Foi na década de 80 que se assistiu ao retorno massivo da pintura, num período em que parecia estar erradicada, e encarada como um meio já obsoleto e ultrapassado. A pintura volta com força e prova a sua pertinência no seio de uma urgência metafórica e poética, apesar de estar, na altura, mais associada ao mercado da arte1 do que a um pensamento crítico2 e a um discurso denso e rigoroso. No entanto, artistas como Georg Baselitz, Anselm Kiefer, Sigmar Polke e Julian Schnabel justificaram o regresso a esta nova pintura, provando a sua pertinência e profundidade, no seio de uma contemporaneidade associada à alegoria, à dramaticidade, à ferida emocional, ao retorno da história, aos vários tempos, à narratividade3.
A intervenção do gesto, do elemento corrosivo (cáustico), da mancha generosa, sobre a fotografia, oferece múltiplas possibilidades e oportunidades no sentido da singularidade da obra, mais difícil com o múltiplo da fotografia, este engastado na contenda da reprodutibilidade técnica, e no esmorecimento da aura.
Um dos artistas, na década de oitenta, que interviu, de forma acentuadamente pictórica, sobre a superfície da fotografia, foi Arnulf Rainer. Sobretudo na série de auto-retratos, onde aplicava a raspagem e desferia, sobre a superfície da fotografia, manchas generosas de tinta. As imperfeições, as manchas pictóricas, as irregularidades e a ocultação do rosto eram notáveis até ao ponto da abstracção pura e da indistinção absoluta.
Luísa Ferreira oculta a figuração dos corpos, e a espacialidade existente na imagem fotográfica, justamente com uma operacionalidade idêntica a Rainer. Não se sabendo se o gesto é uma referência ao artista, podemos, no entanto, observar similitudes nas obras agora expostas na galeria Sá da Costa. Algumas fotografias surgem, integralmente, cobertas por camadas pictóricas, em que se deixa apenas descobrir um rosto, ou entrever um corpo de um homem que entretanto parece gesticular e dançar. Há uma alusão a uma série de Ferreira, também exposta neste momento na galeria, que alude, ou pelo menos sugere, um gosto da artista pela ambiguidade dos meios ou pela transdisciplinaridade artística. Corpos a descoberto (em diálogo) enleiam-se, agregam-se, distendem-se, formam esculturas humanas. Evocam a dança, a performance, a instalação, as artes visuais, o teatro. É nessa série, realizada em 1991, de uma insinuação cinematográfica, que se observa a enfâse que a artista dá ao corpo. Diferente de outras composições presentes na mesma exposição, onde o corpo é ausência, revelado somente pela linha de contorno. Esvaziado de densidade, obscurecido e enredado nas emulsões ácidas e raspagens que a artista disfere sobre as suas formas, traz, a primeiro plano, o vazio granuloso dos seus fundos pictóricos, e efeitos de dripping. A fotografia perde assim a noção de lugar, torna-se bidimensional, mas ganha em aura.
No espaço da galeria somos arrebatados por uma gestualidade que se esboroa e serpenteia entre as formas e contornos, que se inscrevem na superfície concreta da imagem fotográfica. Os tons aplicados são de uma porosidade impressionante. Ocultam a luz e transportam, entre sombras, o visitante, em ambientes sépia e tons dourados.
A exposição está patente na galeria Sá da Costa até dia 1 de abril.
[1] GODFREY, T (2024) The Story of Contemporary Art. Thames & Hudson. Pág. 65
[2] Ibidem
[3] Ibidem