O folheto da exposição contém um breve texto de três parágrafos escrito pelo próprio Pedro Barassi. O texto surge como um espaço através do qual é possível entrar na atmosfera da exposição e nos percursos do pensamento do artista. O meu texto partirá das suas palavras, estruturado em torno dos três parágrafos que compõem o folheto.
Parágrafo 1:
“Me encara sobre o tronco da amendoeira, imóvel, demorei a percebê-la e tenho a certeza de ter sido avistado bem antes. Estamos a uns cinco metros de distância e posso observar o movimento das plumas ao serem atravessadas pela brisa ascendente que percorre as falésias. A improbabilidade de tal aproximação cria uma atmosfera de dúvida e desconfiança. Fico incrédulo e me pergunto se está viva, se é real. Não movo um músculo além das pálpebras, o vento pára e com ele o silêncio congela o tempo por uma fração de segundo, até o momento em que ela levanta vôo e desaparece na escuridão.”
É aqui que surgem as primeiras sementes de dúvida sobre o que distingue o olhar vivo do olhar morto. Na noção de Olho de Vidro há uma deliberada sensação de apatia; um olhar esvaziado de vida, mas ainda assim presente.
A curadora da exposição, Sofia Marçal, refere uma lógica pós-moderna que procura reconstruir uma espécie de ficção científica em que a ligação intrínseca entre o naturalismo e o idealismo é integrada numa tecnologia do futuro. Enquanto Pedro Barassi observa corpos animais com uma fluidez natural nos seus cadernos de esboços e, ao mesmo tempo, os disseca em fragmentos para os remontar numa estrutura técnica e dispersa, a frase de Johann Wolfgang von Goethe «A natureza é um segredo aberto» (Die Natur ist ein offenbares Geheimnis) torna-se central. O que se expõe diante dos nossos olhos, em toda a sua clareza biológica e processual, só pode ser compreendido através da intuição como uma verdade mais profunda: a ficção científica não é mais do que uma extensão intuitiva do presente. Talvez seja por isso que as histórias que Júlio Verne imaginou para o ano 2000 - e que outrora se esperava que se tornassem realidade - parecem ainda pertencer a um futuro muito além do nosso presente, a um tempo que ainda não chegou.
Esta temporalidade alterada parece pertencer a uma forma de vida autónoma.
Parágrafo 2:
“Sobre a mesa no centro da sala nos encontramos novamente, em um novo tempo. Desta vez sua postura de ataque revela dispositivos afiados para um golpe inevitável e mesmo antes de me perguntar se está viva e se é real, posso sentir aquela mesma brisa das falésias levantar os pêlos da minha nuca. Me posiciono frontalmente e mimetizo um coelho sob sua mira, caso fosse, provavelmente não teria tempo de gravar esta cena, nos encaramos mais uma vez. Natural e artificial ao mesmo tempo, suas garras estendidas no ar, agora fazem parte de um plano no mundo dos humanos. Não é mais bicho, é uma imagem sagrada, cristalizada no tempo.”
Aqui, uma luz penetra e dissipa a nitidez da existência. Aquele que se coloca perante o olhar de um coelho já não é obrigado a agir, já não é obrigado a ser ativo. A passividade começa a surgir como um alívio, como uma recusa, como a desativação de um sistema de possibilidades que já não nos pertence. O que resta é simplesmente o que é: mesmo antes de se poder formular a questão de estar vivo ou de ser real.
Enquanto percorria a exposição, o poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, começou a ecoar na minha mente. Só mais tarde compreendi esta associação de duas formas.
A primeira diz respeito a Lucrécio e ao seu conceito de clinamen, apresentado em De Rerum Natura, o imprevisível «desvio» dos átomos que permite a formação de mundos. Isto é evidente nos esboços do caderno do artista e nas suas pinturas. É como um corvo a pousar silenciosamente numa janela durante a noite, uma imagem da morte que chega sem aviso prévio. Na obra de Barassi, a vida e a morte tornam-se ângulos de desvio; Barassi mede esses ângulos.
A segunda razão remete-me a uma memória dos meus estudos de biologia. Durante uma visita a um museu de taxidermia no último andar do edifício da universidade, foi-nos dito que a biologia é «tudo o que está relacionado com a vida».
No entanto, entre os animais preservados, comecei a compreender que a morte não se opõe simplesmente à vida; ela rodeia-a, funde-se nela e funciona como um campo abrangente.
Os olhos destes animais haviam-se tornado olhos de vidro: secos, fixos, desprovidos de humidade e, ainda assim, pareciam continuar a olhar para nós.
Parágrafo 3:
“Trata-se da preparação para uma nova etapa. Presas e predadores aguardam silenciosamente nos corredores à meia luz, cuidadosamente catalogados e armazenados em estruturas de proteção. A cápsula deve viajar pelo espaço cósmico como uma mensagem em uma garrafa solta no oceano. Esta é uma medida preventiva para o caso de um agravamento no processo de extinção em massa, que pode incluir a espécie humana.”
Aqui, a atmosfera da exposição é explicitamente articulada: predadores e presas suspensos em corredores arquivísticos, preservados dentro de sistemas de classificação e contenção.
À medida que avançamos por entre frascos de formaldeído, o que persiste é o olhar do animal taxidermizado que sentimos nas nossas costas. Neste momento, a subjetividade divide-se: entre predador e presa, observador e observado.
E tal como o narrador de Poe, que repete uma pergunta já respondida pelo Corvo na sua janela, ouvimos o mesmo refrão a ecoar por estes corredores: Nada mais.
Olho de Vidro está em exibição até 10 de agosto no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa.