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Técnica mista sobre papel #12: Máscaras que não são para mascarar
DATA
25 Ago 2026
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AUTOR
Luísa Salvador
"A pintura quadrada de máscaras de tonalidades azuis e tela de linho virgem, estava ali, pendurada numa parede. Exclusiva a poucos, selecta a quem se mostra. Mas era ela, pendurada em paredes forradas a seda virgem, ela, a tela de linho cru com manchas esbeltas de cor. Cheia de luminosidade, consegue ver-se toda a sua presença mesmo com vidros a separar-nos. Essa, nunca teve de se mascarar. É bonita e equilibrada, é tudo o que basta."
Existe uma pintura que habita a Fundação Calouste Gulbenkian. Não está sozinha, convenhamos, é a Gulbenkian. Mas esta já eu gostava muito antes de saber onde residia. Quando finalmente a vi ao vivo, não estava na parte aberta ao público, mas numa outra zona, numa parede mais selecta. Encontrar pinturas de que gostamos é uma espécie de desporto dos artistas. Ir de propósito a um lugar para ver algo que só conhecemos em publicações, reencontrar reverência nos mestres que idolatramos. Descobrir obras de arte que não imaginávamos ou novos nomes que passam a fazer parte de um dicionário mental. Ver tudo ao vivo com a sede imensa de quem encontra uma outra maneira de fazer algo e ainda não sabe como.
Há um par de anos, decidi que ia abalançar-me em novas execuções artísticas com materiais que ainda não tinha usado. Estava convicta de que era fazível, muito embora respeite o que desconheço. Como nunca tinha pintado em tela, decidi ser aluna novamente. Contactei o meu professor da cadeira de primeiro ano de Desenho da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, e perguntei-lhe se poderíamos conversar sobre algumas dúvidas relativamente a tintas e suportes para novos trabalhos que queria fazer. Disse-me para aparecer no final de uma aula sua, na faculdade. Foi um regresso. A sala agora era outra, maior, mais luminosa e imponente. Sentei-me na pontinha da mesa do professor e fiquei a ver as suas apreciações aos trabalhos dos seus verdadeiros alunos. No final, tomou tempo para falar comigo, naquele mesmo encadeamento. O sistema tinha mudado. Quando era aluna, o professor trazia para todas as aulas um livro de arte diferente para encetar uma nova técnica que tínhamos de experimentar naquelas horas. Agora, de um modo mais eficiente, tinha um computador e ia abrindo janelas na internet para mostrar diferentes artistas e técnicas. Constatei que o tempo passa.
Chegada a minha vez, já alunos a arrumar os seus trabalhos, abri uma capa cheia de experiências e disse: “Era isto, mas em tela. E não sei se é possível sequer.” Estudei Escultura, a disciplina de Desenho foi transversal ao meu percurso académico. Sempre considerei que era o desenho o fundamento base de qualquer processo artístico ao qual eu me abalançasse. Entrar num campo disciplinar que não era o meu, neste caso, a Pintura e suas telas, na minha cabeça só seria possível se alguém me explicasse como. E assim foi. Confesso que renovei o respeito pela Pintura. Há tantas variações para alcançar resultados...! No entanto, o que eu pretendia mesmo ainda estou para fazer. Mas ganhei coragem para pintar telas, depois daquelas orientações.
Isto para chegar à pintura que encontrei numa parede na Gulbenkian. A dada altura, o professor, para explicar a ideia de utilizar tela virgem com manchas de cor, deu o exemplo das pinturas de Jorge Martins. No computador mostrou-me as pinturas a que se referia, da década de 1980. Nunca as tinhas visto. Não deixa de ser revelador que muitas vezes desconhecemos artistas que tínhamos o dever de conhecer. Tanta obra produzida que está em Portugal e que nunca imaginei existir.
O mais interessante foi perceber, pela explicação do professor, como Jorge Martins utiliza cores fortes e formas demarcadas em tela virgem de linho. As cores parecem flutuar naquele têxtil todo. Mas como? Através de sistemas de máscaras. Máscaras, em linguagem mais artística, vá, é uma forma de delimitar perímetro de actuação, neste caso perímetro cromático. Parece mesmo simples: então, é meter umas fitas-cola crepe ali na zona onde queremos pintar, deixar secar, tirar as fitas e fica feito. Seria mesmo isso, não fosse ser a tela um material poroso, o que leva a que cada mancha de cor intencionalmente colocada, tenha de ser submetida ao sistema de preparação de camadas de gesso acrílico que uma tela habitualmente leva por inteiro. Esta foi possivelmente das informações mais belas que recebi nos últimos tempos. Pensar que a preparação de uma tela pode ter tanta intencionalidade prévia. Saber onde queremos colocar manchas de cor antecipadamente. Renovei a minha reverência pela pintura e pelo cuidado cirúrgico de muitos dos meus colegas e amigos pintores. Não tive esta formação. Não fui ainda capaz de me abalançar nesta missão das máscaras. Caiu-me a mim a máscara.
