article
Breves anotações sobre a Art Brussels 2026
DATA
11 Mai 2026
PARTILHAR
AUTOR
Maria Inês Mendes
A caminho de Bruxelas para mais uma edição da Art Brussels, pensava sobre como gostaria sempre de poder visitar as cidades por mais de uma vez. Porque essa repetição permitiria situar-me entre um total desconhecimento e uma familiaridade ainda incompleta. E, sobretudo, porque é nesse intervalo que se torna possível estabelecer comparações, observar diferenças entre o que me lembrava e o que, entretanto, mudou.
Cheguei a Bruxelas, dia 22 de abril, e - em comparação com o ano anterior - o céu estava azul. A feira, agora na sua 42.ª edição, mantinha a localização no Brussels Expo Hall, no topo do Heysel Parque, bem como os seus eixos condutores. Em conferência de imprensa, Nele Verhaeren – diretora da Art Brussels – esclareceu o principal objetivo desta edição: dar continuidade ao trabalho desenvolvido nas edições anteriores, consolidando a feira enquanto agente mediador e espaço de encontro e reforçando, simultaneamente, a relação de proximidade com a cidade e as suas principais instituições culturais. Essa intenção tornava-se particularmente visível fora da própria feira: na Gallery Night, através do programa de inaugurações espalhado pelas galerias da cidade, mas também no Discovery Acquisition Prize, que este ano retomou a forma de um fundo de aquisição destinado a integrar uma obra de um artista emergente numa coleção pública. A peça selecionada integrará a coleção do Museum of Ixelles e será apresentada na exposição inaugural do museu, prevista para 2027, depois de mais de oito anos de renovação.
Para lá das diferenças entre edições, a Art Brussels parece afirmar-se através de uma certa continuidade. Em 2026, participaram na feira 139 galerias, provenientes de 26 países e distribuídas por cinco secções: Prime, Solo, ’68 Forward, Discovery e a nova Horizons. Aos habituais nomes consagrados, somaram-se artistas e galerias emergentes, bem como uma série de projetos com uma forte componente curatorial. 
Integrado na secção Prime, destaca-se o stand da Rodolphe Janssen, que nos mostra um conjunto de pinturas de Patrizio di Massimo. Em In Between Us, vemos um casal inscrito em interiores de aparência palaciana, em diálogo com referências a Umberto Boccioni, Giorgio Morandi e Giacomo Balla. As composições organizam-se segundo uma simetria e uma ordem contidas, quase asséptica, mas a presença de alguns pombos em voo e a artificialidade dos enquadramentos parecem perturbar essa estabilidade. Noutra direção, a galeria Pedrami Gallery, dedicada à produção artística do Médio Oriente, apresenta uma série fotográfica de Klaartje Lambrechts, onde corpos cobertos por tecidos se moldam ao movimento da dança. São imagens que evocam a proibição da dança no Irão desde a Revolução Islâmica de 1979, e que, de outro modo, reabrem esse mesmo intervalo entre a contenção e a liberdade.
Na secção Discovery, destaca-se o diálogo entre Francisca Valador e Thomas Braida, apresentado pelas galerias Matèria e MONITOR. As obras surgem intercaladas, construindo pequenos cenários de escala quase doméstica, povoados por figuras e animais que parecem habitar os interstícios do espaço. Por sua vez, as pinturas de Michiel Deneckere, apresentadas pela EDJI Gallery, partem de uma experiência de deslocação para Bruxelas e retomam a ideia de habitar (de habitar por via da arte), transformando episódios quotidianos em composições de uma estranheza silenciosa. Em tons escuros, e com as figuras rodeadas por uma aura, o conjunto constrói-se como uma coleção de “selos”: pequenas unidades visuais e motivos que atravessam o imaginário da cidade - uma porta ornamentada num estilo gótico, uma figura eclesiástica com uma espada e um cavalo que (embora não seja branco) nos remete, de forma indireta, para o imaginário Twin Peaks, de David Lynch.
Há ainda uma familiaridade inesperada no reencontro com galerias portuguesas, como a Galeria Francisco Fino, a Galeria Vera Cortês, a Galeria Filomena Soares e as Salgadeiras, que representam cerca de 5% das galerias participantes na feira. Entre propostas distintas, reaparecem objetos e imagens que pendem para uma certa fantasmagoria: uma mochila em bronze atravessada por um girassol, de João Motta Guedes, que sugere o peso de carregar a felicidade; a carcaça de um caprino numa câmara frigorífica, de José Pedro Cortes; a fotografia de Daniela Ângelo, que - como um Ouroboros - se fecha sobre si mesma; e ainda os exercícios poético-experimentais de Daniel Blaufuks, em que a fotografia instantânea, a colagem, e o texto funcionam como ferramentas para uma observação persistente do mundo. 
