Se perguntarmos à paisagem que natureza ela tem, nada mais teremos como resposta do que uma imagem em formação, fugaz, mas inesquecível e tão pretérita quanto presente. É uma imagem mental, uma construção psicológica, política e cultural, que nos arranca da concretude do mundo real, rotineiro, vago, para um sonho esquecido da infância, antes como substituto da natureza, agora como fotografia replicável de uma cidade. Nunca poderá haver uma definição visual objetiva, realizada, porque dessa imagem há lastros de um tempo profundo gravado nas pedras, nos ossos, na elasticidade ou volatilidade da memória. Será porventura também uma projeção e uma representação, não exatamente discriminativa, classificável ou inserível numa categoria das indexações modernas, porque por vezes é uma fragrância, outras vezes é uma linha, uma mancha, um efeito do sol que queimou a retina e deixou lastro, um borrifo salgado e distante de um oceano inteiro, ou algo que é tudo isso, nada mais que isso, empurrado de todos os pontos cardeais da memória e de supetão.
Vem isto a propósito da exposição as paisagens mudam de lugar: obras da coleção da Fundação PLMJ, com a curadoria de João Silvério e a presença de 40 artistas oriundos dos vários países de língua portuguesa, de uma coleção que consegue fazer a revisão completa das diversas aceções da palavra paisagem, desde a conceção clássica e representativa do termo até à imersão onírica, abstrata e gestualista.
São várias as obras que aludem ao discreto e intenso estado de graça que a paisagem ocupa na pintura contemporânea. De João Queiroz, Mariana Gomes, Ana Cardoso, Manuel Botelho, Pedro Vaz e Pedro Calapez intuímos o que Anne Cauquelin em tempos concebeu como paisagem enquanto invenção ou “ilusão”. Aqui encontramos imagens difusas, evanescentes, que só a liberdade paradoxal da pintura consegue captar com o arrastamento da cor e a expressividade do traço pincelado: umas são lugares mentais, outras, lugares de matéria e experimentação; imagens compositivas, recombináveis, por momentos mais desenho que pintura; paisagens cuja bidimensionalidade decetiva obriga a escavar as muitas camadas e sobreposições, etc. É através destas obras que recordamos os velhos mestres e a longa tradição pictórica da paisagem na História da Arte – eles, que através da pintura, disse Cauquelin, “engendraram uma espécie de máquina de olhar a paisagem”. Não se pode pensar a paisagem sem se pensar a pintura.
Quando olhamos e vemos uma paisagem, fazemo-lo com todos os olhos de todos aqueles que a fizeram antes de nós: pintores, poetas, escritores, arquitetos… são eles que imprimiram nas paisagens que agora contemplamos mistério, qualidades psicológicas e sociológicas, que se vão adensando e complicando quanto mais paisagens lermos, admirarmos, sonharmos, ouvirmos. A paisagem é, portanto, produto cultural; comunga desse processo a que Alain Roger chamou de “artialização”, quando o sentimento estético conduz a perceção e a transformação dos lugares.
No entanto, a exposição vai mais longe, ao tornar-se ela mesma uma paisagem que emula, finge e desenha imagens compostas mentalmente. Nesta perspetiva, há obras que em vez de falarem sobre a paisagem existem antes como fenómenos retirados de lugares recônditos, cuja presença ajuda a compor um trilho cambiante de coisas metamórficas, estranhas, alimentadas pelo olhar que cada um nelas deposita: as flores de Margarida Lagarto, os sinais de Maia Escher, o espelho de água de Virgínia Fróis e o hipnotizante vídeo de Jéssica Gaspar do que parece ser uma esfera de gelo em chamas. A exposição abre espaço para o devaneio, para a errância dos corpos e dos olhares, ensaia uma coreografia que perturba a ideia de linearidade ou, em alternativa, de fixidez.
Sobre os entornos políticos, geográficos, culturais e psicológicos há muitas obras que merecem referência, a começar pela obra de Pedro Valdez Cardoso – um trabalhoso emaranhado de linhas cartográficas e costuras, que refaz um mapa de fronteiras em jeito de colete salva-vidas. É um mundo à deriva, em busca de auxílio, eventualmente perdido por esse Mediterrâneo, ou por um qualquer canal marítimo distante, que fez das fronteiras objeto, obstáculo e sujeito político – um fim em si mesmo, que condena à morte uns, permite a passagem de poucos – os mais endinheirados, sempre os mais endinheirados –, num equilíbrio que ameaça desfazer-se, romper-se, fragmentar-se.
Através de Mónica de Miranda, a mulher adquire uma pose majestosa, observando, calma, as malhas de uma cidade que se mostra longe, rodeada de uma paisagem árida, talvez uma cidade periférica, satélite; que cresce espontânea e organicamente. De Miranda dignifica a mulher negra. A perspetiva elevada, numa composição centrada ou centralizada no corpo feminino, com a cidade como pano de fundo, faz essa citação da pintura romântica, contemplativa, introspetiva, ao mesmo tempo que veicula toda uma contemporaneidade interseccional e feminista à narrativa fotográfica e quase cinematográfica. Sob a sua lente, todo um processo decolonial se desenvolve diante do espectador.
