Suspensas desde o teto da galeria, a alturas diferentes, sugerem, na sobreposição de padrões de pontilhados negros sobre a superfície dourada dos espelhos, diferentes fases de um eclipse solar. A leitura é figurativa, pois o formato de cada peça reproduz os círculos incompletos a que correspondem os momentos do fenómeno astronómico; mas é igualmente simbólica. Desde logo, porque a folha de sala reproduz como epígrafe palavras de Michelangelo Antonioni, cujo filme de 1962, O Eclipse (L’Eclisse), toma a ocultação do sol como metáfora para os instantes em que a vida, por assim dizer, se detém, a comunicação se oculta ou dificulta, as relações humanas regridem ou se veem dificultadas. A luz solar, mais do que simbolicamente, equivale à vida, ao progresso dos seres na Terra. Por mais que a ciência permita que hoje se conheça e compreenda o fenómeno, porém, vivê-lo – saber da sua possibilidade – não deixa de impor à razão a dimensão do ininteligível.
A obra de Evangelista interpõe-se nesse lugar do irreprimível, propondo que de um eclipse resultem reflexos, movimento, mudança, inconstância de formas. Nada ficará por espantar na visita a esta exposição – como tudo passa a ser possível a partir do momento em que o dia, porque a lua se intromete entre Terra e Sol, se transforma em noite. “Não há coisa inesperada, nem que se jure não existir, / nem que seja de espantar, desde que Zeus, pai dos Olímpicos, / do meio do dia fez noite, ocultando a luz / do sol que brilhava”, escreveu Arquíloco sobre um eclipse de sol, mais de seis séculos antes da nossa era: “Desde então, pode acreditar-se e esperar-se que tudo / suceda aos humanos...”1 Tudo se pode esperar. O próprio artista confessa que, durante a montagem das peças, se apercebeu do modo como a parte de trás de cada uma se revelava uma espécie de negativo fotográfico, no mesmo gesto de interpretação múltipla, de proliferação de sentidos que pretendia. Uma das razões pelas quais escolheu “eclipse” para título da mostra, continua (na conversa que comigo teve durante a inauguração), esteve na quase universalidade da palavra, no modo como não delimita uma cultura ou geografia e se propaga pelo mundo, da mesma maneira que o sol é percebido ou a sua momentânea ocultação. É o universal que busca, no equilíbrio com o visitante local, que adentra o espaço da peça, caminha entre os vários espelhos e se vê incorporado no eclipse – no movimento lento, quase impercetível, de cada “sol”, nas sombras projetadas sobre o chão e as paredes do mundo que é a galeria, no jogo de desconstruir a sequência das peças. Qual delas é a primeira? Contam-se desde a entrada na galeria? Qual a undécima? Quando começou este eclipse? Terá sido quando entrei? Ou começará quando sair? A iluminação da galeria adensa a penumbra em que urge um “exercício de cegueira deliberada”, como propõe a curadora no texto da folha de sala, adiantando que o “apagão funciona como portal” por onde cada visitante pode avançar, deliberadamente, na direção da “vulnerabilidade humana perante o cosmos e a tecnologia” (o cosmos que a obra simboliza e a tecnologia que a fez existir; o cosmos que assombra cada ser humano; a tecnologia que, das suas invenções, cada dia mais assombra).
Como ler simultaneamente o universo e um grão de areia? As peças de Eclipse podem ser vistas como letras de um alfabeto que auxiliasse tal leitura: mas as que correspondem à ausência quase total do círculo solar parecem-se com parênteses entre os quais se coloca, afinal, qualquer frase que dali se construa. Na recente exposição CORE (Galeria Francisco Fino, Lisboa, entre novembro do ano passado e janeiro de 2026), as seis peças que o artista mostrou, num suporte semelhante de superfícies espelhadas pintadas a tinta UV, receberam nomes como Center, Nub, Kernel, Gist, Nib, Essence – a nomenclatura, relacionada com o núcleo, ou o centro da vida (as peças tinham forma oval e remetiam para o ovo enquanto origem) assumia relevância igual à que revela em Eclipse. Não é tanto uma terminologia de cariz científico que se busca, mas antes um modo de sugerir o reconhecimento através do nome, seja através de um título reconhecível em várias línguas, seja na língua que mais universalmente se reconhece. Trata-se do gesto de aproximação sem determinismos, de questionamento sem a finitude da resposta – do pensamento a deambular pelo mundo quando, no tempo em que a luz solar deveria esclarecer, ela se esconde.
O percurso artístico de Diogo Evangelista começou na pintura; em 2009, por exemplo, contribuiu para a exposição que comemorou os 55 anos da Galeria 111 em Lisboa – Além Deste Solitário Carrossel – com uma pequena obra de óleo, verniz e papel sobre tela, uma flor cujo centro tanto poderia ser o da própria flor como a imagem de uma abelha que nela pousasse. Continua a passar – significativamente – pelo vídeo experimental, em nome individual ou em parcerias criativas, e pela escultura. Ainda que não apresente peças em vídeo, este Eclipse paira sobre o lastro do que se busca conseguir artisticamente através de um quadro pintado, da densidade e da presença tridimensional da escultura, ou da materialidade em movimento da videoarte.
A exposição, patente na Alfaia, pode ser visitada até dia 14 de março.
1 Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, em Hélade, ed. Faculdade de Letras de Coimbra, 1990, p. 98.