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Compreender ou não compreender — eis o perigo
DATA
31 Mar 2026
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AUTOR
Laila Algaves Nuñez
“Escrevo sobre a tentativa de segurar, fraca e insuficientemente, mesmo que com as duas mãos, um significado; escrevo sobre a vontade de um desejo longe do simbólico, longe do verso; escrevo sobre a pressa e sobre os capítulos que tenho por definir e escrever e, depois, por redefinir e reescrever. E escrevo, ainda, sobre duas exposições cujas marcas, enigmáticas e multifacetadas, persistem: The Fold, de Hoda Afshar, e Pedagogías de guerra, de Roman Khimei e Yarema Malashchuk, parte das curadorias habitualmente fortes de La Casa Encendida e do TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary / Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, respetivamente. Este texto é um pouco sobre tudo isto.”
Quando nasci, sentia-me tão concreta como uma peça de mármore. Sei que esta parece uma alegação precipitada e, certamente, um bocado embrulhada em fantasia, mas direi, mesmo assim: algo daquele corpo pequeno e pouco retilíneo já conhecia bem a gravidade, ocupava espaço, perdia o fôlego, caía barulhento e desengonçado. Não sei bem quando, nem porquê, fui me tornando abstrata. Talvez de uma disposição genética se tratasse, desde o princípio; talvez possa atribuir o pecado à primeira palavra que li, em voz alta, diante de um público (“violão”); ou, ainda, à inesperada intuição, pontiaguda e terrível, do que significa a morte, aos oito anos. Seja o que for (a linguagem ou a eternidade), logo apercebi-me residual, do lado dos sonhos, das figuras, das teorias, das distâncias. Não é raro encontrar-me num tribunal a desfilar justificativas: a metáfora é a verdade das coisas! Tudo o que é possível no pensamento, é possível no real! Mas, hoje, é também com algum constrangimento que confesso a minha abstração, a minha natureza de ideia — por um lado, o esforço de compreender a mim e ao mundo soa-me digno e urgente (sobretudo quando a política e a economia se assemelham tanto ao delírio); por outro, empenho-me em abandonar a pretensão egoísta da lógica, da síntese, do compreender que, ao jorrar a sua luz forte de clarividência, faz de tudo igual, sem relevo, cego e branco.
Regresso de Madrid, algumas semanas atrás, com os conceitos desorganizados. É a quarta vez que volto a Lisboa da capital espanhola, uma cidade cada vez mais íntima, entusiasmante e sedutora. Triste e inspirada, acabo por escrever bastante. Escrevo sobre a tentativa de segurar, fraca e insuficientemente, mesmo que com as duas mãos, um significado; escrevo sobre a vontade de um desejo longe do simbólico, longe do verso; escrevo sobre a pressa e sobre os capítulos que tenho por definir e escrever e, depois, por redefinir e reescrever. E escrevo, ainda, sobre duas exposições cujas marcas, enigmáticas e multifacetadas, persistem: The Fold, de Hoda Afshar, e Pedagogías de guerra, de Roman Khimei e Yarema Malashchuk, parte das curadorias habitualmente fortes de La Casa Encendida e do TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary / Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, respetivamente. Este texto é um pouco sobre tudo isto.
E não é possível deixar de lado a sua missão nem-tão-secreta: compreender é, de facto, o objeto de estudo (e de loucura) desta autora, mas é também o verbo incendiado no programa da Casa Encendida (no ano passado, foram os ouvidos a arder). À entrada da primeira sala, sou lembrada de que há muito a aprender com o tempo e as histórias das palavras — e que, na verdade, quando as partimos até ao átomo, é improvável que encontremos algo verdadeiramente abstrato (não me olhem assim!). Ler virá da lenha; companheiro virá do pão; psychê virá do hálito; e compreender, mental coisa nenhuma, será um abraço, diz-nos o texto de parede. Creio que hão de concordar que abraçar o desconhecido — cheirá-lo, tocá-lo, senti-lo peito a peito sem nenhuma introdução, nenhum nome próprio ou semelhança — é até bem mais custoso que lhe emprestar algumas reflexões. Há perigo, sobretudo. Um perigo que negligenciamos, por vezes, durante o trabalho intelectual, tão habitualmente isolado e silencioso (mas nunca seguro).
O risco que a fotógrafa iraniana Hoda Afshar acolhe é, justamente, o de recusar a síntese, manter viva a complexidade de uma pessoa cujas características, e cujo trabalho, servem muito bem a um certo discurso crítico contemporâneo. Na instalação audiovisual The Fold, a artista apresenta-nos as nuances de Gaëtan Gatian de Clérambault (1872–1934), psiquiatra e fotógrafo engajado no exército francês que, durante o período da Primeira Guerra Mundial, desenvolveu um imenso arquivo de retratos de pessoas — sobretudo mulheres — muçulmanas cobertas com véus em Marrocos. Trata-se de um acervo obsessivo, composto por dezenas de milhares de fotografias de vestimentas femininas tradicionais no continente africano, em particular o haik. A partir da observação compulsiva das dobras, vincos e drapeados destes tecidos, cercado de manequins e das suas imagens, de Clérambault escrevia sistematicamente sobre o encobrimento, a fantasia e o delírio. Suicidou-se, em 1934, com um tiro autoinfligido diante de um espelho, gravando na sua vista, doente de catarata e dos fantasmas de uma irmã precocemente desaparecida, a derradeira imagem da sua morte. Num texto póstumo, o psiquiatra lega os seus olhos a todos os colegas que os quisessem examinar. E Afshar, portanto, aceita esta oferta.
