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Meteorizações, de Filipa César
DATA
01 Abr 2026
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AUTOR
Débora Valeixo Rana
“A mais recente exposição de Filipa César, apresentada em Serralves com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento, reúne mais de quinze anos de investigação e parte de um trabalho continuado em torno da Guiné-Bissau e dos seus arquivos audiovisuais, em particular o chamado cinema militante. Não se trata, porém, de um levantamento histórico. O que aqui se ativa é a imagem enquanto prática política. Esta opção desarma o museu de um sentido próximo de arkhé, simultaneamente começo e comando, e reconfigura-o como arquivo em movimento.”
Entramos na penumbra como quem entra numa floresta. A cada passo, o som da água e os pássaros que chilreiam acompanham-nos. A luz é baixa. As imagens surgem em grande escala. Em cada tela: corpos, vozes, gestos. Registam-se atos de resistência: quem enfrentou, quem pergunta, quem narra. Não há ordem evidente. Há um espaço que exige tempo. Exige permanência.
A mais recente exposição de Filipa César, apresentada em Serralves com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento, reúne mais de quinze anos de investigação e parte de um trabalho continuado em torno da Guiné-Bissau e dos seus arquivos audiovisuais, em particular o chamado cinema militante. Não se trata, porém, de um levantamento histórico. O que aqui se ativa é a imagem enquanto prática política. Esta opção desarma o museu de um sentido próximo de arkhé, simultaneamente começo e comando, e reconfigura-o como arquivo em movimento. Não o depósito estável da memória, mas um campo onde o já dito, o já contado, pode ser reaberto. O percurso entre corredores não faz da história uma evidência, retoma-a e exige-lhe revisão. Aqui, o ato de entrar exige um outro gesto, sankofa; regressar não para confirmar uma narrativa, mas para interrogar o poder que a institui. Aprender com o passado. Aprender com a história. Mas antes de aprender, é preciso perguntar: estão todos os lados contemplados? Quem fica dentro? Quem permanece fora?
Filipa César não nos dá apenas como guia, como mapa orientador desta história, a imagem em movimento. Os fragmentos não se narram apenas ao nível do olhar. O chão também se torna registo. Linhas que se cruzam, datas que se inscrevem, nomes de lugares que ligam Lisboa, Bissau, Cabo Verde. A história não está apenas nas imagens projetadas e nos objetos que as compõem (livros, bobines de filme, fotografias, legendas impressas); está também sob os pés. Caminhar torna-se leitura. Atravessamos marcas, calcamos ligações, deslocamo-nos entre geografias. Entramos na cartografia. Atravessamos a história, quer pelo olhar, quer pela audição, quer pelos próprios pés.
A memória não paira; materializa-se. Se a história é arquivo, é também exercício de poder. E todo o exercício de poder comporta formas de exclusão. A obra de Filipa César convoca a época do colonialismo, mas não se limita a tematizá-lo. Interroga a capacidade de ação, bem como a capacidade de nos enredarmos na complexidade em que estamos inscritos quando pertencemos a uma história. Não se fala por cima, mas dá-se a palavra. Reativam-se estruturas de poder e figuras que, por não serem legitimadas institucionalmente, permanecem fora do discurso dominante. Filipa César abre, a partir da sua obra, condições para que, nos diferentes testemunhos e partilhas, as vozes se aproximem e sejam ouvidas.
A possibilidade de nos isolarmos do contexto geral da exposição, através de auscultadores e de pequenos bancos, como se se tratasse de várias salas de cinema dentro da mesma sala, altera a escala da experiência. Já não há som ambiente; a voz torna-se direta e exige concentração. O ato de escutar reclama tempo. Não há dispersão. Há proximidade; proximidade entre aqueles que circulam e aqueles que partilham o mesmo banco.
Esta aproximação permite aprendizagem. Há sinais que vemos mas não compreendemos: os panos. Saber o que comunicam os seus padrões e cores é entrar num outro modo de comunicação. O que parece forma é linguagem. O que parece ornamento é código. Estes são produzidos, usados e circulam num solo. E é aqui que o pensamento de Amílcar Cabral se torna incontornável: a defesa da terra. A terra como condição de existência e como fundamento de uma identidade coletiva. Não há emancipação sem território, sem um chão onde os pés assentem.
Mas esse chão não é estável. A superfície forma-se pelo desgaste, pelo encontro entre matérias, pela ação do tempo – aquilo a que Cabral chamou meteorizações. Não há solo puro, há sedimentação. A exposição insiste na materialidade do arquivo: um arquivo que é solo, condição de identidade e de pertença. Um solo entendido como processo, que por isso não se reduz à oposição simples entre verdadeiro e falso, tal como a história não o faz. Não é síntese. É uma construção tensa, sujeita a erosão e recomposição. Permanecer nesse intervalo é recusar a comodidade da conclusão. É aceitar que a memória, tal como a terra, não se preserva intacta: trabalha-se.
Meteorizações, de Filipa César, está patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, até 31 de maio.
BIOGRAFIA
Débora Valeixo Rana (n. 1990, Lisboa, Portugal) é professora de Filosofia e reside no Porto. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2011) e é mestre em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário (2019). O seu percurso académico e profissional reflete um profundo interesse pela interseção entre Arte e Filosofia, um diálogo que a levou, em 2022, a ingressar no mestrado em Estudos Artísticos e Crítica de Arte na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
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