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PICKPOCKET, na Balcony Gallery
DATA
14 Jan 2026
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AUTOR
Tomás Saraiva
Para a sua última exposição de 2025, a Galeria Balcony apresenta a coletiva PICKPOCKET, tratando, de uma forma “transparente”, em analogia e referência às personagens do mundo-sistema artístico, o ser-orgânico que é a arte, não esquecendo também as engrenagens maquinais do seu funcionamento. Uma biocenose, este cenário, onde se comunicam e, sobretudo, se expõem, num discreto humor. Uma aproximação, se quisermos, a uma fina sátira em que todos somos protagonistas e que nos provoca um quase imperceptível sorriso, como quem diz oh, eu! pelos dois pisos de um espaço que, mais cedo ou mais tarde, acaba por se tornar no recreio propício a um polícia e ladrão.
Não consegui entrar na galeria sem as mãos metidas no fundo dos bolsos para proteger qualquer tipo de receio, apesar da furtividade ressalvada pela própria Balcony, marcada por uma insólita cor vermelha… Nisto, deparo-me com um Colecionador1 que me toma a posição frontal, firme e hirto na sua acostumada penumbra e envolto das suas mais estimadas aquisições, olhando-me como se lhe devesse alguma coisa, como se tivesse cometido um crime!   – Estarei aqui bem? – pergunto-me.
Avanço, ainda que com um olho no nosso misterioso amigo. São estes os meus primeiros passos numa exposição que me arrebita a sobrancelha na intermitência entre confiança e desconfiança de cada personagem que ali me encontra, os indícios discretos - pistas jornalísticas!2 -, mas não deixados ao acaso, criaturas que se creem verdadeiras em tentativas de aliciamento3… A sala partilha o ar frio lá de fora, o branco luminoso e longínquo do divino galerístico persegue todos os meus movimentos - não há mundo que fuja a sentimentos orwellianos -, à espera de uma algibeira descoberta, e algo me diz que este mundo não é um mar de rosas, mas cá continuamos, em radical perseverança. Nisto, uma porta entreaberta guardada por um génio da lâmpada que me diz que estou feliz4. Não me deixando, porém, enganar, senti-me circunspecto e, ainda receoso: espreitei para dentro. Era apenas a copa da galeria, mas isso não impedia que o mistério deste aparente cluedo se desvanecesse. Afinal, nunca se sabe se não era ali onde se encontrava o segredo para desvendar tudo isto.
No meio deste ecossistema de caos controlado, nunca haverá nada como demasiada proteção. O grande capacete de Tiago Alexandre5 reflete a minha silhueta no visor, misturando-a com os letreiros do Casino Lisboa. A vertiginosa ânsia contemporânea! O quem não arrisca não petisca e o que essa velha máxima nos traz, a velocidade do desejo da omnipresença confunde-se com vitória e, quer queiramos quer não, não há indumentária protetora que resista… Aliás, vale a pena lembrar que o homem nu não teme carteirista! Temos, acima de tudo, de nos manter protegidos e a um passo lento e prudente, sigo com os instintos de sobrevivência mais apurados, mesmo em relação às caras sorridentes que me vão aparecendo pelo caminho6 - lá está, o arrebitar da sobrancelha - e desço para o piso de baixo. Ao descer, o som que assemelha a um Jogo de Ténis7 assume o espaço e, quando a sua origem é descoberta, desvenda-se um conjunto de vídeos amadores de pessoas a abrirem garrafas de champanhe com facas. A dita sabrage. Conseguia imaginar-me numa inauguração bem munida, no algures desta esfera artística, nesses momentos que, grande parte das vezes, nos convocam e nos fazem encontrar e gerar novas ideias, reconfortando-nos na boémia que a arte também é e que nos leva a abraçarmo-nos.
Por fim, saio, já sem as mãos nos bolsos, e é aí que o mistério deixa de o ser. A tinta vermelha pela montra da galeria… Entrámos e saímos e tudo aconteceu muito rapidamente. Afinal, tudo se tratava de um carteirismo galerístico8! Paira-me no ar a dúvida sobre o que sou ali. Serei um visitante passageiro? Uma testemunha? Um cúmplice? Serei eu próprio, enquanto espectador destes contextos, um local de extravio..? Eis as questões que me ficaram em aberto nesta que é, além de uma ideia de retrato coletivo, uma espécie de lição, de ensinamento. Uma exposição referente ao seu próprio contexto, em tom de boa disposição com que a Galeria Balcony a apresenta no seu espaço principal. De artistas a colecionadores, do olhar mais interessado ao mais desinteressado, passando pelas galerias que os unem e se tornam o habitat natural deste ecossistema em que tudo e mais alguma coisa pode acontecer, vivem-se tempos em que a ironia reina.
Com curadoria de Tiago Alexandre e obras de Carolina Serrano, Dealmeida Esilva, Hugo Brazão, Laura Caetano, Mané Pacheco, Nikolai Nekh, Nuno Nunes-Ferreira, Pedro Henriques, Pedro O Novo, Sara & André e Tiago Alexandre, PICKPOCKET está patente na Balcony Gallery até 7 de fevereiro.
  1 O Colecionador #9, 2021, de SARA & ANDRÉ. 2 Queen, 2021, de Nuno Nunes-Ferreira. 3 Algodão sintético, 2025, de Mané Pacheco. 4 You are happy, 2025, de Tiago Alexandre. 5 Canto do cisne, 2022. 6 Pareidolia 2, 2025, de Pedro Henriques. 7 TENNIS / MATCH, 2018, de Nuno Nunes Ferreira. 8 O spray vermelho que se estende pela montra da galeria e que sinaliza os nomes de artistas que participam na exposição faz referência à técnica utilizada para identificar carteiristas na rua, tornando-se mais fácil evitá-los.    
BIOGRAFIA
Tomás Saraiva (n. 2002) é licenciado em Ciências da Arte e do Património pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e mestrando em Estudos Curatoriais no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Entre a pintura e a curadoria, conjuga o pensamento artístico que tem vindo a desenvolver com os seus valores curatoriais, seja a solo ou em coletivo. Tem realizado e participado em diversas exposições a nível nacional e internacional.
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