, entre o romantismo tardio e o auge do pictorialismo. Trata-se de um gesto necessário, não apenas por razões de reposição histórica, mas, também, pela importância de se continuar a questionar a própria compreensão da cultura visual oitocentista e de inícios do século XX, que permanece incompleta enquanto se continuar a reproduzir uma história parcial, filtrada por critérios de género, privilégio e visibilidade institucional.
O volume de imagens reunidas - cerca de cento e trinta provas na montagem apresentada na Casa Marta Ortigão Sampaio, ampliadas para aproximadamente duzentas na apresentação no MNAC-MC -organiza-se num percurso que vai do romantismo oitocentista às experiências pictorialistas do início do século XX. Predominam os retratos, as paisagens, os interiores domésticos, os motivos rurais e marítimos, géneros que, tanto então como hoje, se encontram fortemente moldados por convenções estéticas e por uma determinada visão hegemónica do mundo. A repetição de poses, de enquadramentos, de dispositivos cénicos - a casa, o jardim, o campo - constrói um imaginário claramente suavizado pela harmonia formal, pela procura de uma espécie de serenidade através da composição, pela domesticação e idealização do real.
É precisamente nesse ponto que a ambição crítica da exposição merece ser pensada. Se, por um lado, resgata nomes e obras que haviam permanecido na sombra, por outro - e porque me parece pertinente - talvez fosse possível interrogar, de forma mais incisiva, as condições sociais, técnicas e simbólicas que tornaram possível a prática fotográfica destas mulheres - aspectos e enquadramentos que, se se procura um resgate justo, me parece necessário serem pensados. A genealogia das autoras revela, de modo inequívoco, a centralidade do privilégio. Margarida e Mariana derivam da família de Carlos Relvas, figura tutelar da fotografia portuguesa oitocentista, proprietário de um dos estúdios mais célebres do país, espaço de circulação de saberes técnicos, de legitimação institucional e de sociabilidade artística. Já Maria da Conceição integrou um círculo social restrito que lhe assegurou acesso a equipamentos, a formação técnica e a redes de difusão internacional. A designação de “amadoras”, usada no seu tempo, não deve ocultar este dado fundamental: tratava-se de mulheres inseridas em meios economicamente favorecidos, cuja inserção social lhes permitiu transformar um lazer culto numa prática artística mais consistente. A categoria de fotógrafa amadora, ao longo do século XIX, situava a experiência feminina da fotografia na esfera privada, associando-a à formação moral, à educação doméstica e à afirmação de um certo estatuto social. Aprendia-se a fotografar em casa, por transmissão familiar, por instrução informal, por observação direta dos mestres - pais, maridos, irmãos. Contudo, essa esfera privada não era um espaço neutro: era atravessada por valores de classe, por expectativas de género, por regimes de visibilidade que delimitavam o que podia ou não ser visto, mostrado, publicado - e isto parece-me igualmente importante de contextualizar e problematizar enquanto percorremos a exposição.
No caso de Margarida Relvas, o início extremamente precoce da prática fotográfica - começou a fotografar ainda criança, no ambiente do estúdio paterno, na Golegã - exemplifica de forma quase paradigmática essa aprendizagem doméstica como via de acesso à criação. Entre retratos, naturezas-mortas e, mais tarde, paisagens do centro e do norte de Portugal, a jovem fotógrafa construiu uma obra que viria a ser publicada em periódicos ilustrados e apresentada em exposições internacionais. A sua inserção nesse circuito revela não apenas talento e sensibilidade estética comprovada, mas também a eficácia de uma rede social e cultural que favorecia a visibilidade. O abandono da fotografia após o casamento evidencia, por sua vez, os limites muitas vezes vivenciados e impostos à continuidade da criação feminina, mesmo em contextos de excepção.
Mariana Relvas integrou mais tarde esse mesmo universo. Filha e segunda mulher de Carlos Relvas, Margarida e Mariana partilharam o apelido e o estúdio, mas não exactamente o mesmo percurso. Ambas, no entanto, ilustram como a fotografia amadora, entendida como prática de formação e de distinção social, funcionou como um espaço possível de expressão artística para as mulheres, num regime de possibilidades simultaneamente alargado e restrito.
Maria da Conceição de Lemos Magalhães destaca-se, por outro lado, pela consistência e experimentação na sua obra, profundamente marcada pelo pictorialismo. As fotografias apresentadas na exposição exploram sobretudo temas rurais e marítimos - dos trabalhos agrícolas em Moreira da Maia às paisagens da Costa Nova - através de viragens cromáticas e variações tonais nas composições. Apesar da estética pictorialista se afastar do registo documental, apostando numa construção poética da imagem mais próxima da pintura naturalista, importa, também, reconhecer que, mesmo dentro dessas convenções, há um valor documental: os retratos, as paisagens, os interiores, revelam hábitos, trajes, modos de vida, gestos quotidianos que constituem também uma fonte para a compreensão da sociedade portuguesa, sendo possível se ver, nestas imagens, para além da codificação estética.
As fotografias reunidas nesta exposição, constituem, de facto, um testemunho raro da prática artística feminina num tempo de profundas desigualdades de acesso aos meios de produção cultural e, nesse sentido, a mostra cumpre um papel de restituição de memória. No entanto, a ausência de alguma problematização explícita das condições sociais que sustentaram essas práticas deixam transparecer os limites de uma recuperação que, apesar de necessária, me parece permanecer parcialmente filtrada ou, pelo menos, pouco aprofundada.
Talvez seja necessário, nestes resgates, que se interrogue de forma mais directa a relação entre género, classe e representação (?). As imagens apresentadas estão de acordo com a linguagem estética da época mas - não posso deixar de reflectir - retratam, também, um mundo moldado por uma sensibilidade burguesa, onde o trabalho surge como tema estetizado e a paisagem como espaço de contemplação — quem tinha recursos económicos significativos é que podia, de forma regular, possuir equipamento fotográfico. As câmaras, as chapas de vidro, os químicos de revelação, o papel fotográfico e a montagem de um laboratório doméstico representavam custos elevados e isso é importante lembrar.
Talvez o mérito maior da exposição resida neste duplo movimento: por um lado, pretende abrir arquivos, reinscrever presenças femininas apagadas; por outro, torna visível a própria desigualdade estrutural que moldou a produção destas imagens. Para que uma reescrita seja verdadeiramente transformadora, é necessário, contudo, que o olhar crítico não se contente com a nostalgia e a beleza formal. É preciso que se pense os mecanismos de exclusão, que a memória não apague o contexto. Mostrar o que elas viram implica também perguntar em que condições viram, o que lhes foi permitido ver, de que forma desafiaram e influenciaram normas de género. E lembrar que, então, o que nós vemos é também o fragmento possível, fruto de uma sociedade patriarcal e desigual.
A visibilidade, por si só, não equivale automaticamente à restituição e há uma responsabilidade crítica de quem, hoje, observa estas imagens, à luz de outras sensibilidades, de outras lutas, de outras consciências. Ver o passado não deve servir apenas para confortar o presente, mas para o questionar. E questioná-lo não apenas no plano estético e técnico, mas também no plano político, social e simbólico. O que elas viram é definitivamente diferente do que nós, hoje, vemos.
A exposição pode ser visitada no MNAC até dia 1 de Fevereiro de 2026.

A autora não escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.
BIOGRAFIA
Maria Inês Augusto, 34 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) na área dos Serviços Educativos como estagiária e trabalhou, durante 9 anos, no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada durante várias edições e colaborou, em 2023 com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas. Desenvolve, actualmente, um projecto de Art Advisory e curadoria, colabora com o Teatro do Vestido em assistência de produção e tem vindo a produzir diferentes tipos de texto.
PUBLICIDADE
Anterior
article
Ar.Co – Bolseiros & Finalistas’24, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
08 Jan 2026
Ar.Co – Bolseiros & Finalistas’24, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
Por Maria Inês Augusto