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Vivian Maier – Antologia no Centro Português de Fotografia
DATA
09 Jun 2026
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AUTOR
Ana Martins
Quando se começa a escrever sobre uma exposição antológica da fotógrafa norte-americana Vivian Maier (1926-2009), é inevitável mencionar a sua curiosa biografia. Tendo sido ama durante mais de quatro décadas da sua vida, em várias cidades, como Nova Iorque, Califórnia ou Chicago, o seu imenso trabalho fotográfico foi apenas descoberto em 2007, quando comprado por acaso num leilão, após anos fechado em cacifos de armazenamento.
A produção artística de Vivian Maier é composta "por mais de 120 000 negativos, filmes em Super 8mm e 16mm, várias gravações, fotografias diversas e inúmeros filmes por revelar"[1]. É como se nos demonstrasse uma insaciedade por captar a banalidade do quotidiano, durante os seus passeios sozinha pela cidade, ou acompanhada pelas crianças de que cuidava. O gesto de um rapaz a esconder um sapato, um vendedor de jornais a dormir, uma doméstica a limpar uma janela, um polícia a agarrar fortemente as mãos de uma idosa corpulenta, ou um grupo de crianças a brincar. E, sobretudo, os retratos! Que nos revelam o espanto, o desconforto e os olhares acutilantes dos retratados. A estranheza e o grotesco. E o seu assombro perante a cidade, frequentemente comparável ao trabalho de outros fotógrafos, como Lisette Model, Diane Arbus, ou Leon Levinstein. No entanto, segundo as palavras de Anne Morin, curadora da exposição, a propósito do trabalho da fotógrafa: “Vivian Maier narrou a beleza das coisas comuns, procurando as brechas impercetíveis e as inflexões elusivas do real na banalidade do dia a dia”[2].
De acordo, Maier, através das suas fotografias, conta-nos histórias de pessoas anónimas, de passantes com quem se deparava nas ruas e as suas idiossincrasias, tornando-as personagens principais de uma narrativa porvir. Estabelecendo um limite entre si e o que capta, sentimos a sua presença sem, contudo, participar na ação. Como destaca a curadora da mostra: “Com efeito, distância é a palavra-chave no seu trabalho e deve ser enfatizada, pois representa a base do seu modus operandi[3]. De facto, ao longo da exposição, compreendemos esta sua forma de trabalhar, evidente, por exemplo, na fotografia de polícia de volta de um homem morto e todo o aparato à sua volta, ou num excerto de um dos seus filmes Super 8mm: Assassinato em Chicago de uma mãe e do seu bebé [...] (1972). Imagens perturbadoras, documentais, instantâneos disruptivos do quotidiano.
Contudo, a distância na produção artística de Maier ganha uma outra dimensão nos seus retratos e autorretratos. Muitas vezes, a artista fotografa-se diante de espelhos, montras ou superfícies refletoras circunflexas. Sempre com as suas câmaras, que adquiriu ao longo dos anos, entre as quais destacamos a sua Rolleiflex, e que podem ser vistas na exposição graças ao espólio do CPF[4]. Também é comum fotografar o seu reflexo com o rosto de outra pessoa. E captar a sua sombra junto de um grupo de transeuntes, de animais ou perante situações diversas e elementos caricatos. É curioso que, neste conjunto de imagens, a fotógrafa apresente o mesmo olhar acutilante que muitas vezes vemos nos seus retratados. E um sorriso misterioso que nos desafia.
Patente nas salas de exposição do Centro Português de Fotografia, antiga sede da Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, cuja planta trapezoidal proporciona um percurso diferenciado, a exposição divide-se em sete partes: Cenas de Rua, Infância, Formalismo, Retratos, Autorretratos, Fotografias a cores e Filmes Super 8 - cada uma enfatizando uma temática, técnica, estética ou suporte.
Vivian Maier – Antologia pode ser visitada até 30 de agosto de 2026.


[1] Morin, A. (2026). Vivian Maier – Antologia [Folha de Sala]. Porto: Centro Português de Fotografia.
[2] Ibidem
[3] Ibidem
[4] Centro Português de Fotografia

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