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Tabique, de Rita Gaspar Vieira
DATA
12 Jun 2026
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AUTOR
Maria Inês Augusto
A exposição Tabique, apresentada na Salgadeiras Arte Contemporânea, estende-se pela galeria criando um território de investigação sobre processos. Rita Gaspar Vieira apresenta-nos um sistema de pensamento onde matéria, gesto, tempo e vestígio coexistem numa condição de inscrição, mas, também, diria eu, de adivinhação. Entre arquivo e memória, entre a tentativa de nomear e a consciência de que toda a nomeação é precária, constrói-se uma dimensão experimental que afasta a obra de qualquer entendimento estabilizado. Revelar surge aqui como processo de conhecimento, como método de investigação sensível, vestígio de um pensamento corporalizado.
Nesse sentido, a exposição convoca uma ideia de pensamento que não se organiza exclusivamente através de uma linguagem, mas que emerge, igualmente, da experiência corporal, do gesto e da relação directa com a matéria. Através da repetição, da fricção da matéria, do contacto com superfícies instáveis, do erro, da demora e da suspensão, surgem diferentes texturas, fissuras e composições a negro de grafite e a verde de sulfato de cobre. Tudo indica um processo atravessado por uma inteligência táctil que percorre toda a exposição e a desloca para o campo da imaginação da experiência.
A relação entre signo e gesto torna-se particularmente evidente na insistência sobre a marca. Cada inscrição parece conter a duração do seu próprio aparecimento. As obras parecem acumular pressão, velocidade e interrupção. Essa dimensão processual aproxima a prática da artista de uma investigação do sensível, como se explorasse um possível sistema de inscrição da memória, uma forma de arquivo instável e permeável. As superfícies tornam-se depósitos de tempo, lugares de sinais transitórios. Cada camada contém resíduos de acções anteriores, sedimentações mínimas, rastos de contacto.
É precisamente neste ponto que a água assume uma importância decisiva; ela constitui um verdadeiro método operativo e conceptual. Na prática artística apresentada na exposição, a água interferiu directamente nos processos de construção daquilo que vemos, tornando-se agente de transformação da matéria e do próprio pensamento visual, como que ferramenta de desenho. Em vez de controlar completamente a superfície, a artista aceita a acção imprevisível do líquido sobre o papel e sobre os materiais. Essa abertura ao acidente e ao ajuste é central na exposição. A água produz desvios, altera densidades, desfaz limites e cria zonas de indeterminação. Contudo, acredito que não devemos ver estes acidentes como puramente aleatórios. Existe um controlo sobre o descontrolo, na medida em que a artista cria condições para que a matéria responda e para que o processo revele comportamentos próprios. O trabalho desenvolve-se numa negociação contínua entre intenção e autonomia material. Está visível o modo como a matéria guarda memória das suas transformações. Tudo parece existir numa condição transitória, vulnerável à alteração, que evoca uma dimensão quase pré-linguística. As marcas, as manchas, as madeiras, os papéis que atravessam e as acumulações funcionam quase como sinais de uma tentativa de inscrição primordial que revelam mapas de abrigos possíveis e cicatrizes de algodão, como se a artista procurasse reencontrar uma relação mais directa entre corpo, matéria e mundo, antes da separação entre sujeito e objecto. Vejo, por isso, as obras como partes de um sistema relacional. Os objectos produzidos a partir de elementos da casa da artista, o chão do ateliê — tudo contribui para uma percepção expandida do que a obra pode ser.
O nosso corpo, o corpo de quem vê, torna-se também elemento do processo. Deslocamo-nos, aproximamo-nos, adaptamos o olhar às subtilezas materiais, ao que está escondido e empurrado para dentro de fendas. O próprio título da exposição torna-se particularmente revelador neste contexto. Não é encerramento absoluto, nem abertura total. Habita uma zona de tensão entre revelar e ocultar, entre proteger e expor. Essa condição atravessa toda a exposição e encontra um eco subtil na presença das cascas de noz que a artista dispersa — de forma mais ou menos evidente — ao longo do espaço expositivo e da representação dos ninhos. São pequenas arquitecturas de contenção, corpos que guardam uma memória daquilo que já esteve presente. Tal como acontece com as superfícies trabalhadas pela artista, talvez interesse mais a evidência da transformação do que a obra acabada.
Talvez Tabique seja precisamente isso, uma tentativa de suster. Suster a matéria no momento da sua transformação, suster o vestígio antes do desaparecimento, suster a tensão entre ocultação e revelação. As obras guardam algo que nunca se entrega por completo, habitando esse espaço frágil entre o que foi e o que é.
Há também uma recusa da velocidade visual contemporânea. A relação desacelerada proposta, onde por vezes é preciso olhar de novo para descobrir as diferenças, para ter a certeza de que não é o que acabámos de ver, afirma-se como resistência. Resistência à fixação do sentido, à separação entre o que é quotidiano e artístico, à produtividade acelerada. Não parece haver uma intenção de dominar a matéria, mas sim de a escutar. E é talvez nessa escuta — lenta, corporal, permeável — que a exposição encontra a sua maior força crítica e poética.
A exposição pode ser visitada até dia 20 de Junho de 2026.
BIOGRAFIA
Maria Inês Augusto, 34 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) na área dos Serviços Educativos como estagiária e trabalhou, durante 9 anos, no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada durante várias edições e colaborou, em 2023 com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas. Desenvolve, actualmente, um projecto de Art Advisory e curadoria, colabora com o Teatro do Vestido em assistência de produção e tem vindo a produzir diferentes tipos de texto.
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