A pintura de Jorge Martins em questão foi-me primeiramente mostrada num ecrã de computador e já foi motivo de arrebatamento. Tem por título S/ Título e é de 1983. Jorge Martins (1940-) é um artista com um percurso longo e diverso. Inicia a sua carreira na década de 1960, e em seis décadas de produção, passa por todo o tipo de linguagens pictóricas — do rigor abstracto às pinturas figurativas. Mas é na década de 1970 que se dá o arranque de uma presença de tela crua em contraste com superfícies coloridas na sua obra — a que o artista menciona como “a técnica das formas isoladas sobre a tela virgem”1.
É o caso de S/ Título — uma obra de formato quadrado, 135 x 136 cm, tela de linho na sua maioria, com aquela textura tão bonita dos fios cor de areia. É uma pintura a óleo, esbelta e singela. Do fundo têxtil emergem algumas formas longilíneas de cor, que, por estarem com uma orientação vertical, parecem anular o efeito quadrado da totalidade da tela. O tratamento da cor é muito cuidado. Há uma gradação de azul ao centro, emparelhada com uma linha da mesma largura, azul escura. Do lado direito umas barras brancas pintadas que parecem papel de máquina rasgado, quase como recortes aplicados. Do outro lado, a criar um contraponto inesperado, uma linha encurvada em gradação amarelada, e mais duas linhas muito finas, também a esbaterem do verde e azul, rumo ao branco. Tão bem equilibrada, tão eficaz. São linhas que ocupam o espaço da tela neutra. Mas parecem caminhos, desvios e devaneios abstractos. Podiam ser rasgos de luz.
Depois daquele regresso à faculdade, procurei, da mesma forma que me foi apresentada num ecrã de computador, mais pinturas de Jorge Martins. Estas séries da década 1980 não estão muito disponíveis para serem vistas ao vivo. Fica aqui o apelo público. Saúdo também, publicamente, que tenha visto recentemente duas exposições de pintura do artista, em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida, e mais recentemente, na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Mas enfim, o que eu queria mesmo ver eram estas pinturas das máscaras de cores.
Um dia, numa visita de estudo ao edifício da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, visitei o refeitório dos funcionários, no último andar. Numa ronda pelo terraço, no lado de fora, passei pela sala de refeições que é reservada ao Presidente da Fundação e aos seus convidados. Uma vez que não é permitida a entrada a visitantes, espreitei pelo vidro exterior. E não queria acreditar. A pintura quadrada de máscaras de tonalidades azuis e tela de linho virgem, estava ali, pendurada numa parede. Exclusiva a poucos, selecta a quem se mostra. Mas era ela, pendurada em paredes forradas a seda virgem, ela, a tela de linho cru com manchas esbeltas de cor. Cheia de luminosidade, consegue ver-se toda a sua presença mesmo com vidros a separar-nos. Essa, nunca teve de se mascarar. É bonita e equilibrada, é tudo o que basta.
1 Citação de um caderno de apontamentos do artista Jorge Martins: “Quando comecei, nos anos 70/80, a utilizar a técnica das formas isoladas sobre a tela virgem, estaria inconscientemente a introduzir o descontínuo e o quantificável no espaço? E a não-localidade.” O caderno está exposto na exposição individual de Jorge Martins, intitulada Timescape, patente no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional até dia 30 de agosto de 2026.
BIOGRAFIA
Luísa Salvador (Lisboa, PT) é artista visual e investigadora. É doutorada em História da Arte Contemporânea pela NOVA FCSH. Tem Mestrado em História da Arte Contemporânea da NOVA FCSH e Licenciatura em Escultura da FBAUL. Expõe regularmente desde 2012. Participou no programa de residências artísticas do Festival Walk&Talk, São Miguel, Açores (2018-2021) e da Fundação Cecília Zino, Funchal, Madeira (2021). Foi vencedora do Prémio Jovens Criadores 2018 na categoria de Artes Plásticas e 2º Classificada do Prémio de Arte Edifício dos Leões 2023 / Banco Santander. A par da sua prática artística, desenvolve também actividade escrita, em textos teóricos e crónicas. Sob o pseudónimo Luísa Montanha e Vale, fundou em 2018 a publicação trimestral Almanaque — Reportório de Arte e Esoterismo da qual é editora. É co-fundadora do podcast Debaixo das Estrelas. Recentemente, começou a colaborar como cronista na revista Umbigo. Vive e trabalha em Lisboa.
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