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Técnica mista sobre papel #11: O estio das palavras cruzadas
DATA
01 Jul 2026
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AUTOR
Luísa Salvador
“Há uns meses, numas aprofundadas arrumações de papéis, encontrei um pequeno catálogo de uma exposição de José Loureiro. Era um dossiê informativo, uma publicação com páginas agrafadas sobre desenhos e pinturas da década de 1990 do artista, e onde vi um conjunto de imagens da sua série Palavras Cruzadas. Os desenhos fixaram-me o olhar, como tantas vezes me acontece, por serem simples grelhas pintadas, mas com uma vivacidade de traço tão marcada. Caramba, pareciam só grelhas, não o sendo.”
Palavras cruzadas é sinónimo de estio. Aí está, já uma meta-piada de sinónimos a propósito de palavras cruzadas...! Antes de partir para a bengala, que é usar uma definição de dicionário para encetar um texto, vou permitir-me começar de outro modo. As palavras cruzadas são provavelmente uma arte em desuso, e é isso que preocupa. O uso da paciência, ou o seu desgaste, está em vias de extinção. No futuro, não saberemos sequer o que eram palavras cruzadas, nem compreenderemos o que uma grelha com vários quadradinhos possibilitava, ou a exasperação que causava. Nascer na era do papel, ser geração de papel em transição para o digital, é uma enorme alegria da vida. Daquelas que não se escolheram. Aconteceu.
Há uns tempos, precisei de ir a uma casa de cópias imprimir uns documentos e perguntei ao jovem atrás do balcão se vendiam envelopes porque precisava de enviar aquela papelada por correio. O rapaz ficou com cara de pânico. Depois, começou a pensar onde poderiam estar guardados. Trouxe-me uns envelopes, de um formato que não se adaptava ao tamanho das folhas de papel e eu reforcei, sem ainda perceber o que se estava a passar: “Era um daqueles envelopes, daqueles estreitos para eu dobrar o papel em três e enviar por correio”. Balbuciou com algum desconforto: “Não sei do que fala...nunca enviei ou recebi uma carta.” Naquele momento entristeci-me. Por ele. Nunca teve o prazer, a alegria, a surpresa, a palpitação de receber uma carta numa caixa de correio. Também isso está em desuso, e parte do problema está na degradação dos serviços postais no mundo inteiro. Essa análise fica para outra ocasião.
Este episódio marcou-me. Percebi, pela reacção do rapaz, o enorme fosso que separa a era pré e pós-papel. Há quem já nem saiba o que é uma carta, o que são selos, o que é escrever moradas de amigos em caderninhos na eventualidade de se escrever um postal em viagem. O que se perde de afecto, ao mesmo tempo tão simples e tão reconfortante.
Com as palavras cruzadas creio que acontece o mesmo. Daí serem sinónimo de estio. Agora sim: Estio: Substantivo masculino. 1. O Verão. 2. Figurado: a idade madura. Ou, outra fórmula, ao estilo do tema — Verão, 5 letras.
Fazer palavras cruzadas é sinónimo de férias prolongadas. Entre pedir o jornal já lido pelos mais velhos para rematar aquela página, ou os caderninhos-suplementos de jogos de memórias para o Verão usados na praia durante dias até ficar tudo preenchido, as palavras cruzadas são um reduto de uma forma de estar. Relembram também as férias com amigos, a compra propositada do Expresso apenas para andarmos todos a dar palpites da palavra com duas letras que é sinónimo de suíno (ficam a saber, é ). Debruçarmo-nos sobre palavras cruzadas exige tempo. No Verão, há tempo. E na velhice também. Achei por isso interessante estio ser também sinónimo de idade madura. As palavras cruzadas são igualmente uma manifestação de maturidade, com paciência e resiliência, mas também com a sabedoria preenchida pelos anos de vida que nos ensinam mais e mais sinónimos para a mesma coisa.
Pessoalmente, conheço uma senhora centenária que não passa sem as suas palavras cruzadas diárias. O seu neto ensinou-me todas as variações de cadernos de palavras cruzadas, das também simples cruzadexes aos enigramas, e que a maioria das vezes têm umas capas bem picantes que fazem corar qualquer jovem adolescente ou velhote atordoado.
Mas há algo nas palavras cruzadas que faz parte deste imaginário que construí ao longo da vida, entre ser sinónimo de Verão e actividade mental de seniores, e que eu ainda não tinha previsto. A possibilidade de ver as palavras cruzadas serem sinónimo de Arte.
Há uns meses, numas aprofundadas arrumações de papéis, encontrei um pequeno catálogo de uma exposição de José Loureiro. Era um dossier informativo, uma publicação com páginas agrafadas sobre desenhos e pinturas da década de 1990 do artista, e onde vi um conjunto de imagens da sua série Palavras Cruzadas. Os desenhos fixaram-me o olhar, como tantas vezes me acontece, por serem simples grelhas pintadas, mas com uma vivacidade de traço tão marcada. Caramba, pareciam só grelhas, não o sendo.
