As interpretações dos projetos de Anne Imhof frequentemente começam com uma tentativa de articular a experiência corporal – sentimentos, impulsos, reações – em consonância com a natureza da sua prática. O seu trabalho ficou intimamente associado à performance imersiva e de longa duração após o sucesso de FAUST, com quatro horas de duração, para o Pavilhão Alemão na 57ª Bienal de Veneza, que lhe valeu o Leão de Ouro para Melhor Participação Nacional. As performances de Imhof são não lineares e elusivas: as ações podem desenrolar-se simultaneamente em diferentes áreas do espaço, coreografadas, em paralelo a uma partitura pré-existente, pelas decisões tomadas pela artista no momento, enquanto observa os performers e o público em tempo real. As suas obras performativas permanecem em constante fluxo e, por definição, são impossíveis de serem vistas na sua forma completa. Além disso, não há dois espetadores que possam afirmar ter tido o mesmo encontro com uma obra de Anne Imhof. É precisamente aqui que o relato pessoal, baseado em sentimentos, se torna útil para um crítico.
Mesmo os projetos de Imhof que decorreram sem um elemento performativo direto – como YOUTH no Stedelijk Museum (2022) ou Wish You Were Gay na Kunsthaus Bregenz (2024) – parecem animados e instáveis. A artista utilizou estratégias cenográficas como a iluminação dramática, a música e a segmentação espacial para encenar as suas exposições como ambientes de potencial ação, enquanto as suas instalações foram concebidas para sugerir que “alguém esteve aqui e acabou de sair”: uma camisa atirada para um banco, um armário entreaberto, um colchão vincado.
A sua nova exposição, Fun ist ein Stahlbad, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves – a primeira exposição individual da artista em Portugal – parece ser um projeto diferente, mais difícil de abordar a partir deste ângulo familiar. Reúne várias esculturas e instalações de grandes dimensões, pinturas de grandes dimensões, como Black Wave (2025) e White Cloud (2025), baixos-relevos, bem como trabalhos em papel, todas as peças distribuídas de forma dispersa por uma sequência de salas de museu em forma de cubo branco, bem iluminadas. No conjunto, a exposição apresenta-se limpa, silenciosa e abandonada – uma impressão reforçada pela estrutura das suas maiores obras. Em Arena Crowd Barriers (2025), divisórias metálicas formam um círculo fechado, algo como um anti-palco, enquanto Tower (2025), uma escultura monumental que faz lembrar uma plataforma de mergulho, estende-se do chão ao teto e é impossível de escalar. Esta iconografia, que evoca disciplina e controlo, não é nova: barreiras de contenção e plataformas elevadas fazem parte do vocabulário visual de Imhof e têm estado presentes em muitas das suas performances e instalações anteriores. A novidade reside na sua aparência, uma vez que já não se destinam ao uso corporal.
Tanto a Torre como Stahlbad (2025) – outra peça importante nesta exposição – evocam imagens assombrosas de um centro desportivo em Pripyat, Chernobyl, abandonado após o desastre nuclear de 1986. Encomendada pelo Museu Serralves, Stahlbad assume a forma de uma piscina negra e vazia, instalada no exterior dos espaços principais da galeria, no pátio. A sua massa metálica negra assemelha-se a um buraco negro, um vazio gerador de vórtices que serve de ponto culminante da exposição, para o qual o visitante desce gradualmente a partir das galerias situadas nos pisos superiores. Pode existir, afinal, um movimento inerente a esta exposição: a magnitude paralisante da gravidade.
“O espectador depara-se com uma escultura que já incorpora o controlo, ao invés de ser guiado por ela”, comenta Imhof sobre a natureza das obras no Museu de Serralves numa entrevista recente ao The Guardian. “O corpo torna-se um espaço de pensamento, o movimento uma forma de inteligência – inerentemente política.” As suas observações convidam a especulações sobre a forma como a gravidade de Stahlbad poderia ser desafiada. Uma piscina vazia é também o berço do skate: descoberto por surfistas californianos, que usaram a curvatura da piscina como substituto do formato de uma onda que pudessem surfar. Subcultura popular posteriormente institucionalizada como desporto profissional – processo que encontrou resistência dentro das próprias comunidades do skate –, o skate foi também examinado na perspetiva da investigação de Henri Lefebvre sobre a produção social do espaço, como prática de reapropriação e de repensar as relações entre a arquitetura e o corpo humano. Segundo Iain Borden, que escreveu extensivamente sobre o assunto: “Em vez do cosmos organizado da arquitetura clássica – a coesão, as hierarquias interiorizadas, a imitação e o equilíbrio – temos as ondas, ondulações, vibrações e oscilações dos procedimentos lúdicos do skate, sugerindo conflito e contradição, emoção, caos e confusão, a interiorização do mundo exterior no eu, a espontaneidade e o afetivo”.1 Pode ser um exagero imaginar esta exposição como um convite para que os skaters se instalem no interior do museu – uma opção cada vez mais distante, como demonstra o recente plano de requalificação do famoso local de skate em frente ao MACBA, em Barcelona. Ainda assim, esta interpretação pode não estar totalmente errada, considerando o interesse de Imhof pelas subculturas juvenis e a sua colaboração com a The Skateroom (uma empresa certificada B Corporation) como parte da exposição – uma série de formas de skate que desenhou para a loja do Museu Serralves. A exposição Fun ist ein Stahlbad apresenta também uma nova obra em vídeo multicanal, Citizen (2025). Baseia-se em imagens da mais recente performance de grande escala de Anne Imhof, Doom: House of Hope, que recebeu críticas díspares, com alguns críticos a apontarem discrepâncias entre a suposta potência política da obra, a sua estética e a posição da própria Imhof no mundo da arte e na cultura das celebridades. O título da exposição, Fun ist ein Stahlbad, é emprestado da Dialectic of Enlightenment (1944), de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, na qual a cultura popular é abordada como um meio de gerir o prazer: um mecanismo entorpecedor que reforça a conformidade, enquanto a resistência e o pensamento crítico são relegados para o domínio da arte autónoma. O que poderá esta referência transmitir a Anne Imhof – uma artista mundialmente famosa cuja prática traça trajetórias de resistência e inconformismo e, ao mesmo tempo, se distancia das divisões culturais? No interior da exposição, Citizen está visivelmente confinada a uma caixa preta separada, atrás de cortinas espessas. Embora o texto curatorial sugira que Fun ist ein Stahlbad representa um resumo da carreira de Imhof até à data, o projeto pode, em vez disso, ser apresentado como um laboratório onde a artista procura confrontar a dialética inerente à sua própria prática.
Com curadoria de Inês Grosso, a exposição está patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves até dia 19 de abril.
1 Tradução livre. Borden, I. (1998). Body Architecture: Skateboarding and the Creation of Super-Architectural Space in Hill, J. (ed.) Occupying Architecture: Between the Architect and the User. London: Routledge, p. 208.