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Caminhos da água: 'Geografias da Água', entre São Miguel, Loulé e Vila Nova de Cerveira
DATA
12 Mar 2026
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AUTOR
Ana Isabel Soares
“A exposição Geografias da Água integra o projeto Desaguar, “iniciativa de criação, mediação e circulação artísticas”, coordenada pela Fundação Bienal de Arte de Cerveira e desenvolvida em parceria com o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas e com as Galerias Municipais de Loulé, com apoio da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea. Estruturado na articulação territorial entre Vila Nova de Cerveira, Ribeira Brava, na ilha açoriana de São Miguel, e Loulé, no extremo sul do continente português, o projeto assenta na proposta de criar e refletir artisticamente a partir de geografias marcadas pela água – pela sua presença, pelas suas ausências, pelas revelações e ocultações que permite, nos modos como condiciona e liberta as vivências, como define e liberta fronteiras.”
... o curso [da poesia] não tem um fim preciso, tal como a história não o tem, apesar de repetidas visões milenaristas. Mas, como esta, ela tem de arrancar propostas que sejam centrais por se aproximarem da possibilidade de promover um confronto com o real que existe. E quem diz poesia, diz de uma vez por todas as outras artes.
Joaquim Manuel Magalhães, “Uma Geração Dessatisfeita”, Os Dois Crepúsculos, 1981 (ed. Bestiário, 2022, p. 279)

Quando alarga a todas as artes uma espécie de compromisso de “promover um confronto com o real que existe”, Joaquim Manuel Magalhães sugere um dos tópicos suscitados pela exposição Geografias da Água, patente até 14 de março na Galeria Municipal do Convento do Espírito Santo, em Loulé: o de recusar fins rígidos e leituras unívocas numa relação perpétua e profícua com a realidade não-artística. Os caminhos aquáticos são percursos fluidos, através dos quais a água viaja: assim se pode ler a arte como matéria fluente, ao mesmo tempo existência simbólica, cultural, e até ecológica.
A exposição Geografias da Água integra o projeto Desaguar, “iniciativa de criação, mediação e circulação artísticas”, coordenada pela Fundação Bienal de Arte de Cerveira e desenvolvida em parceria com o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas e com as Galerias Municipais de Loulé, com apoio da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea. Estruturado na articulação territorial entre Vila Nova de Cerveira, Ribeira Brava, na ilha açoriana de São Miguel, e Loulé, no extremo sul do continente português, o projeto assenta na proposta de criar e refletir artisticamente a partir de geografias marcadas pela água – pela sua presença, pelas suas ausências, pelas revelações e ocultações que permite, nos modos como condiciona e liberta as vivências, como define e liberta fronteiras. Mais do que um tema, a água constitui aqui um método. É elemento estruturante de ecossistemas e de economias locais, imagem simbólica, veículo de memórias e rituais: sugere deslocação e transformação – conceitos que estão na base do projeto Desaguar, ao propor a seis artistas (dois por cada um dos vértices do triângulo territorial) residências artísticas de deslocamento em relação aos seus contextos habituais. Que sulcos faz a água quando o seu curso é desviado? O processo artístico procura responder a essa pergunta tomando a arte como elemento fluido, de atenção e criação situadas entre novas margens. As obras resultantes tornam-se depósitos sensíveis de experiências, histórias e tensões de territórios por conhecer e em processo de conhecimento. Esta é a segunda etapa do projeto, após a apresentação nos Açores em 2025. A itinerância sublinha a ideia de circulação que subjaz ao programa e à estrutura: assim como a água percorre os territórios, formando-os e conferindo-lhes identidades, as obras e os processos criativos transitam entre contextos, adquirem, em cada lugar, novas leituras, jogam com os espaços para novos efeitos de fluidez.
A direção artística do projeto é de Mafalda Santos; em Loulé, a curadoria coube a João Serrão (por parte do Município de Loulé) e a Mirian Tavares (da Universidade do Algarve). O percurso expositivo proposto privilegia o diálogo entre linguagens e materialidades. A água não surge como representação literal (aliás, os artistas optam por fugir àquilo que seria uma expectativa natural), mas como princípio organizador de processos visuais e conceptuais. Ana Maria Pintora, Bertílio Martins, João Amado, Margarida Andrade, Milita Doré e Patrícia Oliveira trabalharam em desenho, instalação, fotografia e vídeo, pintura e técnicas mistas. A diversidade dos seus percursos encontra-se no facto de aceitarem todos a relação criativa com processos experimentais, a partir do desafio comum de pesquisar as ligações entre território, memória e matéria.