A grelha acompanha as composições pictóricas ao longo da História da Arte. É um excelente auxiliar para aumentar ou diminuir composições à vista. Coloca-se ou desenha-se uma grelha por cima de uma imagem e ao passar para outro suporte, preenche-se cada quadrícula com a mesma informação, na escala que se quer. Um exemplo que me vem sempre à memória é o filme de Peter Greenaway, the Draughtsman’s Contract (1982) onde o pintor a quem foi encomendado um conjunto de representações de um estate britânico, utiliza com rigor este sistema recticular. Se na idade Moderna, entre pintores como Da Vinci, Michelangelo, Velázquez ou Vermeer, sabemos da utilização da grelha como auxiliar de pintura, é também curioso compreender como a grelha começa a ganhar a sua própria importância temática na arte contemporânea. Torna-se um registo por si só, nos primeiros modernismos com Mondrian, mais tarde como unidade abstracta entre minimalistas como Judd ou, de um modo assumidamente central, como na extensa obra de Agnes Martin. O mundo parece entrever-se através de sistemas recticulares e diversidades de aberturas de grelhas. No entanto, ainda não tinha visto a grelha presentificar-se através do corriqueiro — como José Loureiro entreviu, e bem, nas básicas e presentes palavras cruzadas.
A grelha das palavras cruzadas é de facto única. No momento em que nos deparamos com esta possibilidade de desenhá-la, são várias as multiplicidades de cheios e vazios de quadradinhos que não se repetem, apenas se reagrupam. Na série das Palavras Cruzadas (1994) de José Loureiro, o mesmo título é sempre acompanhado por um número à frente. Há aqui uma sistematização do próprio interior do que já é organizável, como quando se juntam páginas nos cadernos das palavras cruzadas. São todas partes de um sistema em que se assume o mesmo tamanho de tela, como o esquema quadrado que ocupa a página das palavras cruzadas. A escala das quadrículas é igual no seu interior limitado. Ainda que dispostas de modo diferente, são fruto da mesma repetição.
Nas telas de Loureiro, os tons são homogéneos, entre castanhos, ocres, vermelhos e cinzentos. Os desenhos que encontrei no catálogo ainda são melhores. Pertencem à mesma natureza da escrita da palavra cruzada. São rectículas pretas desenhadas à mão levantada, com pequenas manchas coloridas a pontuar a grelha, como quem preenche uma primeira vez a letra a ver se é aquele o resultado que espera. Têm uma qualidade provisória, uma “escrita” rascunhada. São pinturas lúdicas, jogos de cheios com quadrados pretos que demarcam a ligação entre uma e outra palavra, das casas vazias em expectância de serem preenchidas pelas ditas palavras cruzadas. Mas aqui, ao contrário do sentimento de vitória de quem preencheu devidamente todos os quadrados vazios, o que interessa é a grelha, o resultado que ainda está por vir. Não interessa a palavra exacta, pois essa anulará o papel misterioso inicial de quem se abalança para mais uma encruzilhada.
As palavras cruzadas são, por isso, mais do que um simples lazer estival. São sistemas de organização do mundo, entre a beleza em macroescala da sua quadrícula, os desafios renovados das palavras e seus sinónimos. Não será para todos. Como todas as coisas interessantes, tem as suas dificuldades. Mas com paciência, sabedoria, diversão e vontade, não há ainda maior prazer neste estio das estações ou na força da idade.
BIOGRAFIA
Luísa Salvador (Lisboa, PT) é artista visual e investigadora. É doutorada em História da Arte Contemporânea pela NOVA FCSH. Tem Mestrado em História da Arte Contemporânea da NOVA FCSH e Licenciatura em Escultura da FBAUL. Expõe regularmente desde 2012. Participou no programa de residências artísticas do Festival Walk&Talk, São Miguel, Açores (2018-2021) e da Fundação Cecília Zino, Funchal, Madeira (2021). Foi vencedora do Prémio Jovens Criadores 2018 na categoria de Artes Plásticas e 2º Classificada do Prémio de Arte Edifício dos Leões 2023 / Banco Santander. A par da sua prática artística, desenvolve também actividade escrita, em textos teóricos e crónicas. Sob o pseudónimo Luísa Montanha e Vale, fundou em 2018 a publicação trimestral Almanaque — Reportório de Arte e Esoterismo da qual é editora. É co-fundadora do podcast Debaixo das Estrelas. Recentemente, começou a colaborar como cronista na revista Umbigo. Vive e trabalha em Lisboa.
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