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Passenger Side: Deriva, deslocação
DATA
19 Jun 2026
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AUTOR
Ana Isabel Soares
A exposição Passenger Side, patente na Associação 289, em Faro, com curadoria de Tiago Candeias, reúne obras de Inês Brites, José Taborda, Renato Chorão, Regina Silva e Valéria Martins. É a ideia da deslocação que estrutura a mostra, não só enquanto deriva em viagem, ou deslocação física (desde logo, dentro das duas salas da 289, a frescura do chão de tijoleira a acolher os passos de quem visita), mas também como itinerário interior, percorrido em contemplação, e para o qual o comando do caminho é feito pelas peças criadas e pelas propostas criativas dos artistas. Mais do que um espaço que se constitui a si mesmo, o lugar do passageiro é entendido enquanto olhar parcial sobre o mundo – é um lado, cujo contraponto será o de quem conduz o percurso.
O passageiro participa na viagem, mas parece não definir o destino. A sua condição de viajante depende da presença do outro, dos outros – das peças, dos artistas. Mas quem é o passageiro? O curador, Tiago Candeias, assume-se como explorador, antes de mais, conceptual da exposição: na folha de sala, com Michel Onfray por bagagem inicial, explora o que entende por “viagem”. É um passageiro que se informa antes de embarcar, não tanto sobre os lugares que pretende visitar, mas mais sobre uma predisposição em que pretende colocar-se para encetar a jornada. É uma metáfora poderosa para se pensar o que são hoje os caminhos da arte: subjetividades marcadas pela instabilidade e pela fragmentação do que se encontra, mas pretendendo, de algum modo, dominar as ferramentas dos percursos, que, de antemão, se sabem incontroláveis. Onfray sugere precisamente isso: que a viagem começa antes do estar-em-movimento: inicia-se na suspensão, na curiosidade e na antecipação, num abandono voluntário das referências familiares – Tiago Candeias propõe que a “família é o primeiro mapa”, e é pela obra de Valéria Martins, à esquerda de quem entra na segunda sala, que começa a desenhar um trilho. No vídeo Agora a Sério | Now for real, a câmara fotográfica disparou, como se fosse a arma que o pai ensina a manejar, e fixou momentos de uma viagem familiar que se retoma enquanto imagem em movimento. Sentada ao lado da caçadeira, no lado do passageiro, a artista enfrenta este renovado instrumento de captação da vida e retoma a viagem, como observadora. É a cartografia íntima que recupera – é esse mapa que a dirige? As imagens da infância e do ambiente doméstico propõem uma arqueologia da origem, cuja escavação devolve a família como lugar de potenciais afeções e traumas. O percurso da vida começa em espaços que não se escolhem, mas que se continua a habitar mesmo depois de desaparecidos.
A curadoria evita a ideia literal de viagem e aponta para direções divergentes, por vezes invertidas: na peça Retrovisor, de José Taborda, talvez aquela em que a visitante mais se sente convidada a embarcar, encontra o desafio de um olhar que se multiplica e desfaz, sem necessitar de estrada nem do automóvel de que o espelho (dispositivo que enquadra jogos de memória e perceção) é metonímia. O retrovisor obriga a olhar para trás de forma nunca frontal e a deslocamentos que transformam a paisagem em atmosferas, fragmentos, gestos interrompidos – ou obsoletos. Mesmo incompleto, ou apenas simbolizado, o automóvel reafirma-se em Banco de carro, também de Taborda – apenas para rejeitar o conforto, para evitar o convite: o banco está fechado, o passageiro dá por si perplexo: como fazer a viagem?
Cada intervenção ou peça na exposição – ou cada criador – é ponto de passagem num itinerário livre: e cada visita é uma sequência de aproximações, interrupções, ressonâncias suspendidas e retomadas.
Talvez sejam ressonâncias familiares aquelas que a artista madeirense Regina Silva inscreve com autocolantes no acrílico de uma placa com puxadores (a porta do Volkswagen Polo 1997?), linhas que figuram desenhos animados, memórias a preto e branco de uma infância cuja viagem se quer reiniciar, ou perpetuar através do traço e das transparências? São três as peças de Regina Silva na exposição: além desta espécie de porta que se interpõe ao olhar, perpendicular à parede e ao chão (posição que a artista recupera de peças anteriores), suspensa num espaço que não encerrou nem fez abrir, os atacadores dos sapatos de Misstep, passo em falso que os imobiliza diante do canto da primeira sala, sustentam-se magicamente no ar, de novo a marca de movimento captado na impossibilidade que confina às duas molduras a tinta de água e o vinil autocolante de Punch yourself in the face (a obra mais recente das expostas). A violência caricatural do título remete a visitante para si mesma, para uma autossabotagem, frustração tão comum às viagens que se quer empreender a partir de contextos fechados, interiorizados.
