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Espaço Intermédio, de Cristina Ataíde
DATA
16 Mar 2026
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AUTOR
Tomás Saraiva
“Desde os processos à sua profunda co–existência com a natureza, a artista constrói uma exposição que estimula a sermos nómadas também, ali, fundamentada a partir de uma compreensão profunda da generosidade artística. Neste sítio, neste esboço florestal que desperta o nosso cuidado pela sustentabilidade do planeta, aglomera-se o espaço necessário, ou o espaço intermédio, que nos separa da aventura e que só nós podemos encurtar.”
“Na exposição Espaço Intermédio, Cristina Ataíde exibe uma série de desenhos de grande dimensão e um grupo de esculturas de pavimento que ocupam cantos diferentes da sala. Trabalhando uma ideia de presença que se apoia na complementaridade do vazio com a densidade da matéria, a artista dá continuação a uma pesquisa que se debruça sobre o modo como entidades opostas convergem, dando lugar a uma terceira via ou à possibilidade de um caminho intermédio”, assim compõe Sérgio Fazenda Rodrigues, num bom e claro texto que integra a folha de sala.
A palavra soalheiro não fez parte do nosso vocabulário nos últimos tempos. A intempérie, sobretudo pela zona centro do país, devastou zonas naturais e a vida de muitas famílias num Portugal que parece não estar preparado. Pela sombra com que fomos atingidos, pareceu-me, de forma geral, que o cinzento aumentou os nossos vazios, em dias que nos fizeram esquecer que o céu é azul e que melhores tempos virão… Para mim, também de coração relativamente acinzentado, a exposição de Cristina Ataíde reconfortou-me ao partilhar comigo um pouco de um sorriso que me fez sorrir também.
O conjunto dos 8 desenhos feitos de pigmentos ligeiramente diferentes uns dos outros, Erased #1 – #8, imponentes, é o que cria o nosso primeiro movimento na Square da Appleton. Naturalmente, somos atraídos ao tom quente, de múltiplos significados, sobretudo um encarnado que “tanto representa o amor como representa a morte. É energia feminina e energia masculina. (...) Enfim, eu acho que tem quase todos os significados.”1 Os núcleos deste conjunto, reminiscentes dos recortes de troncos que ali ao lado se deitam, convocam caminhos de carvão vegetal que riscam e sujam a cor, levam-nos em busca de algo mais. Há uma sensação estranha perante estes desenhos. Diante deles, sente-se que há qualquer coisa que nos chama por entre os diferentes planos, que nos faz até semicerrar os olhos, mas que se esconde mesmo assim. Permitam-me o egoísmo de não revelar do que se trata: estaria a agir contra o movimento que a exposição procura estimular. Por isso, se forem visitá-la, gostava que estivessem atentos a esse detalhe. É aí, precisamente, que se impõe o refinamento do trabalho da artista e que aponta a montagem como elemento aqui (e sempre) crucial: o de ir um pouco mais à frente, além, lá - ou qualquer outro lugar que nos desperte a sensação de movimento e de nos fazer prestar atenção.
Voltando às secções de troncos dispersos pelo espaço expositivo, estes são cedros que foram aproveitados pela artista. Um caiu perto do seu atelier, na Tapada da Ajuda, por força da Natureza, e os outros dois foram cortados pelo ser humano porque estavam a incomodar2… Se nos desenhos, Cristina Ataíde raspou a superfície do papel com borrachas para ir desgastando o carvão, nos Cedrus para tocar, #1 – #9, alisou a superfície e ovalou os fragmentos. Como quem não quer a coisa, olhei em volta e ganhei coragem para passar a mão sob um dos recortes dos cedros, suave, ainda dando para sentir gentilmente os veios das camadas da árvore. Tentar contar as centenas de anéis para descobrir a idade da árvore era inevitável, uma contagem compassadamente interrompida pelos múltiplos orifícios que os bichinhos do tempo - os assistentes da artista - foram escavando, desvendando os segredos da longevidade de uma árvore. As medulas, as origens dos ramos que vão para fora, os corredores de seiva…Confirma-se Giuseppe Penone, a árvore é uma escultura perfeita.
Dias após a minha primeira visita, tive o gosto de me encontrar com Cristina para falarmos um pouco sobre os seus trabalhos. Circundámos os desenhos e debruçámo-nos sobre os recortes dos cedros, sem nos desligarmos deles pelas pontas dos nossos dedos, um pouco como as Respigadoras de Millet3 com que a artista se identifica. Por entre pequenas lições de dendrologia4, dendrocronologia5 e outras matérias botânicas, o espírito nómada que fundamenta a razão de ser de Cristina Ataíde sobressai na concretização daquela que é uma das exposições mais consistentes que tenho visto. Desde os processos à sua profunda co–existência com a natureza, a artista constrói uma exposição que estimula a sermos nómadas também, ali, fundamentada a partir de uma compreensão profunda da generosidade artística. Neste sítio, neste esboço florestal que desperta o nosso cuidado pela sustentabilidade do planeta, aglomera-se o espaço necessário, ou oespaço intermédio, que nos separa da aventura e que só nós podemos encurtar.
Nesse dia, já um pouco mais brilhante, mas ainda frio, saí mais atento e curioso por dias melhores.
Espaço Intermédio, de Cristina Ataíde, está patente até dia 2 de abril na Appleton.


1. Cristina Ataíde para o Diário de Notícias, por Carla Alves Ribeiro.
2. Ibid.
3. Des glaneuses, Jean-François Millet, 1857.
4. Ciência que estuda árvores e outras plantas lenhosas.
5. Sub–conceito da dendrologia, que se ocupa no estudo da idade das árvores pela contagem dos seus anéis.

BIOGRAFIA
Tomás Saraiva (n. 2002) é licenciado em Ciências da Arte e do Património pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e mestrando em Estudos Curatoriais no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Entre a pintura e a curadoria, conjuga o pensamento artístico que tem vindo a desenvolver com os seus valores curatoriais, seja a solo ou em coletivo. Tem realizado e participado em diversas exposições a nível nacional e internacional.
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