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10 out of 10, na Fundação PLMJ: A Prática do Verbo
DATA
01 Out 2026
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AUTOR
Guilherme Sota
Com curadoria de Carolina Piçarra, e em resposta direta ao documentário 10 jovens artistas portugueses, através da lente de Lourenço Mello, a exposição aproxima-nos de dez práticas artísticas em permanente elaboração, tornando implícita, por entre as inúmeras e variadas técnicas, suportes e problemáticas exploradas, a hipótese de que, porventura, a obra não seja, de facto, somente o objeto onde descansa o olhar contemplativo, mas também, e anterior a isso, o fluxo contínuo através do qual o mesmo se torna possível.
É já tradição milenar uma triste indistinção entre a obra de arte e o objeto que lhe dá forma, objeto esse onde, por demasiado tempo, se depositou o sentido primário da criação, e diante do qual, antes de qualquer outro movimento, o olhar do espetador se entregou à contemplação. A contemporaneidade trouxe-nos, contudo, e insiste em cultivar, uma prática reativa perante o tempo e as tradições que tão ingenuamente o procuram conservar. No incessante fervilhar da atualidade, essa correspondência quase dicotómica entre objeto e obra tornou-se menos evidente. Observou-se, progressivamente, um deslocar da atenção para lá da obra cristalizada. A investigação, a experimentação, o tempo, a dúvida e o método tornaram-se também eles elementos dignos de contemplação. A exposição 10 out of 10, patente na Fundação PLMJ, parece emergir precisamente como sintoma dessa deslocação. Com curadoria de Carolina Piçarra, e em resposta direta ao documentário 10 jovens artistas portugueses, através da lente de Lourenço Mello, a exposição aproxima-nos de dez práticas artísticas em permanente elaboração, tornando implícita, por entre as inúmeras e variadas técnicas, suportes e problemáticas exploradas, a hipótese de que, porventura, a obra não seja, de facto, somente o objeto onde descansa o olhar contemplativo, mas também, e anterior a isso, o fluxo contínuo através do qual o mesmo se torna possível.
Pensar a obra a partir do processo não significa, em momento algum, substituir o objeto pela sua génese, como se o primeiro perdesse a sua importância. Significa, sim, reconhecer que a criação dificilmente se deixa fixar num momento único, que cada obra transporta consigo os desvios e reformulações que permanecem inscritos na sua forma final sem jamais se esgotarem nela. Tanto o documentário de Lourenço Mello quanto a exposição tornam explícita tal dimensão, muitas vezes invisível, da prática artística. Não procurando explicar as obras nem indicar um caminho interpretativo, revelam que cada obra individual resulta de um tempo próprio, de uma investigação singular e de uma relação contínua com o contexto que albergou a sua realização. 10 out of 10 reflete esta noção da obra em contínua edificação, uma obra inevitavelmente incabada, uma obra-fluxo, um devir-obra. Uma obra que não só se situa entre estados, mas que é ela própria um movimento que jamais se estabilizará. A obra-fluxo que se depreende jamais existe como objeto concluído, existe, antes, como uma configuração provisória dentro de um longo processo que permanece aberto. Dimensões como o atelier, a conversa, a pesquisa ou o erro deixam então de ser simples antecedentes da criação para integrarem a própria experiência da obra: o que se expõe não é somente um resultado, mas uma forma de pensar, uma duração e uma prática que se estendem para lá daquilo que vemos.
Se cada prática artística constitui um percurso singular, torna-se pois percetível na diversidade que atravessa 10 out of 10 a falta de necessidade de uma unidade formal ou temática. A exposição organiza-se não através de um qualquer eixo conceptual, mas antes como um campo de coexistência, um território comum no qual diferentes linguagens se aproximam sem perder a sua especificidade. O seu sentido não reside na comparação estabelecida entre as obras, mas na possibilidade de reconhecer que cada uma responde, à sua maneira, ao mesmo gesto de criação contínua. Antes de se procurar expor um conjunto de obras, em 10 out of 10 expõe-se o devir-obra comum. Se hoje a obra tende a exceder os limites do objeto, também a exposição deixa de poder ser entendida apenas como um simples conjunto de obras reunidas entre as quatro paredes do espaço expositivo. A proximidade entre práticas distintas não produz, nem procura, necessariamente, conduzir a uma narrativa comum; produz, pelo contrário, um campo de relações onde afinidades, contrastes e tensões permanecem em aberto; cultiva um terreno profundamente fértil, onde a abertura inerente da obra se torna clara no seu constante fervilhar. A pluralidade essencial da obra de arte e a sua multiplicação exponencial surgem como dimensão crucial do objeto artístico. A unidade, se existe, deixa assim de resultar de uma identidade partilhada para surgir temporariamente nas relações efémeras que cada prática estabelece com as restantes, como se a própria exposição funcionasse menos como um discurso fechado e mais como um meio onde diferentes discursos se reformulam e se deixam reformular uns pelos outros.
Porventura uma obra nunca termine verdadeiramente. Cada interceção, cada exposição e cada novo contexto reinscrevem-na num movimento que prolonga a sua existência muito além da forma primeira que a tornou visível. 10 out of 10 evidencia exatamente que a criação não acontece simplesmente no momento em que a obra surge, mas antes que, fruto da sua abertura, continua a desenrolar-se indefinidamente nas relações, nos discursos e nos diferentes contextos que a intercetam. A obra deixa, pois, de ser um ponto de chegada para se afirmar como um verbo — um gesto sem repouso em vista.
A exposição pode ser visitada na Fundação PLMJ, em Lisboa, até dia 30 de outubro de 2026.




BIOGRAFIA
Guilherme Sota é um artista multidisciplinar, produtor musical e co-fundador do coletivo Vertigo. É licenciado em Pintura, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto e atualmente completa um mestrado em Crítica e Curadoria de Arte na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. A sua prática artística atravessa várias áreas, passando por pintura, som, instalação e escrita, através das quais investiga assuntos relacionados com a ontologia, a sexualidade e a iconografia. Desde 2020, a sua obra tem sido exposta em exposições coletivas e a solo, nomeadamente "Do Ser e do Seu Desvelar", na ÁRVORE Cooperativa, Porto (2025), "Microcosmos" (2026), no Espaço Cultural Mercês, Lisboa, "Na Fenda da Forma", no CC Penedo da Saudade, Coimbra (2025), bem como em diversas exposições organizadas pelo seu coletivo. Recebeu o prémio "Jovens Criadores na Árvore" (2025), entre outros, e foi selecionado para a residência artística "CreArt 3.0 AiR", em Kaunas, Lituânia (2025), entre outras. Paralelamente à sua prática artística escreve para a revista Umbigo, é responsável pela curadoria e produção dos eventos Vertigo, tem um programa mensal na rádio brasileira Function! e produz regularmente projetos musicais.
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