Entre a promessa e a fractura, entre o gesto que anuncia protecção, cuidado, saída, e a consciência de que esse mesmo gesto carrega, desde o início, a sua própria impossibilidade, ergue-se Poems of Tomorrow, primeira exposição individual de João Motta Guedes na Galeria Francisco Fino.
Parece-me relevante começar por esclarecer que, aqui, a poesia - no seu sentido mais amplo, dilatado - não parece surgir como complemento. É método, é estrutura de pensamento. É meio através do qual o mundo é interrogado. Motta Guedes tem vindo a explorar, com um rigor sensível, as tensões constitutivas da condição humana - liberdade e violência, vulnerabilidade e desejo, promessa e desesperança. A sua prática projectual, ancorada numa investigação material exigente, revela uma reflexão que é, simultaneamente, íntima e colectiva.
Com formação em Direito, o artista tem-se feito valer de ferramentas de análise, de linguagem e de responsabilidade, movendo-se através do campo da empatia, da consequência e da individualidade, onde pensar é, também, assumir implicações. O seu trabalho não oferece respostas. É incessante na procura. Pergunta o que fazemos aqui, pergunta qual caminho seguimos, pergunta como habitamos as emoções que nos orientam e desorientam. Humaniza ao reconhecer a fragilidade como condição; capacita ao convocar a sensibilidade como força; agencia ao procurar, persistentemente, pela garantia da dignidade do outro. Explora as possibilidades de vários caminhos e a experiência da queda como movimento necessário para recomeçar. Confronta a realidade sem abdicar do sonho. Persiste entre a lucidez do limite e a insistência da hipótese, das várias hipóteses. Entre a utopia e a consciência da tentativa -sempre a tentativa.
Vejo Poems of Tomorrow como um arquivo poético de promessas - as promessas de João Motta Guedes, talvez as promessas de todos nós. Um campo onde escultura e instalação desdobram o tempo num contínuo de expectativas, frustrações e possibilidades, expondo o futuro como espaço aberto de projecção e risco. Um labirinto que anuncia a possibilidade de vários caminhos, de possíveis escolhas, (The only way out is through, 2026); uma escada impossível (A measure of salvation, 2026); uma porta que leva a lugar nenhum (Edge of infinity, 2026); vestuário que promete proteger - gosto de imaginar que à prova de bala - feito de vidro estilhaçado (Promise you will protect me I, II e III, 2026); o cuidado (Bringing the flowers to you, (sunflower), 2025); a pausa (Taking a break from all your worries, 2025)… cada obra convoca movimento e, simultaneamente, a sua suspensão. O dispositivo promete ascensão, mas não conduz; a estrutura que sugere saída devolve-nos ao ponto de partida; a escada, tensionada por arame farpado, transforma a ideia de progresso num gesto interrompido. Não há chegada. Apenas devir, um processo incessante de subjectivação e interrogação. Parece insinuar-se, precisamente, nas obras, uma promessa de possibilidade de transição, a sugestão de que há passagem possível, deslocação, transformação. Contudo, o gesto que anuncia essa travessia não a garante. As obras tornam-se, antes, pontos de fricção entre o desejo de ir além e a inevitabilidade de permanecer aqui. Entre o ser-para-além e o estar-no-presente. Propõem que, o que poderia ser abertura, torna-se intervalo. Há uma recusa no destino assegurado.
Também os materiais que escolhe participam nessa tensão. Carregam, na sua própria materialidade, uma contradição activa. Transparência, refracção, fragilidade…qualidades que sugerem leveza e protecção, revelam-se ambíguas. O que aparenta resguardar expõe; o que parece proteger ameaça estilhaçar-se. O simulacro de defesa transforma-se em metáfora do que inventamos para sobreviver ao mundo: crenças, sistemas, narrativas, promessas de amparo. É a resistência a ameaçar converter-se em fragmento; a segurança a revelar fissuras. Como promessa, no sentido derridiano, a exposição abre-se a um futuro que não controla, radicalmente incerto, por cumprir[1]. Há, nas obras, - por exemplo, Somewhere we may meet again (2026) ,- uma co-implicação entre quem promete e quem acredita. Estas exigem uma espécie de ética da recepção: a disposição para aceitar que a promessa não assegura realização e o reconhecer que a poesia, aqui, lança-nos para um dos muitos futuros possíveis. Um futuro aberto, poético, onírico, livre. Um futuro feito, quem sabe, de amor.