No conjunto, parece emergir uma tendência marcada por estes mesmos eixos: uma atenção ao gesto suspenso, a presença da memória, os interiores domésticos, as figuras que se situam entre intimidade e estranheza, e uma recorrente afirmação da cor como elemento estruturante - talvez como contraponto a uma certa austeridade que marca a atualidade. Ainda assim, essa inclinação parece assumir, por vezes, um tom decorativo, visível sobretudo na predominância da pintura sobre práticas instalativas ou digitais. São estas linhas que atravessam a Art Brussels 2026 e que, de alguma forma, nos ajudam a desenhar uma continuidade sensível e temática entre diferentes secções.
Por outro lado, e se as linhas condutoras da feira permanecem reconhecíveis, são também muitas as diferenças que se fazem notar. Em primeiro lugar, destaca-se um reagrupamento da feira, agora concentrada num único pavilhão, numa estratégia de maior coesão espacial - como sublinhou Nele Verhaeren. A par disso, introduz-se uma nova secção, Horizons, que passa a ocupar o Hall 6 do Brussels Expo, dando continuidade a um programa dedicado à apresentação de obras de grande escala. 
Com curadoria de Devrim Bayar, curador no KANAL - Centre Pompidou, a secção reúne um conjunto de trabalhos que não poderiam ser apresentados nos habituais formatos dos stands, reunindo artistas como Aglaia Konrad, Elen Braga, Ymen Berhouma, Jacqueline de Jong, Pao Hui Kao, Oswald Oberhuber e Zuzanna Czebatul. A seleção destaca-se pela diversidade formal dos trabalhos, cujas temáticas oscilam entre a ironia e o humor, particularmente evidentes na tapeçaria monumental de Elen Braga, originalmente instalada sob o Arco do Triunfo no Parc du Cinquantenaire, em Bruxelas, para substituir temporariamente a bandeira belga no Dia Internacional da Mulher, e uma atenção muito precisa ao elemento arquitetónico, à ideia de construção e à sua possível desestabilização. São disto exemplos os trabalhos de Zuzanna Czebatul, que apresenta um conjunto de colunas insufláveis que evocam fragmentos de ruínas em estado de colapso, e de Pao Hui Kao, que constrói um espaço de natureza meditativa, onde o papel vegetal dobrado, a cola de arroz e a laca Urushi desafiam os limites da construção. 
Destaque ainda para a inauguração do projeto Not Everything is for Sale, com curadoria de Bernard Marcelis e Anne Vierstraete, que convidaram 15 galeristas sediados na Bélgica com mais de 25 anos de carreira a escolher uma obra que nunca venderiam, justificando essa escolha. Neste contexto, Xavier Hufkens mostra-nos uma peça de Walter Swenenne, recebida como presente de aniversário dos seus 18 anos e cujo significado excede o seu valor artístico. A imagem é simples: um elefante com uma casa sobre as costas, que, como grande parte da obra do artista, resiste a uma leitura fixa. “The house perhaps representing the gallery, carried on the elephant’s back”, explica o galerista, recordando ainda: “I first encountered Walter’s work at eighteen… in retrospect, it foreshadowed my professional life as a gallerist.” Trinta anos se passaram entre o momento em que recebeu esta peça e a data da primeira exposição do artista na galeria, em 2014. Já Greta Meert apresenta The Guitarist (1987), de Jeff Wall, sublinhando não apenas a acuidade intelectual do artista e o seu imaginário visual, mas também a forma como o seu trabalho se infiltra progressivamente na vida quotidiana. Marcada por uma encenação cinematográfica de múltiplas camadas, a obra acompanhou o crescimento do seu filho enquanto adolescente e permaneceu exposta no seu espaço doméstico. 
As escolhas dos vários galeristas são particulares e, de formas diversas, espelham diferentes modos de relação com a arte. O que se vê é, portanto, um vislumbre de histórias pessoais - as pequenas curiosidades, os encontros fortuitos e os acidentes biográficos - que aproximam o galerista de uma obra, de um artista, mas também das várias décadas de história da arte e da evolução do mercado de arte contemporânea. O que se vê é, sobretudo, uma alternativa: uma perspectiva outra sobre uma profissão que, mesmo em contexto de feira e face à crescente profissionalização do ecossistema artístico, parece manter como base uma dimensão humana.
A Art Brussels decorreu de 23 a 26 de abril de 2026, tendo já anunciado as datas da próxima edição, marcada para 15 a 18 de abril de 2027.

A Umbigo viajou até Bruxelas a convite da Art Brussels.
BIOGRAFIA
Maria Inês Mendes frequenta o mestrado em Crítica e Curadoria de Arte na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Em 2024, concluiu a licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade NOVA de Lisboa. Escreveu sobre cinema no CINEblog, uma página promovida pelo Instituto de Filosofia da NOVA. Atualmente, é responsável pela gestão da UMBIGO online, onde publica regularmente, e colabora com o BEAST - International Film Festival.
PUBLICIDADE
Anterior
interview
Ler Imagens: Entrevista com Willem de Rooij
08 Mai 2026
Ler Imagens: Entrevista com Willem de Rooij
Por Tomás Camillis