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A Lira Quebrada - Ascensão: Vers la Lumière, no Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva
DATA
07 Jan 2026
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AUTOR
Tomás Camillis
“Por querer situar-se entre um poeta clássico e (sobretudo) uma pintora moderna, numa exposição mutante em cinco atos que começa com O Tecido do Mundo e agora finaliza com Ascensão: Vers la Lumiére, julgo encontrar na mostra 331 Amoreiras em Metamorfose um desejo de compreender o panorama artístico atual em relação aos ciclos históricos de nossa cultura, sobretudo os eventos gerais que encontrem ressonância na vida do casal Vieira da Silva e Arpad Szenes, principais artistas do museu que promove a exposição.”
Quando a música de Orfeu ressoou pelo Tártaro, o herói não só convenceu Hades e Perséfone a permitirem-no resgatar Eurídice, sua mulher - Ovídio escreve que também “Tântalo não buscou apanhar a água fugidia, a roda de Ixíon imobilizou-se de pasmo, as aves pararam de debicar o fígado, as Bélides não cuidaram das vasilhas, e até tu, Sísifo, te sentaste sobre o pedregulho”. Se a tortura eterna é reservada aos que tentam sobrepor-se à harmonia do cosmos, apenas a impecável lira de Orfeu é capaz de reaver estas almas perdidas à ordem que costura todas as coisas. Mas qual seria o real teor desta união? Uma fraternidade objetiva, imposta a cada coisa pela própria estrutura do cosmos, ou mais uma aliança silenciosa entre todos os seres e por cada um vivenciada, jamais quantificada ou mesmo compreendida? Quando Orfeu ressoa a sua lira, acessa a melodia externa que a tudo harmoniza, ou toca um impulso de pertencimento latente na fibra íntima de cada coisa? Talvez sejamos como Alfeu e Aretusa, água na água do mundo, de tal maneira misturados que incapazes de testemunhar algo de objetivo - e Orfeu seria único, pois extrairia, de ambas as águas, a substância comum.
Orfeu foi também o messias dos mistérios religiosos que se assentaram na zona rural da Grécia antiga, contrariando a estruturada nitidez da mitologia clássica com um enigmático drama que influenciou a filosofia de Platão, cuja doutrina transcendental foi chave no desenvolvimento do cristianismo. Nosso senso de realidade transita entre a clareza cósmica greco-romana e o mistério incarnado cristão, entre a impecável estrutura do templo grego e o elusivo resplendor dos mosaicos bizantinos, entre a objetividade natural e a experiência subjectiva. Os gregos não acreditavam em transcendência: seus deuses são imanentes aos fenómenos da natureza. Mas o cristão enamora-se deste plano espectral que resvala a carne, mas a ela não pertence, na gloriosa solidão de um deus invisível. Assim como Cristo, Orfeu renasce, mas, ao invés de transcender o além, renasce desde o submundo, sem, portanto, sair da imanência.
Por isso, parece-me inconcebível pensar numa tradição de arte grega abstrata. Para a abstração moderna ter surgido, foi preciso que a modernidade secular abandonasse as doutrinas religiosas, mas que a nossa atitude espiritual ainda conservasse este ímpeto a um além que ultrapasse as formas da natureza (mesmo o clássico Mondrian é abstrato apenas por conseguir contemplar uma ruptura entre psique e mundo, nesta solidão existencial tão estranha aos gregos). Descrentes da Bíblia, mas afeitos à espiritualidade, os românticos isolaram-se da sociedade moderna para na natureza buscar o absoluto antes encontrado na igreja, concretizando em obras semiabstratas a unidade perdida entre humano e universo. Em seu Monge à Beira Mar, Caspar Friedrich David expõe a epifania de um devoto que abandona o monastério para no horizonte encontrar o divino. Mesmo depois, Turner tumultua as formas e oblitera os detalhes, Kandinsky expressa-se em gestos e cores, e mesmo Malevich substituiu o ícone ortodoxo pelo quadrado preto. Pela arte buscavam uma transcendência moderna não ao todo distinta daquela com a qual também Vieira da Silva sonhava, no fim da vida.
