A obra de Alberto Carneiro ensinou-nos a pensar a árvore como corpo e a floresta como um processo de passagem onde o sujeito se inscreve através da comunhão, um lugar onde a paisagem deixa de ser distante e passa a ser uma experiência sensível e situada, construída a partir do contacto direto com a matéria natural. Na serigrafia Harmonia na Floresta (2011), essa relação manifesta-se através de uma duplicação do ponto de vista: numa imagem, a floresta apresenta-se segundo uma orientação reconhecível, organizada pela verticalidade dos troncos; noutra, a mesma imagem surge invertida, como se o olhar tivesse sido deslocado para dentro da própria estrutura vegetal e absorvido pela mesma. Esta inversão não é apenas formal. Ela introduz uma instabilidade no lugar do observador, sugerindo que ver a floresta implica aceitar ser também visto por ela e que nenhuma das partes se oferece como uma totalidade estável.
É a partir deste legado que Nuno Henrique constrói a sua proposta. Mas em vez de prolongar a identificação poética com o ciclo vital da natureza, entra por uma porta lateral, ainda vizinha: trabalha a interrupção desse ciclo. Se em Carneiro a floresta é vivida como presença e continuidade, aqui surge como um arquivo fragmentário de um mundo ferido, onde a natureza já não pode ser habitada de forma imediata, apenas tocada e reinscrita. A Morte Escreve a Floresta expõe aquilo que a morte torna visível, superfícies friccionadas, texturas arrancadas ao tronco, conchas mínimas que sobrevivem como fósseis de um ecossistema precário. O gesto de Nuno Henrique torna-se claro: não há uma pretensão de restaurar uma harmonia perdida, há, sim, uma tentativa de reinscrevê-la criticamente, mostrando o que resta quando a continuidade é quebrada.
A instalação central da exposição, composta por 85 frottages realizados a partir de troncos de árvores, grafite e pastel a óleo sobre papel, organiza-se como um campo visual sem hierarquias. Cada elemento funciona como unidade autónoma e, simultaneamente, como parte de um sistema mais amplo de relações. Não se verifica uma tentativa de representar a árvore, mas de registar a sua superfície, aquilo que permanece quando a árvore já não está presente. O traço que vemos não é expressivo nem ilustrativo, é a prova de um contacto físico entre corpo e matéria. Ao afastar-se da lógica expressiva e ao aproximar-se de um regime quase indiciário, Nuno Henrique coloca-nos perante uma floresta que subsiste como um arquivo de marcas. A floresta desenha-se por acumulação de vestígios, num tempo lento e não linear, onde coexistem diferentes camadas de uma ecologia fragilizada. Os búzios que afixam os frottages, integrados no conjunto expositivo, materializam esta lógica: a inscrição de uma temporalidade que resiste.
A escultura Nuvem, double-rainbow, ilha, apresentada em duas peças, aprofunda estas questões. Construída em contraplacado, parafusos, cavilhas, cera, pigmentos e calhaus da praia, a obra combina processos industriais com elementos naturais recolhidos. A sua forma remete para a concha do caracol Wollastonia turricula, espécie endémica do arquipélago do Porto Santo. A concha é traduzida em secções repetidas, cortadas e empilhadas, expondo a lógica interna da sua construção. Os arcos cromáticos que atravessam as esculturas deixam de operar como fenómeno ótico e tornam-se estrutura sólida, elemento construtivo que fixa na matéria aquilo que, por definição, é efémero. Colocadas diretamente no chão e afastadas das paredes, as duas esculturas ocupam o centro do espaço expositivo sem se impor como objeto monumental, estabelecendo antes uma relação de proximidade física. O pequeno calhau colocado nas proximidades funciona como contraponto: fragmento natural não transformado que sublinha, por contraste, o grau de intervenção exercido sobre os restantes materiais.
À luz de Heidegger, este conjunto de trabalhos pode ser lido como uma reflexão sobre a finitude. A árvore friccionada, as matérias desgastadas tornam visível a condição de um ser atravessado pela sua própria possibilidade de fim. Mas a exposição não se fixa na constatação da perda. Pelo contrário, é precisamente sob o horizonte da morte que o gesto criador se afirma. Aqui ressoa Arendt: criar é uma condição constitutiva do humano, a forma através da qual instauramos alguma durabilidade num mundo transitório. É neste gesto que Nuno Henrique reinscreve uma ética da arte ecológica herdada de Alberto Caeiro: toma a árvore e transforma-a numa obra que persiste na erosão do tempo.
A Morte Escreve a Floresta, de Nuno Henrique, está patente no Centro de Arte de Alberto Carneiro, em Santo Tirso, até 25 de janeiro.