Escreve Andreu Jaume em 2022, na sua introdução a La Tierra Baldía (tradução em castelhano e edição comemorativa do centenário da publicação de The Wasteland), que, por força das “tantas cosas” que se têm assumido sobre o poema de T. S. Eliot, este parece ter-se “diluido y difuminado”, dissolvendo-se e turvando-se na espuma da história da sua receção. Mas não foi isso que aconteceu. O que acontece, corrige Jaume, é que “somos nosotros los que ya no tenemos oído” – somos nós, os seus leitores, os seus sucessores, que vamos perdendo capacidade auditiva. O problema, afirma, encontra-se em quem lê o poema hoje. O crítico recorre a metáforas para explicar essa má capacidade de leitura: visuais (podem turvar-se, ou diluir-se cores numa paleta, por exemplo) e sonoras (ou da ausência de som, percebida por quem se tenha tornado duro de ouvido). São metáforas que convocam uma atitude sinestésica, assim como os versos de Eliot se compõem à medida que constroem uma espécie de catedral poética erguida sobre pilares dramáticos, sensações multímodas, invocações de camadas históricas, misturas de tempos e de cenários. São metáforas literárias (críticas) que projetam gestos de perceção multidimensional, para lá da sua existência verbalizada. O crítico mimetiza o gesto do poema, porque a força do poema reside no poder encantatório e construtivo dos versos: as palavras de Eliot referem, em retrospetiva, mas sobretudo projetam uma posteridade criativa.
Um dos persistentes leitores do poema de Eliot é Rui Sanches (n. 1954), que encontra em The Wasteland um dos eixos da sua criação plástica – isto é, contra o habitual eco de aridez que a crítica identifica em Eliot, Sanches cumpre a incitação construtiva do poema. Mas a receção de Sanches, para recorrer a outra metáfora – a de Ralph Waldo Emerson, no ensaio The Poet (publicado cerca de 80 anos antes de The Wasteland) – tem o ouvido apurado para o momento presente, está afinada. O “miswriting” (expressão de Emerson), que é a sua obra, resulta de um gesto de transcrição dos versos de Eliot para a contemporaneidade numa materialidade diferente, na qual nada existe de erróneo ou falhado. Aliás, segundo Emerson, “miswriting” é a condição da criação poética – da criação artística: uma reescrita infinita cuja linha evolutiva se faz por inevitáveis derivações e desvios. O tom acusatório de Jaume sobre os atuais leitores de Eliot e a sua falta de ouvido é, afinal, diagnóstico de uma situação ineludível. Não existe na atitude criativa de Rui Sanches falta de ouvido, mas antes uma forma particularmente “sintonizada” de mis-hearing que conduz ao necessário miswriting, à criação.
Isso mesmo se pode testemunhar nas obras mostradas em Linha e Mancha, Corpo e Máquina, que Sanches exibe no Centro Cultural de Lagos (CCL) até ao começo de abril. São vinte e nove peças compostas entre 1984 e 2013, que integram cinco coleções em depósito na Fundação de Serralves: três vêm da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, doze pertencem à Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, nove à Fundação Leal Rios, duas à coleção Peter Meeker e uma – Alpheus, de 1985 – a uma coleção privada não identificada. Do conjunto não consta nenhum dos desenhos que Sanches apresentou em 2022 na Galeria Miguel Nabinho e que lhe foram suscitados por The Wasteland a partir de 2016. Mas o arco histórico da exposição de Lagos permite perceber até que ponto o poema de Eliot tem sido estruturante na criação de Sanches. The Wasteland, que o artista apresentou em 2022, resultava de uma concretização plástica da potência dos versos – compunha-se de gestos de tradução que transpunham para linguagens e suportes diferentes a energia verbal do poema (por vezes, integrando nos desenhos a verbalidade, i.e., desenhando as palavras – não terá sido casual a escolha de materiais como grafite). Mas esse diálogo entre materialidades distintas é parte constitutiva de The Wasteland (poema), cujas imagens incitam formas de concretização para lá do léxico, para lá das rimas, e se ajustam a lugares artísticos como um palco, uma tela de cinema, esculturas ou desenhos. Ora, este movimento permanente de transposição de modos, tempos e espaços outros para formas pictóricas e esculturais constitui, desde o seu início, o ambiente criativo de Rui Sanches. Isso mesmo transparece da atenção que presta às “polissemias” que observa nas obras de Nicolas Poussin, como afirma na entrevista a Joana Valsassina incluída no livreto que acompanha a exposição: “Interessava-me tentar novamente encontrar [a partir de Poussin] uma maneira de trabalhar que tivesse essa possibilidade semântica muito mais densa e mais diversa” (p. 15). Natureza Morta (1984), por exemplo, dá conta dessa densidade e de tensões de leitura dos momentos que, na História da Arte, oferecem à contemplação pistas inesgotáveis, assim como a grande instalação escultural de 1987, que relê o quadro A Morte de Sócrates, de Jacques-Louis David. Do mesmo modo, o visitante pode entrever as interrogações criativas que Sanches terá confrontado na criação da sequência A Marat, de que se mostram cinco exemplos, concluídos entre 1989 e 1990 (quatro provas serigráficas sobre as quais o artista aplicou esmalte industrial e um desenho sobre papel). Sobre estes, explica Rui Sanches o processo criativo que o levou desde inúmeras interpretações do quadro homónimo de J.-L. David, passando por uma encenação em Serralves em 1988 com Miguel Branco, pela fotografia, serigrafia e finalização com o esmalte ou o desenho. As camadas temporais, gestuais, de movimentação multidirecional de leitura (como o corpo da visitante ao deslocar-se no espaço das salas em torno das esculturas) retomam o movimento dos versos de Eliot: os versos relidos, as rimas e os ecos transformam-se em manchas e linhas; a memória da História da Arte vê-se como máquina materializada em corpo. Não se estranha, pois, que o poema de T. S. Eliot encabece a lista de leituras que Sanches sugere, no final do livreto. Essa é uma de três listas de sugestões (as outras são de filmes e de canções e composições musicais), cada uma com cinco elementos aos quais se pode reduzir uma matriz criativa que é multímoda, que se faz da interseção infinita de vozes, tempos e materiais.
Depois de ali ter apresentado, em 2025, obras de Priscila Fernandes, a Fundação de Serralves cumpre, com esta exposição, a segunda das colaborações com o Município de Lagos. Trata-se de uma oportunidade de conhecer não só a obra de Rui Sanches (exibe-se entre as esculturas a peça Figura 1, de 1991, que iniciou a série de cabeças esculpidas em vários formatos, vazios e preenchimentos que, com a madeira como matéria base, o artista continua a trabalhar), mas ainda as ideias subjacentes à escolha das coleções apresentadas e o rigor organizativo da Fundação (na curadoria e na publicação do livreto referido), assim como a descentralização e o alargamento das suas funções de guardiã e exibidora da arte contemporânea em Portugal.
A exposição, com coordenação de Carlos Magalhães, integra o Programa de Exposições Itinerantes da Coleção de Serralves e está patente no Centro Cultural de Lagos até 4 de abril de 2026.