No exame a que submete de Clérambault, a artista não o absolve da sua devoção à ocupação colonial, muito menos do seu interesse fetichizante e misógino sobre os corpos das mulheres que encontra no Norte da África. Não o liberta das suas inclinações paranoicas, policiais, conservadoras, ou mesmo da reprovação ao seu método defasado de fazer ciência a partir da descrição e representação das outras, tornadas bidimensionais, exóticas, objetos de análise. Abstrações. Tampouco, porém, esvazia o valor estético da sua coleção de fotografias — que Afshar também investiga com minúcia e curiosidade. Também não deixa de sublinhar a sua influência para a prática psicanalítica, o seu rigor intelectual, ou as lutas com o seu próprio corpo. Com isto, não quero dizer que Afshar humaniza-o — o que soaria demasiadamente ingénuo, como um daqueles relativismos inconsequentes que se contentam em advertir: “pois, é difícil…”. Na verdade, o seu gesto é de resposta. Se de Clérambault institui, ao seu modo algo obsceno, uma verdadeira clínica do olhar, Afshar coloca-o à prova da sua contra-clínica. Ao mesmo tempo que o expõe aos seus testes — éticos, morais, artísticos —, torna-o cúmplice numa conspiração sem trama[1]. Imaginem, agora, a minha alegria ao descobrir que, ao partirmos a palavra cúmplice, encontramos exatamente aquele que dobra (plicare, plectere) junto (com-).
Há menos de quinze minutos a pé, no TBA21, continua o esforço — ênfase mesmo sobre o trabalho e o ânimo necessários — de desaprender a compreensão. Estamos diante de imagens de guerra: crianças dormem; jovens conversam entre si, sentados nas escadas de acesso a um edifício público; um homem repousa numa cadeira, ao ar livre, enquanto uma abelha voa insistentemente à volta do seu rosto. Nenhum bombardeamento, nenhum disparo, apenas algumas pessoas a acidentarem-se no gelo escorregadio das ruas de Kiev. Em Pedagogías de guerra, Roman Khimei e Yarema Malashchuk oferecem-nos tudo menos as representações habituais da violência e tragédia, demonstrando como estas se infiltram nas nossas estruturas de pensamento e leitura do mundo ao reorganizar o que vemos, o que antecipamos, o que tememos. Há qualquer coisa de desconcertante nesta deslocação narrativa: antes — ou talvez depois, ou, provavelmente, ao mesmo tempo — de ser um acontecimento terrível, a guerra é, também, um regime de percepção terrível. A metáfora coexiste com a tragédia; domestica-a, quiçá, incorporando-a como expetativa, como a vida e a morte plausíveis.
Tal como em The Fold, qualquer sentido possível de ser remetido a partir da mostra da dupla ucraniana proverá da atenção, da duração do tempo — da lenta reconstrução e dilatação de si, abrindo espaço suficiente entre os braços para abrigar as contradições. Ao introduzirmos fricção naquilo que parecia liso, opacidade naquilo que parecia óbvio, ficamos com a espessura estranha e com a surpresa das coisas, lembrando-nos de que o real de toda a palavra e de toda a imagem é sempre mais fundo do que a sua superfície. Mais curvo, mais amassado, mais insólito. A dobra do corpo, o umbigo do discernimento.
The Fold, de Hoda Afshar, está patente na Casa Encendida até 26 de abril de 2026. Pedagogías de guerra, de Roman Khimei e Yarema Malashchuk e comissariada por Chus Martínez, pode ser visitada no TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary até 21 de junho de 2026.
[1] Faço aqui alusão ao texto “A conspiracy without a plot”, de Valentina Desideri e Stefano Harney, publicado originalmente em 2013 no livro The Curatorial: A Philosophy of Curating e traduzido para o português no jornal Coreia #11. Disponível em <https://coreia.pt/wp-content/uploads/2025/02/coreia-11.pdf>.
BIOGRAFIA
Laila Algaves Nuñez é investigadora independente, escritora e gestora de projetos em comunicação cultural, interessada particularmente pelos estudos de futuro desenvolvidos na filosofia e nas artes, bem como pelas contribuições transfeministas para o pensamento social e ecológico. Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Cinema (PUC-Rio), mestre em Estética e Estudos Artísticos (NOVA FCSH) e doutoranda em Estudos Artísticos - Arte e Mediação (NOVA FCSH) com bolsa FCT, pesquisa o potencial da escrita e da ficção como ferramentas para a salvaguarda dos Direitos da Natureza, propondo e participando em projetos de investigação-ação que atravessam as intersecções entre palavra, performance, imaginação e ativismo ecológico.
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