Quando o pensamento é liberado, os objetos passam a afirmar a sua própria autonomia. O processo criativo de Feliciano não caminha para uma sensação de conclusão ou decadência, convidando, antes, para uma incompletude aberta. As obras unem-se como contos sem um centro fixo, abertas a novas associações a cada olhar, impedindo que o olhar do espectador se fixe e permanecendo perpetuamente imprevisíveis.
As “disfunções funcionais” dos materiais encontrados - cujas operações agora são limitadas ou obsoletas - tornam-se parte integrante do processo artístico de Feliciano. É difícil discordar do crítico de arte Arthur Danto, que descreveu o envelhecimento como a colaboração bem-intencionada do tempo e da sujidade. Feliciano revela ao espectador o desgaste, os atolamentos, os rangidos e as avarias que surgem entre os sistemas sociais e as máquinas-objetos. Vistos de perto, os componentes mecânicos perdem a sua função; à distância, as engrenagens e os motores retomam o funcionamento, revelando as suas qualidades distintivas.
Nas obras de certos escritores - Sebald, Mario Vargas Llosa ou Lawrence, por exemplo - é possível ouvir uma voz distinta. Na exposição de João Paulo Feliciano, percebe-se uma voz linguística mesmo sem que encontremos palavras, criando uma atmosfera melódica numa dimensão verbal. A ligação teórica que Feliciano estabelece com a música, proveniente da sua formação, surge quase como uma corrente elétrica. A “infiltração” dessa imagem melódica pelas frestas das suas obras sinaliza algo que se gesta silenciosamente no seu interior, especialmente enfatizado em tons vermelhos, mas de forma subtil, nunca explícita.
“O corpo sob a pele é uma fábrica sobreaquecida, e por fora, o inválido brilha, resplandece, a partir de cada poro aberto.” - Antonin Artaud
O dia em que visitei a exposição foi um daqueles em que vagueei sem rumo pela cidade, como um boémio. Encontrei-me numa livraria de livros usados que vendia gravuras antigas de arquitetura. Sempre apreciei gravuras: a forma como a tinta flui através de sulcos esculpidos em placas com técnica precisa, revelando uma unidade estética singular. Enquanto examinava distraidamente os papéis durante horas entre as prateleiras, percebi que, até aquele momento, não tinha realmente tomado consciência do que estava a observar. O meu corpo e a minha mente pareciam estar separados, por mútuo acordo. Ao sair da livraria e entrar na Galeria Cristina Guerra, testemunhei a frieza técnica que sentira ao observar as gravuras fundir-se num contexto estético. Foi repentino, como ser surpreendido por um som ou um golpe, ou como acordar de um sonho.
A diversidade das obras de João Paulo Feliciano dos últimos cinco anos permite ao espectador adotar um olhar distanciado do tempo, muito parecido com o que experimentei na livraria. Na verdade, já não tenho tanto prazer em usar a palavra “experiência”, pois, nos últimos anos, ver tudo na vida como uma “experiência” tornou-a, de certa forma, trivial. Talvez seja, por isso, mais preciso dizer “perceber” ou “sintonizar”.
A simplicidade e a naturalidade dos materiais das suas obras - carvão, aguarela, autocolantes, vidro, cartão, plástico, peças de metal e ímanes - permitem-lhe construir novos significados a partir de objetos do quotidiano que poderiam facilmente tornar-se ferramentas experimentais em casa, aparentemente inofensivas e silenciosas. Isto reflete uma coragem infantil que molda o mundo criativo protegido do artista.
A exposição suscita inúmeras questões entre objeto e obra de arte. Recordo-me de um breve diálogo do romance de ficção científica de H.G. Wells, de 1895, intitulado A Máquina do Tempo:
“Um cubo que não consegue sustentar a sua existência pode realmente existir?”
Filby ficou pensativo. “Claramente”, continuou o Viajante do Tempo, “um objeto real deve estender-se em quatro direções: comprimento, largura, espessura e - continuidade.”
As obras incluídas na exposição, outrora desejadas, mas agora sem utilidade no mundo moderno, tais como discos de vídeo, ventoinhas usadas, calculadoras, fechaduras obsoletas de caixas de madeira antigas e fendas enferrujadas, ainda possuem uma forma de continuidade hoje em dia, ou são agora equivalentes à existência abstrata de uma linha de espessura zero?
Um mundo onde os mecanismos ainda respiram em curtas baforadas, emitem fumo e rangem as molas, esforçando-se por acompanhar um sistema ordenado... No entanto, o objetivo não é seguir os objetos, mas testemunhar a grandeza que outrora sustentaram. Aqui, a madeira, o metal, a tinta, o vidro e os objetos encontrados permanecem vivos, ainda respirando, transportando a alegria silenciosa de possuir um espírito e alcançando a vastidão da vida através da arte.
A palavra que me vem à mente para João Paulo Feliciano é “bricoleur”: alguém que trabalha com as mãos, criando com os materiais que tem à disposição. Lévi-Strauss enfatizou que o pensamento científico muitas vezes envolve bricolagem, criando uma obra a partir de materiais disponíveis ou utilizando meios mistos. O biólogo François Jacob, laureado com o Prémio Nobel, aprofundou essa ideia com o conceito de “tinkering evolutivo”, explicando que a evolução funciona como um artesão que experimenta vários materiais incertos para produzir objetos funcionais. De acordo com a filosofia do tinkering evolutivo, nenhum dos materiais serve um propósito definido, e cada um pode ser utilizado de várias maneiras. Seguindo a lógica da tentativa e erro, “a evolução não produz novidades a partir do zero.”
Assim como os rebentos brotam da terra, uma antena recetora pode emergir dentro de uma pintura. O objeto torna-se uma coisa, e a coisa torna-se um objeto. O eu e o não-eu (moi et non-moi), o exterior e o interior fundem-se num só. Natureza ou cidade, um jardim verdejante ou uma garagem antiga, todos eles existem como um processo de produção onde os elementos se interligam.
A única obra da exposição que tem um título é Jumbo – Jumbo.
O Sony Jumbotron é um ecrã de vídeo que utiliza tecnologia de televisão de ecrã de grandes dimensões. Sendo essencialmente um dispositivo de exibição, são necessárias centenas de tubos como este para formar um ecrã Jumbotron completo. Cada módulo contém oito pequenos quadrados compostos por secções vermelhas, verdes e azuis, com bordas que bloqueiam a luz indesejada. A obra está voltada para uma piscina vazia, que fica estranhamente iluminada na escuridão da noite. A projeção parece menos interessada em mostrar algo do que em esconder, preenchendo o espaço com uma presença inquietante.
Gosto da natureza indomável e selvagem da arte contemporânea e das suas possibilidades com as quais nem mesmo a tecnologia consegue competir. As palavras de René Magritte sobre pintura sempre me deixam feliz: “há pouca relação entre um objeto e o que o representa”. Na verdade, é precisamente essa distância que preserva o verdadeiro impulso criativo.
A linguagem que Feliciano estabelece através do seu trabalho artístico surge mais da paixão do que da necessidade. Dentro do sistema artístico que constrói, não se fazem julgamentos definitivos sobre temporalidade ou permanência. As obras são livres no interior da sua própria imagem e podem incorporar uma qualidade diferente para cada visitante, a cada dia.
João Paulo Feliciano demonstra que a beleza não se limita à proporção, ao brilho ou à clareza; pode residir na totalidade e até conter a possibilidade da sua própria contradição.