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Caminhar, Portanto Perceber: Sobre So Many Names, de Luísa Jacinto
DATA
16 Jul 2026
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AUTOR
Orsola Vannocci Bonsi
“No percurso labiríntico de Luísa Jacinto, não há saída nem destino final a alcançar; em vez disso, o que se descobre é a própria presença de cada um no espaço, medida pelo próprio corpo. Ao percorrer a exposição, ficamos cada vez mais conscientes do ambiente que partilhamos com as obras, entendendo o espaço não como um recipiente neutro, mas como algo que se vai produzindo continuamente através dos encontros interativos entre o corpo, o movimento e as obras de arte.”
No livro Lines: A Brief History (2007), o antropólogo Tim Ingold afirma que viver um ambiente não significa apenas ocupar um determinado espaço, mas estabelecer uma relação com ele por via do movimento. Caminhar ao longo de um trilho - a que se chama wayfaring (errância) - não é só uma forma de chegar a um destino, mas um percurso, uma viagem, que se desenrola no tempo e define a própria experiência: neste processo, quem caminha mantém-se em relação constante com o que o rodeia, e o que o rodeia é compreendido através do corpo, da atenção e da experiência vivida. Segundo Ingold, caminhar é uma das principais formas através das quais as pessoas se conhecem a si próprias, transformam a sua compreensão do mundo e lhe atribuem um significado. O autor refere também que o movimento no mundo raramente segue trajetórias perfeitas, mas é irregular, sinuoso e improvisado.
Uma ideia semelhante surge na exposição de Luísa Jacinto na Fundação Carmona e Costa, com curadoria de Miguel Mesquita. Aqui, o visitante depara-se com uma série de obras que, em conjunto, constroem um percurso. Tal como sugere a apresentação curatorial que acompanha a exposição, estas obras exigem que nos movamos à sua volta, através delas, no seu interior e até mesmo para além delas. Uma obra em particular, que dá nome à exposição, So Many Names (Tantos Nomes, 2025), que se estende pelas salas, convida-nos, visitantes, a caminhar por ela, seguindo-a e tornando-a um guia ou companheiro ao longo de toda a exposição. Em vez de funcionar como um objeto fixo, acompanha o visitante, remodelando constantemente a perceção não só do espaço circundante, mas, por extensão, da própria presença de cada um dentro dele.
Essa consciência e perceção mais apuradas são estimuladas pela própria materialidade das obras. As superfícies translúcidas ou transparentes permitem que os visitantes vejam através delas, percebendo a arquitetura do edifício, bem como as restantes peças expostas, confrontando assim continuamente quem vê com a escala humana do espaço. Por exemplo, o quadro So Many Names (Tantos Nomes), mencionado anteriormente, pintado sobre tecido transparente, pode ser abordado de diferentes ângulos: pode passar-se por baixo dele ou atravessá-lo em pontos específicos, enquanto se entrelaça visualmente com outras obras igualmente translúcidas ao longo do seu percurso. Noutra galeria, as colunas brilhantes de resina, Break (Parte, 2026), brincam de forma semelhante com a transparência, convidando os espectadores a contorná-las e a olhar através delas, transformando o movimento num modo ativo de perceção.
No percurso labiríntico de Luísa Jacinto, não há saída nem destino final a alcançar; em vez disso, o que se descobre é a própria presença de cada um no espaço, medida pelo próprio corpo. Ao percorrer a exposição, ficamos cada vez mais conscientes do ambiente que partilhamos com as obras, entendendo o espaço não como um recipiente neutro, mas como algo que se vai produzindo continuamente através dos encontros interativos entre o corpo, o movimento e as obras de arte.
A exposição pode ser visitada na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, até dia 25 de julho.
BIOGRAFIA
Orsola Vannocci Bonsi é uma produtora e consultora cultural que vive em Lisboa há oito anos. No seu trabalho, promove ligações através da sua pesquisa e dos projetos que ajuda a concretizar. Com experiência como diretora comercial e galerista em várias galerias de arte portuguesas, foi também gestora de projetos e diretora artística da FEA Lisboa, fundou o coletivo curatorial Da Luz Collective e contribuiu para a programação de festivais em Itália e Portugal.
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