A minha vontade primeira para este texto era, talvez um pouco obviamente, não utilizar palavras, como quem escreve sobre o Fight Club, e ser apenas um nada que vos pudesse produzir uma cócega conceptual… Fazê-lo, no entanto, não faria jus àquilo que é a exposição e que nos levará, acredito eu, a aceitarmos que as letras, as palavras, as frases, as vírgulas que as respiram, os textos e os pontos que os terminam são, apesar de tudo, inescapáveis. Todas essas vibrações são importantes.
A exposição, se não estivermos realmente contextualizados com o trabalho de Isa Toledo, é de estranhar. Das três exposições que a artista apresentou na Galeria Miguel Nabinho, esta é a única que não tem uma única palavra integrada nas peças. Todas estas, com sensivelmente as mesmas dimensões, são feitas a partir de tecidos que a artista tinha em casa, como quem guarda coisas e coisinhas que um dia poderão vir a dar jeito. As composições / imagens apresentadas surgem, algumas delas, a partir de fotografias e cada uma acaba por se entreter com coisas distintas, desde o cuidado e as linguagens de amor ao humor, memória e brincadeira.
Esta boa estranheza recordou-me de uma conversa com um amigo sobre linguagem — o charme do paradoxo linguístico! Nisto, ele afirma, convictamente, que eu não estou a pensar no que estou a dizer. Confesso que receei não estar a proferir nada de jeito, mas, na verdade, ele tinha razão! Eu não estava realmente a pensar no que estava a dizer. As palavras saíam-me da boca já telecomandadas por uma qualquer coisa a que podemos chamar inconsciente. Foi aí que me foi apresentado o Problema de Kekulé1, um texto escrito por Cormac McCarthy que se inicia com a história de August Kekulé e a sua busca pela fórmula química do benzeno. Incapaz de a conceber, Kekulé acabou por adormecer em frente à lareira e, em sonho, vividamente surgiu o seu momento eureka: a imagem de um Ouroboros e, daí, a molécula do (agora) nosso preferido hidrocarboneto ser um anel. McCarthy prossegue num belo devaneio sobre esta relação entre linguagem, imagem e o inconsciente, tendo em conta que este simplesmente não está habituado a dar instruções verbais e não gosta de o fazer2. McCarthy aponta ainda como a linguagem rapidamente se espalhou, levando o Mundo à sua frente, esse objeto descritivo e expoente definitivo da lei da utilidade da linguagem.
No Words tenta regressar aos tempos que vieram antes da letra; tenta distanciar-se dessa necessidade linguística relativamente recente na história da humanidade, a qual Isa Toledo acredita ser uma prisão, como se lê na folha de sala da exposição - das mais estimulantes que tenho visto na galeria: “literacia é uma prisão. a partir do momento em que se aprende a ler não dá simplesmente para parar. se vir palavras vai lê-las. odeio isso. opressivo.”3
Aliás, uma das primeiras coisas que fiz quando olhei as peças foi perguntar pelos seus títulos, apenas disponíveis através do site ou do catálogo. Sim, não obstante toda a narrativa da não-palavra, as obras são acompanhadas de títulos que a artista não quis colocar em causa simplesmente pelo nome da exposição… Mas, essencialmente, todas essas bengalas apalavradas querem-se daqui distantes. Quais processos de codificação e descodificação, de leituras, alfabetos e significações? No fundo, o intuito é não condicionar a perceção de quem olha estas imagens, sem qualquer tipo de identificação, descrição ou sequer um trocadilho, verdadeiramente iniciar algum tipo de processo de desaprendizagem e é nisso que a exposição se torna. Além disso, a exposição foi obrigada a encontrar um nível acima deste exercício, num tom de supra-conceptualização, por conta das tempestades que assolaram o país. Por motivo das chuvas intensas, o espaço da Galeria Miguel Nabinho não resistiu a algumas infiltrações que obrigaram, por razões de segurança, a retirar as obras da parede e a fechar durante alguns dias, perdendo assim tempo de exposição. No entanto, não deixo de confessar que sinto que este infortúnio reforçou todo o exercício e toda a ideia de Isa Toledo. Inicialmente sem palavras e, numa certa ironia, sem sequer uma imagem…
É certo que a linguagem pode ser relativamente limitante e que o exercício ao nosso distanciamento pode ser momentaneamente provocador. Antes, se os trabalhos de Isa Toledo nos confortavam de alguma maneira e nos apoiavam através da justaposição da palavra e o material onde ela vive, estas peças deixam ao acaso de cada um o seu próprio sentido e tentam libertá-lo. Como se agora fôssemos o passarinho que ganhou independência para sair do ninho e que se prepara para voar, numa mesma vulnerabilidade com que a artista se apresenta nesta exposição.
1 Cormac McCarthy, The Kekulé Problem: Where did language come from?, Nautilus Magazine (2017).
2 Ibid.
3 Da folha de sala, retirado de um meme no Instagram.