A Esteira, de Ana Maria Pintora, peça em bunho entrelaçado com tela pintada, e quatro desenhos a grafite sobre papel, de Milita Doré, recebem o visitante na entrada principal da galeria e apontam para leituras possíveis da relação das obras expostas com a ideia da exposição: por um lado, as técnicas artesanais locais de trabalhar o bunho, que exigem a modificação do material através da água; por outro, as referências ao esforço das lavadeiras, nos desenhos de Doré. Já nas salas internas da galeria, uma Cascata de tiras de algodão branco suspensas retoma a experimentação ligada à qualidade diáfana que a artista algarvia desenvolve em grande parte da sua obra. A suspensão sublinha a transitoriedade do que é líquido, num diálogo com a natureza mutável da água. A imponente escultura/instalação de Patrícia Oliveira sugere ainda a forma da suspensão ou da interrupção: através de um amalgamado de texturas e cores na forma de um canal elevado e de um derramar – porém, estático – sobre o solo, ocupa o espaço da sala para questionar o que é passagem ou transporte. Na peça Barrocal, Ana Maria Pintora sobrepõe “materiais naturais do ecossistema do Barrocal” algarvio para compor uma tela horizontal explorável, evocando movimentos naturais e transformacionais. Ocultar e revelar comprovam que é impossível impedir o curso da água, energia em fluxo, que gera paisagens em mutação contínua. Bertílio Martins tem construído uma prática centrada na relação entre natureza e estrutura. Em Geografias da Água, apresenta dois painéis, cada um dividido em vinte retângulos: aguarelas no chão (Duas fontes para o mesmo mar), papel com técnica mista no painel da parede. Um como a imagem invertida do outro, num jogo de preto e branco que sublinha as nervuras que a água deixaria numa superfície, conjugando memória e sensorialidade.
O vídeo Enxurrada, de Margarida Andrade, é mostrado em três ecrãs dispostos lado a lado. É sobretudo a imagem do território aparentemente desértico que transportam para dentro da galeria. A água, aqui, é sobretudo ausência: mesmo se o vívido da cor e da luminosidade contraria uma ideia de baldio. De certo modo, as esculturas do açoriano João Amado consolidam o diálogo que desde logo se estabelece entre as várias peças nos espaços da galeria: as divertidas esculturas constituem-se personagens à medida que povoam as salas e, apesar de imóveis, sugerem deambulações e modificações do corpo.
Geografias da Água reafirma a pertinência de pensar a arte contemporânea no encontro entre investigação estética e reflexão crítica acerca do mundo. Cada artista respondeu de modo diferente ao “desaguar” em territórios estranhos: as obras não são meras representações da água, mas resultam de experiências situadas, marcadas pelo contacto com os lugares e as suas particularidades ambientais na relação com aquele elemento. Ao convocar a água como linguagem comum, o projeto aproxima práticas artísticas e realidades territoriais diversas, transforma fluxos naturais em caminhos de criação. Tal como sugeria o poeta e crítico, todas as artes podem (devem, no seu entender) convergir para uma permanente abertura de confrontação com o real. Em Geografias da Água, tal confronto tem por mote o primordial elemento de instabilidade que, num gesto semelhante ao do pensamento, permite ligar margens, atravessar fronteiras, reinventar, repensando-as, as geografias. A arte, tal como a água, é a busca e o encontro de sendas por onde fluir.
O projeto Desaguar culminará com a terceira exposição, que terá lugar em Vila Nova de Cerveira, de 28 de março a 23 de maio.
BIOGRAFIA
Ana Isabel Soares (n. 1970) é doutorada em Teoria da Literatura (FLULisboa, 2003) e ensina desde 1996 na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (UAlgarve). Integrou a equipa de fundadores da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento. Interessa-se por literatura, por artes plásticas e por cinema. Escreve, traduz e publica em revistas portuguesas e internacionais. É membro do Centro de Investigação em Artes e Comunicação.
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