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Realismo Ilhéu: Marcelino Santos no Museu do Neo-Realismo
DATA
23 Set 2026
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AUTOR
Carla Carbone
“A obra de Marcelino Santos, agora exposta em Realismo Ilhéu, uma exposição patente no Museu do Neo-Realismo, é um testemunho de um equilíbrio entre estes dois universos e formas operativas. A obra de Santos supera a dicotomia e posiciona o artesanato no mais elevado patamar da arte. A pergunta impõe-se: É arte? É artesanato? É arte, no sentido mais nobre do que é o artesanato.”
Na obra Protágoras, de Platão, o herói conta a história de Epimeteu, a figura mitológica que se esqueceu de, na altura de criar os seres humanos, fornecer defesas naturais, tal como o fez com os animais. É nesse momento que o seu irmão, Prometeu, decide roubar a oficina de Hefesto (deus dos artesãos) e entregar à humanidade os segredos e a habilidade, das artes mecânicas, na tentativa de remediar o erro de Epimeteu.
As artes mecânicas, ou o modelo do artesão, eram assim práticas e saberes técnicos que, através das suas funções específicas, preenchiam as necessidades da sociedade.
O artesanato (artes mecânicas) compreende, neste período, um saber funcional e útil. Opera na esfera da especialização, inscrita em habilidades dominadas por alguns, que contrastam com outros saberes mais centrados na virtude e nos valores, debatidos em sociedade, conforme evidencia o diálogo do sofista Protágoras com o filósofo Platão, na obra Protágoras.
No “saber de Prometeu”, ou no artesanato, o artesão utilizava a techne com vista a responder, ou atingir, um determinado fim. Platão rejeitava o artista por este apenas conseguir reproduzir a aparência do objecto, por proceder à cópia da cópia e não ser capaz de fabricar o objecto real - o objecto em si. O artesão era, para Platão, o agente útil à sociedade, ao passo que o pintor era um ilusionista que, segundo o filósofo, motivava a desorientação, o descontrolo, o caos, a aparência enganadora e o afastamento dos homens da verdade.
Aristóteles, na obra Poética, veio atribuir um papel mais nobre à arte, uma “função” aos pintores. Para este filósofo, as imagens pintadas da natureza forneciam oportunidades e tempo para observar as suas propriedades universais, as suas narrativas, as suas verdades, as suas catarses.
A separação entre artesanato e arte atingiu o seu expoente máximo durante o Renascimento, num período em que os artistas reivindicavam o seu espaço operativo no seio da ciência e do pensamento racional. A linha que separa a arte do artesanato, dissipou-se um pouco, por fim, nos séculos XX e XXI. O activista e artista William Morris, bem como os mestres da multidisciplinar escola da Bauhaus, contribuíram para esta diluição da divisão que existia entre a cultura popular e a alta cultura.
Hoje, esta separação revela-se mais ténue e imperceptível. Cada vez mais artistas, sensíveis a conteúdos pós-colonialistas, frisam a urgente exteriorização artística favorável ao derrubar das barreiras sociais, das visíveis intolerâncias e dos preconceitos etno e eurocêntricos. Mais próxima da arte viva, longe das instituições reguladoras dos museus, dos padrões rígidos da história da arte ocidental, encontra-se a bela arte realizada pelas comunidades africanas, onde o uso se harmoniza habilmente com a beleza e a tradição. E é nesta arte fora do tempo e do âmbito ocidental que se evidencia menos esta divisão, esta dicotomia, de arte versus artesanato. Após o expansionismo do que é a arte, perpetrado por Duchamp1, e as afirmações de Gropius de que o utilitarismo das peças feitas por artesãos não inviabiliza a sua propriedade estética, parecem não fazer mais sentido tais divisões2.
A obra de Marcelino Santos, agora exposta em Realismo Ilhéu, uma exposição patente no Museu do Neo-Realismo, é um testemunho de um equilíbrio entre estes dois universos e formas operativas. A obra de Santos supera a dicotomia e posiciona o artesanato no mais elevado patamar da arte. A pergunta impõe-se: É arte? É artesanato? É arte, no sentido mais nobre do que é o artesanato.
Atena, deusa dos ofícios e das artes manuais - trajando vestes suaves, drapeadas e entretecidas por si - deve estar feliz, lá no alto do monte Olimpo, ao constatar este enaltecimento, na terra, das artes da tecelagem.
Marcelino Santos (1957), numa curadoria desenhada por Carlos Noronha Feio e Ricardo Barbosa Vicente, apresenta-nos, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, um extraordinário conjunto de obras de tecelagem em lã, na sua maioria realizadas pelo artista em 2026 (com excepção de Homem do atum, realizado em 2017, e Boa Vista, de 1982).
A obra, presente na exposição, compreende tapeçarias, desenhos e pinturas sobre cartão, reveladoras do compromisso do artista com a arte popular, o artesanato e a cultura tradicional insular oriunda de Cabo Verde. Santos fez parte integrante da lendária Cooperativa Resistência, fundada em São Vicente em 1976, concentrada em definir uma identidade cultural verdadeiramente cabo-verdiana.
As obras reunidas em tapeçaria revelam um colorido puro e vibrante, de entoações que me atrevo a evocar Robert Delaunay, e fazem adivinhar os milhares de gestos que o artista realizou, no enleio dos fios, para formar as composições apresentadas na exposição. Orbitam entre temas de homens que trabalham a terra, outros que pescam no mar, mulheres que amanham o peixe, ladeadas por padrões geométricos e vilas piscatórias, festas na rua com tambores e máscaras de carnaval.
As imagens de Marcelino Santos, segundo Carlos Noronha Feio, e Ricardo Barbosa Vicente, partem da observação direta da vida comum e ganham forma através do desenho, do fio, da cor e da composição, transformando cenas do quotidiano em representações carregadas de memória e identidade. As obras de Santos representam, para os mesmos, justamente a dissolução das fronteiras entre arte e artesanato, (…) sem hierarquias rígidas, (…) cujo desenho, tapeçaria e trabalho manual pertencem a uma mesma prática artística, de uma manualidade profundamente enraizada na cultura material cabo-verdiana.
Com curadoria de Carlos Noronha Feio e Ricardo Barbosa Vicente, a exposição é o resultado de uma parceria entre o Museu do Neo-Realismo e o CNAD, entre Portugal e Cabo Verde, e pode ser visitada até dia 11 de outubro de 2026.

1 RODRIGUES, W. Arte ou artesanato? Artes sem preconceitos em um mundo globalizado. In: Cultura Visual, n. 18, dezembro/2012, Salvador: EDUFBA, p. 85-95
2 Ibidem
BIOGRAFIA
Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador.
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