A fotografia de João Grama traz-nos reminiscências da Land Art e de uma corda que se lança aos rochedos e ao mar agitado, para desenhar um delicado abraço ou contorno nas pedras.
Fernanda Fragateiro traz-nos a hipótese de uma construção interior em perpétuo devir, não só do espaço arquitetónico em que a obra se instala, mas também daquele lugar ora sombrio ora luminoso que se abre com o reflexo do próprio espectador – a construção de uma paisagem é, afinal, uma construção mais humana que natural.
Ainda no campo introspetivo, a obra de Susana Mendes Silva: uma imagem continuada de obsessão, repetida, reescrita, uma e outra vez, talvez como castigo, talvez como forma de gravar as palavras e os momentos numa superfície mais funda que o papel, como gesto mnemónico, formativo e informativo. É aqui que a exposição se solta da evidência do que é retratado, do que é captado e reproduzido segundo os órgãos sensíveis, para se aventurar na ontologia da paisagem – isto é, do que é ser paisagem. Neste sentido, as paisagens mudam de lugar indaga isso a que Georg Simmel aludia quando falava de paisagem – um “processo espiritual”, que necessita de “demarcação” porque dela se espera o todo num pedaço. Talvez seja por isso que também Anne Cauquelin tenha insistido na necessidade do “quadro”, pois que é ele que “faz imaginar o extra-quadro”, obrigando a imaginação a completar o que vê diante de si.
A última sala da exposição ensaia a experiência possível entre o caráter patrimonial do antigo Palácio da Inquisição, com os painéis de azulejos e a arquitetura possante a fazerem parte da composição curatorial, e as obras de arte. É a instalação de Horácio Frutuoso que serve de meio agregador, criando uma paisagem de reflexos, palavras e planos diáfanos, que replicam e fragmentam as obras que a circundam. A palavra é, nesta sala, invocada para fazer a paisagem abrir-se ao mundo. Primeiro com o eco da voz interior e depois com o clarão que ilumina a arqueologia da memória. É um campo de interioridade, de imagens íntimas, tabus, confissões, concebido num espaço dúbio de luz, sombra e transparências.
O que aqui se propõe mais não poderá ser do que um texto limitado. Há muito em as paisagens mudam de lugar: obras da coleção da Fundação PLMJ que por economia de espaço fica para trás: as montanhas e as cartografias de Pedro Vaz, os desenhos íntimos de Juliana Matsumura (concebidos com uma chapa de gravura gasta pelo tempo), a constelação de desenhos de Alice Geirinhas (que regressa à ideia de narratividade e sequencialidade), o caráter metamórfico da escultura de Cristina Ataíde no terraço (beneficiando de um lógico diálogo com o exterior do edifício), as misteriosas fotografias de Tito Mouraz, etc. Fica, no entanto, a crónica possível de uma exposição inesgotável, na qual encontraremos sempre novos lugares e territórios cambiantes em tudo o que os artistas cristalizaram num breve momento ou numa única imagem.
A célebre metáfora do palimpsesto aplica-se também aqui: cada olhar acrescenta sempre uma outra e nova vivência da paisagem, renovando sentidos e apontando caminhos ainda não desbravados numa Natureza idealizada e romantizada, numa cidade moderna, num mapa de afetos, ou em paisagens compostas por muitas outras, algumas conflituantes, mas sempre fecundas para a arte. As paisagens não se esgotam: são fenómenos do espírito que se moldam através de matéria compósita – “transgénica”, de acordo com Álvaro Domingues –, incorporando sempre e necessariamente o que a tecnologia, a política, o capital, a agroindústria e a especulação, lato sensu, trazem para a construção de um plano imagético.
as paisagens mudam de lugar: obras da coleção da Fundação PLMJ está patente na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, até 30 de agosto, e conta com as obras de Alice Geirinhas, Ana Cardoso, Ana Pérez-Quiroga, António Júlio Duarte, Catarina Leitão, Cristina Ataíde, Daniel V. Melim, Délio Jasse, Fernanda Fragateiro, Francisco Vidal, Horácio Frutuoso, Jéssica Gaspar, João Cutileiro, João Fonte Santa, João Grama, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, João Queiroz, José Chambel, José Pedro Croft, Juliana Matsumura, Maja Escher, Manuel Botelho, Margarida Lagarto, Mariana Gomes, Miguel Ângelo Rocha, Moira Forjaz, Mónica de Miranda, Nuno Nunes Ferreira, Pedro Calapez, Pedro Valdez Cardoso, Pedro Vaz, Ramiro Guerreiro, René Tavares, Rosana Ricalde, Rui Soares Costa, Susana Gaudêncio, Susana Mendes Silva, Tito Mouraz, Vasco Araújo, Virgínia Fróis, Vítor Ribeiro. A curadoria é de João Silvério.