A investigação que o artista leva a cabo, e que aqui se torna bastante clara, torna-se corpo de uma esperança lúcida. Consciente de que a carta pode não chegar, que a escalada pode terminar num vértice impossível, que a porta pode abrir para o mesmo lugar. Ainda assim, a promessa persiste como convite: imaginar outros modos de estar e fazer, outras formas de habitar as fracturas, outras maneiras de reconhecer o outro. Encontra-se exposto um conjunto de obras que nos impele a pensar, sentir e viver a vulnerabilidade como condição constitutiva do humano. A aceitar a sensibilidade como potência relacional, como possibilidade de encontro. E, quem sabe, nesse reconhecimento, se insinue a ideia de uma sociedade mais justa, de uma consciência partilhada de cuidado. João Motta Guedes lembra-nos a importância de continuarmos a falhar… só para, amanhã, podermos falhar melhor.
Já na mostra de Pedro Barateiro o passado é convocado como construção activa. Folklore (Part 2), presente também na Galeria Francisco Fino, é, mais do que uma evocação nostálgica da tradição, uma investigação crítica sobre os mecanismos que a produzem. As obras apresentadas inscrevem-se numa prática artística que há muito interroga os sistemas simbólicos, políticos e culturais que moldam a experiência contemporânea.
O artista tem desenvolvido, ao longo das últimas décadas, uma obra transversal que atravessa desenho, pintura, escultura, instalação, performance, vídeo e escrita. A sua prática organiza-se como dispositivo de pensamento onde explora as tensões entre linguagem, poder e imaginação, construindo ambientes que operam como espaços de questionamento colectivo. Aqui, essa investigação, parte da própria etimologia do termo: folk — povo; lore — saber. Folklore designa, assim, tanto o conhecimento do povo como o conjunto de narrativas que estruturam identidades colectivas. Para Barateiro, interessa sobretudo a dimensão dinâmica desse campo, um território em constante disputa, onde memórias, símbolos e discursos se reorganizam, se reinterpretam e se transformam, revelando que a tradição não é fixa, mas sempre renegociada. Aqui o ponto de partida conceptual assenta na representação da tiara de D. Estefânia (Folklore, 2026). Este objecto histórico e simbólico funciona como ponto de interrogação, como catalisador de questões sobre legitimidade, poder e representação. Ao representá-la no espaço da arte contemporânea, o artista investiga os imaginários políticos e afectivos que a jóia sustenta. A representação da tiara, utilizada também como capa de uma publicação da Duvida Press, estabelece um eixo de leitura que articula os diversos elementos do espaço expositivo. Entre eles, a BNU table, desenhada por Daciano da Costa para o Banco Nacional Ultramarino, que introduz uma camada de leitura adicional. Este objecto de design, criado para contextos administrativos coloniais, torna-se, aqui, um documento silencioso de estruturas económicas e geopolíticas específicas.
A apresentação de 39 capas de livros da Duvida Press, dispostas em formato de poster, acrescenta outra dimensão crítica. Funcionando como biblioteca imaginária, estas capas — que abrangem ficção, teoria e ensaio - questionam autoria, legitimação e circulação do conhecimento. Ao integrá-las no espaço expositivo, o artista transforma cada publicação num dispositivo activo de reflexão, tornando o acto de expor uma experiência sensível de contacto com o passado e de reconfiguração do presente. A memória e a narrativa são aqui inscritas de forma material e conceptual, demonstrando que aquilo que herdamos não é fixo, mas constantemente rearticulado.
A justaposição destes elementos - joia régia, design modernista e materiais editoriais - constrói um campo de tensões entre poder, estética e memória, desafiando a percepção de cada objecto como isolado ou mesmo neutro. Barateiro explora as camadas temporais e simbólicas destes elementos, estabelecendo relações entre objectos criados em períodos distintos, numa tentativa de esbater a hierarquia tradicional do valor e, talvez, da autoridade que cada peça encarna. Na sua procura por meios que revelem aspectos históricos, narrativas, testemunhos, enfim, pretende trazer um outro tempo que ainda informa o nosso, pela sua presença e fetichização[2]. Constrói um território de intersecção entre ideias e temporalidades, fazendo emergir relações de sentido (ou expondo onde esse sentido se desfaz).
Barateiro parece querer, em Folklore (Part 2), que não esqueçamos que tradição é sempre um acto de montagem e que aquilo que chamamos de identidade é, na verdade, resultado de escolhas, esquecimentos e deslocações. Que futuro é possível quando não vemos que o passado é agente activo na produção de sentido e na construção das narrativas que nos definem?