As duas peças de Inês Brites sugerem uma deslocação silenciosa e breve, no interior da própria exposição: be extra careful with heartfires (hold) e Falta de comunicação | Miscommunication (ambas de 2023) dialogam entre si e entre si deixam espaço explorável, de um alguidar preenchido com panos no centro da sala até outros panos encostados às duas paredes de canto, a visitante pergunta-se como se foi de uns a outros, que materialidades e cores fluem a partir da cera, do algodão e do pigmento para aqueles objetos de existência intermitente. A tensão das perguntas encontra, porém, o obstáculo da “falta de comunicação”, quando a aproximação do passageiro, levado pelo guia da curiosidade, desvela um telefone (outro objeto inoperante, obsoleto) dentro do alguidar. A comunicação implica movimento, mas o movimento não garante o sucesso da comunicação e as duas peças insistem em aproximar-se e distanciar-se neste diálogo sempre tentativo.
As três peças de Renato Chorão insistem na possibilidade de um diálogo que continua a exigir o trânsito entre lugares diferentes. Numa mesma parede, ou de uma parede a outra, há elementos visuais que se destacam e isolam: Um lenço molhado no lençol da cama do meu quarto (2024) é um branco coração que viaja desde a peça i love you um ano depois (2022), imagem impressa a jato de tinta de uma parede inscrita com declarações de amor interrompidas pelos vazios de múltiplos corações brancos (o coração de 2024 poderia ter sido destacado, noutra matéria, da imagem de 2022). O curador descreve a peça mais recente como um “lenço amarrotado que tanto pode ser servido para secar as lágrimas como para qualquer outro ato de intimidade partilhada na cama como espaço pessoal e íntimo”, sugerindo uma ambiguidade em que o formato não afirma qualquer sentimentalismo, mas afirma “o lugar onde estas experiências habitam” – é de espaço que falam estas peças, do lugar que ocupam, da viagem que exigem a quem visita, seja no olhar do momento, seja nas memórias suscitadas que reveem territórios de relações e intimidades. O grafiti urbano de i love you… pode, afinal, conter o arquivo emocional de muita gente, pois a insistência da inscrição que declara aquele amor numa parede degradada revela a cidade como superfície de inscrição afetiva, espaço onde a efemeridade desespera por se registar como permanência. Mas é precisamente essa dificuldade, ou essa impossibilidade de permanecer que IOS16 sugere: superfície espelhada em forma de pequena estrela, a peça reproduz a imagem frontal de um telemóvel – a dialogar com a “falha comunicacional” do telefone aparentemente oculto na peça de Inês Brites.
Se, no final do século XVII, o escritor Xavier de Maistre sugeria viajar em volta do seu quarto e, algumas décadas depois, Almeida Garrett se recusava a essa imobilidade e, num gesto irónico, escrevia em livro as viagens pela sua terra, Ana Cláudia Santos começa assim o primeiro conto do seu livro A Morsa (2026): “Tenho passado grande parte do meu tempo livre reclinada no sofá, com o portátil sobre o ventre, a viajar no Google Street View. Há quem o faça para visitar este nosso pequeno mundo, cartografado inteiro na rede”. O dispositivo móvel oferece a possibilidade de viajar sem se sair do lugar – mas que trajeto se oferece naquele telemóvel pendurado, em atualização e longe do alcance da mão que poderia percorrer, tatilmente, a sua superfície interativa? É de possíveis e impossíveis que se fazem todas as viagens, e um passageiro não é mais do que alguém que é levado e tem de se adaptar ao que o veículo, o condutor ou a estrada lhe impõe. Nesta curadoria, Tiago Candeias entrega o seu destino de passageiro a cinco artistas; mas os meios de transporte ou de comunicação que estes impõem ao seu passageiro conduzem antes a becos de interrogação, perguntas suspendidas cujas respostas só se poderão formular enquanto derivas partilhadas na mesma medida por condutores e conduzidos.
A exposição está patente até 27 de junho na Associação 289, em Faro.
BIOGRAFIA
Ana Isabel Soares (n. 1970) é doutorada em Teoria da Literatura (FLULisboa, 2003) e ensina desde 1996 na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (UAlgarve). Integrou a equipa de fundadores da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento. Interessa-se por literatura, por artes plásticas e por cinema. Escreve, traduz e publica em revistas portuguesas e internacionais. É membro do Centro de Investigação em Artes e Comunicação.
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