Por querer situar-se entre um poeta clássico e (sobretudo) uma pintora moderna, numa exposição mutante em cinco atos que começa com O Tecido do Mundo e agora finaliza com Ascensão: Vers la Lumiére, julgo encontrar na mostra 331 Amoreiras em Metamorfose um desejo de compreender o panorama artístico atual em relação aos ciclos históricos de nossa cultura, sobretudo no eventos gerais que encontrem ressonância na vida do casal Vieira da Silva e Arpad Szenes, principais artistas do museu que promove a exposição. O seu penúltimo ato, Notas Sobre as Melodias das Coisas, explorava não só a oculta harmonia partilhada entre todas as coisas como também a condição do artista que visa articular esquemas de compreensão, mas esbarra na velocidade fragmentária de sua própria experiência. Neste sentido, a turbulenta espiritualidade que Vieira da Silva sentiu após a morte de Arpad - período privilegiado por este ato final da mostra - é também a angústia do sujeito moderno imerso num mundo surdo à melodia de Orfeu (que abre a exposição num trecho de Ovídio) pois divorciado das estruturas de sentido místico ou religioso que costumavam mediar a nossa relação com o universo. Como pode expressar-se este indivíduo que intui a outra margem, mas encontra apenas pontes partidas?
Desde o princípio, sinaliza-se um vetor ascensional - a primeira obra, Atelier, Lisbonne de Sara & André, é a metamorfose de uma pintura de Vieira da Silva numa instalação que liberta os seus vetores do ambiente pictórico para habitarem o espaço vazio. E não seria o superar das circunstâncias justo um dos significados de transcendência? Subindo as escadas, encontramos uma tríade também ascendente de pinturas de Vieira da Silva: primeiro a trajetória de Orfeu em angustiado vértice que foge do submundo, depois os astros enquanto símbolos de uma transcendência ainda interpretável, e ao fim o puro ultrapassar de toda silhueta ou simbologia - o além em si. Tal escada platónica é por toda a mostra explorada. Subimos e descemo-la mediante obras que desenvolvem as suas próprias relações com a forma abstrata e, muitas vezes, com o conteúdo da transcendência. Como certas figurações simbólicas de elementos astrais e signos do zodíaco, que não apenas ocupam a tela numa lógica de vértices e geometrias semelhante ao grafismo abstrato, mas que, em seu simbolismo, também transcendem o particular através do grafismo simples de uma imagem universal. Pode-se mesmo relacioná-los aos Painéis para a Sacristia da Capela do Palácio de Santos, série sacra onde Vieira da Silva desenvolve iconografias litúrgicas em vocabulário abstrato -- em algumas delas, pinta nós de espaço, ou feixes de luz cristalizada em penetrantes agulhas, numa guerra entre o etéreo e o material que se expande como um grito para alvejar o mundo. Este lutar contra o divino para forçar a sua revelação, vivenciando enfim o além, é o desespero do moderno que ainda espia por entre a fenda dimensional, como quando Jacó agarrou Gabriel na noite infinda por tantos artistas pintada, Vieira da Silva inclusive. Interessante relacionar os seus tortuosos raios com as linhas solares de Van Eyck, que geometrizou tal luminosa astralidade numa precisão matemática aqui talvez mais próxima da radiância circular presente nas obras Epsilon Indi Bb, de Rui Toscano, Essência, de Carolina Vieira, ou Manteiga, de Fernando Marques Penteado. Trabalhar a luz é construir teologias - pode entender-se o divino como o gentil repousar do feixe dourado ou como o tormento do fogo, que engole o mundo para levitá-lo em fumaça.
Em Evaporação IV, os gestos circulares de Ilda David lembraram-me Dilúvio, desenho onde Da Vinci estudou tanto a anatomia das intempéries quanto o caimento de cabelos cacheados, numa busca pela estrutura subjacente às aparências também empreendida por Vieira da Silva, cujo vínculo entre meticulosas arquiteturas e rompantes líricos articula a experiência humana no explorar dos padrões que compõe a realidade. Após a morte de Arpad, seus estilhaços e conjunções tornam-se mais etéreos e luminosos, sem, no entanto, alcançar a serena clareza de uma sussurrada epifania - talvez Arpad, que, mesmo quando pintava abstrato, era como uma ode à natureza, incentivasse a artista à concretude, na vida e na arte. Tendo ido, sua ausência tornou-se na angustiada sede de transcendência que marca o trabalho tardio de Vieira da Silva, aproximando-a da crença num além incompreensível - como um Orfeu de lira quebrada. Seus vórtices vincados de grelhas e geometrias explodidas e padrões quebradiços e emergências incompletas são aqui reforçados pelos nomes das salas expositivas: L’interrogation, L’infini turbulent, Le Départ — títulos de obras suas.
