Confesso-vos. Não conhecia a artista nem nunca tinha visitado a Rialto6. Um erro de principiante, talvez. No entanto, acredito que, muitas vezes, a ausência de expectativas é um trunfo na manga para este tipo de coisas. Expectativas essas que foram, desde o primeiro momento, ultrapassadas pela belíssima receção quando cheguei ao espaço de Maria e Armando Cabral. Parece-me que a forma como nos acolhem é objeto de uma discussão cada vez mais relevante, sobretudo em espaços galerísticos – apesar da Rialto6 não se considerar propriamente uma galeria – que, à partida, estão ancorados numa intimidade entre os representantes do espaço e os visitantes relativamente considerável, ao contrário de instituições de maior dimensão. Este último ponto deve, ou deveria ser, também alvo de um enorme debate.
Mas seguindo. Após subir as escadas que dão acesso à exposição, deparam-se-me três esguias silhuetas num bronze de patina azulada, Balasina, Gieniek e Tadeusz (todas de 2020), que me introduziram ao mundo de Dorota Jurczak. À confiança, aproximei-me delas, mirei-as atentamente, como elas certamente me miravam. Estavam todas elas muito bem arranjadas, das golas aperaltadas em pandã com os padrões das camisolas, florais ou em bolinhas, aos cabelos lisos e penteados que enaltecem o enigmatismo das suas expressões, bem como uma simpatia que, apesar de tudo, não me fez estranhar. Não se tratava de um jogo do sério, muito pelo contrário. São figuras que arrebitam uma sobrancelha. Ainda assim, surgiu ali um certo tipo de afeição.
Do lado esquerdo deste grupo, sob a luz que entra pela magnífica janela do espaço, um conjunto de caixas de sapatos em MDF pintado, com os respetivos exemplares em cerâmica vidrada por cima (shoewall, 2020), cada um com o seu próprio esquema de cores e de elegância alongada, sendo semelhantes aos que vemos representados nas gravuras, um charme que daria para neutralizar uma barata no canto da sala. Ao lado, duas gravuras, Nuna, Nusia i Blumka, 2023, e Dakota, 2025, a primeira a cinco cores, a segunda em chine-collé, uma técnica de gravura em que um papel mais fino - geralmente de origem asiática - é colado pela pressão da prensa sobre um suporte mais forte. Isto permite chegar aos detalhes ínfimos pelos quais as gravuras de Dorota se destacam. De uma forma mais forte no seu trabalho de gravura aqui apresentado, nas variadas vertentes técnicas em que a artista é especialista, os cenários por si criados - partindo de cenas domésticas ou momentos de um dia-a-dia funky apijamado com a companhia de aparentes amigos de quatro patas meio azoados - trazem consigo fortes alinhamentos com a prática da ilustração, satisfatoriamente desafiando o seio da dita arte contemporânea.
Voltando-nos para o lado oposto, a bifurcação do espaço tanto pode levar-nos para cima como para baixo. Pelo primeiro, uma vara. Ou, por outras palavras, um grupo de três pequenas torres com cabeças suínas, que nos lembram, comicamente, a seriedade e a imponência da estatuária egípcia, fazendo frente a um outro trabalho de gravura. Em grés, Meander, Żonkil e Landryna (todas de 2026) quebraram ligeiramente a leveza que estava a sentir, porém, não destoando do mundo que ali estava a percecionar. Tudo continua calmo e tranquilo. No piso de baixo, novamente uma gravura (Dakota, 2025) e outras duas personagens, Szumka e Kropka (ambas de 2024), num aspeto mais andrógeno que o outro grupo de figuras, mas talvez um pouco mais à vontade dado o tronco nu de uma delas…Senti que aquela estava em casa de todos estes seres que, ao mesmo tempo, me diziam que aquela também era a minha…
O mundo que Dorota Jurczak tem criado é, de facto, distinto. É, sobretudo, uma realidade concisa e eficaz em toda a sua experiência, sem necessidade de se ancorar a uma qualquer linha narrativa para se cimentar. Segundo dizem os pouquíssimos textos online a respeito de Dorota Jurczak, o trabalho da artista veste noções do folclórico polaco, chegando a ser macabro e sombrio, apoiando-se numa figuração aterradora. Não me sinto, porém, em total acordo com essas linhas. Em itede, itepe, etc., etc., em polaco, senti, acima de tudo, um bem-estar familiar, doméstico - atrevo-me a dizer. As personagens que Dorota aqui trouxe, pelos últimos 5 anos de produção, pareceram ter-me reconhecido ali, mostraram-me presente e respeitaram a minha paz. Talvez surja aqui o trunfo de só agora olhar para o trabalho de Dorota. Senti-me despreocupado o suficiente para me sentar nas escadas do espaço expositivo a escrever estas palavras. Não sei se o conforto virá do cor-de-rosa pastel que cobre toda a exposição ou do jogo de cor que o dota de uma certa força. Aliás, depois de ter procurado o trabalho da artista, esta exposição é, provavelmente, a que menos reúne esses tais sentimentos mais ou menos sombrios. Da gravura ao trabalho escultórico nesta exposição, o esdrúxulo, que é também um dos veículos de locomoção do trabalho de Dorota, não se sentiu tanto aqui. Ainda assim, talvez tenha aqui descoberto um pouco do meu mundo. Nesse sentido, é uma exposição de atenção, de importância no contexto artístico contemporâneo, sobretudo na cena portuguesa. O não encaixe da produção visual de Dorota nestes contextos é motivo de grande atenção. Concluo, portanto, ser uma nota curatorialmente perspicaz por parte de Miguel Wandschneider, que, vale o apontamento, se enquadra igualmente com a sua belíssima seleção de livros para a Livraria da Rialto6, que abriu justamente ao mesmo tempo que esta exposição. Certamente, algo que somos convidados a fazer, perante o trabalho de Dorota Jurczak, é descobrir o nosso mundo, ou a nossa realidade, através da abertura do seu trabalho artístico.
A exposição pode ser visitada na Rialto6 até dia 30 de maio.
1 Miguel Wandschneider, quando responsável pela programação da Culturgest, já tinha realizado duas exposições de Dorota Jurczak em 2016, em Lisboa e no Porto.