Seria o absoluto sempre paradoxal? Hegel sonhava com um espírito humano em constante expansão, uma metamorfose de assimilações que aceitava a monstruosidade temporária para depois atingir o perfeito. Sua dialética situa o nosso devir na história, vendo no romantismo o derradeiro ato da arte, pois sua forma já não conseguiria mais acolher o nosso espírito então apoiado em disciplinas mais elásticas, como a filosofia. Mondrian serviu-se da abstração para conciliar a plasticidade moderna ao estatuto clássico, restituindo à arte este equilíbrio perfeito entre o espírito e a forma artística que Hegel via nos gregos. Mais ovidiana, Vieira da Silva recusa tal equilíbrio órfico, encontrando o cerne de nossa experiência justo numa vertigem prismática que acolhe tudo, sem nada reduzir, refulgindo como um monstro inconciliável, pois melhor que simplificar a exuberância do mundo é estruturar a sua complexidade. Deparar-se com o mundo é também sentir a angústia existencial do humano que, se não encontra o seu cerne, tampouco cessa a sua busca.
Adendo Reflexivo.
Numa passagem destacada no espaço expositivo, Françoise Frontisi-Ducroux escreve que a tecelagem é o principal meio de transmissão do património cultural grego. De facto, o ritmo inaugurado pelo ato de tecer instaura uma rigorosa harmonia adequada à narração dos mitos, versados na tapeçaria que costura todo o cosmos. Pois não basta apenas educar, é preciso fazê-lo na correta cadência — também a estrutura métrica do verso se alinha tanto ao ritmo da lira quanto ao compasso do tear, inserindo a história na pulsão natural e seduzindo o aluno à comunhão cósmica. A arte moderna tem outra concepção de ritmo. A sua poesia permite o abandono da métrica em prol do verso livre. Ao invés de melodias fechadas e claves dominantes, a música atonal de Schoenberg aproxima-se da dissonância. A literatura do último século elenca as experiências subjectivas do personagem sem dedicar-se tanto à coesão da estrutura geral, como aconselhava Aristóteles. Mas versatilidade não é caos — ser categórico na liberdade é o cerne da prática artística moderna. Não existe o verso livre, declarou T.S. Eliot, que tampouco cultuou a métrica, mas questionou a sua rigidez em apurada desenvoltura. A falta de fórmulas não é uma permissão, mas a responsabilidade de aprender a articular o ainda indefinido, fazendo do supérfluo, vital. Neste sentido, há modernidade no magnum opus de Ovídio, o livro que é ele próprio a principal metamorfose, como se o mundo nos desvelasse o seu fluxo de consciência que cria e recria todas as coisas, desde os primórdios até à actualidade, nestes câmbios vertiginosos de personagens, tempos e lugares. Como Apolo perseguiu Dafne, também nós tentamos capturar a silhueta mental desta narrativa que, qual a donzela tornada árvore no instante do toque, teima em escapar-nos. Este vórtice de relatos talvez seja um dos mais duradouros exemplos da fugacidade de nossa experiência.
Ascensão: Vers la Lumière é o quinto e último capítulo da exposição 331 Amoreiras em Metamorfose, curada por Nuno Faria e patente no Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva até 18 de janeiro.
BIOGRAFIA
Tomas Camillis é autor e pesquisador baseado em Lisboa. Escreve narrativas fictícias e ensaios no contacto entre arte, filosofia e literatura. Possui mestrado em Teoria da Arte pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Nos últimos anos participou de pesquisas, lecionou cursos em institutos culturais, auxiliou na organização de simpósios e publicou em revistas especializadas. Atualmente colabora com o Serviço Educativo do MAC/CCB e com a revista Umbigo.
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