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Phantom Tales, de Pedro Zhang
DATA
12 Mai 2026
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AUTOR
Maria Inês Augusto
Visitei a exposição de Pedro Zhang numa tarde atravessada por uma luz quase excessiva, que contrastava com a densidade atmosférica das obras apresentadas. Já havia convivido com o seu trabalho na Galeria Monitor, no contexto de Pequenas Notas Sobre Figuração II - onde surgia em diálogo com outros artistas - e essa experiência prévia instaurou uma expectativa, um ânimo, uma predisposição atenta para esta nova aproximação.
O primeiro embate deu-se no piso superior, com Herbarium (2026), seguido de Lusco-fusco (2026) e O ponto de uma cilada (2026). Três momentos inaugurais que funcionaram quase como limiares perceptivos, permitindo-nos adivinhar a gramática visual que viria a expandir-se no restante percurso: uma atmosfera suspensa, densa, onde a figuração parece emergir e dissolver-se num mesmo gesto. Três obras que calibram o olhar, preparando-o para uma experiência que exige uma atenção demorada, quase táctil. É, contudo, no piso inferior que um elemento se me impõe com particular intensidade. Uma matéria luminosa, amarela, que atravessa quase todas as telas, como um impulso em deslocação contínua. Uma presença em trânsito, quase em fuga, que aparece em acumulações, estrelas (Looking for the Far Side of the Moon, 2026), em traços incisivos, simultaneamente orientadores e evasivos (Cardinal direction, 2026). Há, nestas linhas errantes, que se aproximam de uma cartografia íntima como linhas do destino (In-yun, 2025) - e nas obras, diria eu -, algo de direcional, como se indicassem percursos possíveis. Uma promessa de orientação que é, na verdade, constantemente frustrada pela sua própria instabilidade: aquilo que parece guiar o olhar para uma narrativa possível rapidamente se esquiva, deslocando-se, interrompendo-se, recomeçando noutro ponto. Ergue-se uma lógica subterrânea de ligação, um campo de forças onde cada obra opera como vestígio de um percurso que se constrói no próprio acto de fazer, de ver, a partir de sinais que não fixam.
É, a meu ver, neste jogo - entre qualquer coisa que se ergue e qualquer coisa que nos escapa - que se configura Phantom Tales, estruturando-se através de obras que não se apresentam como entidades fechadas, mas como vestígios de mundos em permanente construção, assentes numa investigação persistente sobre os modos de aparecimento da imagem. Zhang constrói, assim, um vocabulário pictórico que opera numa zona intermédia, onde o visível é continuamente desestabilizado pelo que se pressente. Cada tela articula uma espécie de arqueologia do olhar, convocando camadas de tempo e experiência que recusam uma organização linear. Em vez disso, emerge uma simultaneidade de instantes, camadas e formas que coexistem num tempo expandido, em estados permeáveis, oníricos, como se fizessem parte de um mesmo sonho.
A prática do artista encontra as suas raízes numa relação íntima com o mundo natural, ainda que filtrada por processos de idealização e de memória. Não se trata de representar a natureza tal como ela se oferece ao olhar, mas de reconstruí-la a partir de impressões fragmentárias, de estímulos quotidianos que se transformam em pinturas com uma linguagem própria. Situam-se numa fronteira incerta entre o real e o imaginário, entre o material e o etéreo, o que é memória e experiência sensível. O artista parece procurar o que é essencial, cru, depurado, privilegiando o surgimento gradual da imagem, onde as formas emergem à medida que o gesto se inscreve, num movimento contínuo de aparecimento e transformação, num fazer surgir que implica, também, um certo apagamento. Em conversa a propósito da colectiva da qual fez parte na Monitor, o artista partilha que se posiciona frequentemente como observador de um universo que constrói, mas ao qual não pertence inteiramente. As imagens parecem derivar de uma memória distante, de natureza indeterminada, como fragmentos de um sonho que resistem à clarificação.
Do ponto de vista material, o óleo é trabalhado com uma sensibilidade quase táctil, explorando as suas propriedades físicas - densidade, viscosidade, brilho - de modo a produzir superfícies que resistem à transparência da representação. É matéria activa, viva. Não há contornos definitivos, nem identidades fixas. Mãos (Threads of fate, 2026), animais (Impasse, 2026; A caçada, 2025), tornam-se, através de pinceladas persistentes, formas orgânicas que surgem numa espécie de estado de transição, em vias de se tornarem outra coisa ou desaparecerem. A articulação entre diferentes escalas também contribui para esta instabilidade. Elementos que evocam vastidão - mar e extensões indistintas - coexistem com detalhes íntimos criando uma experiência perceptiva que desafia os modos convencionais de organização do espaço pictórico.
Zhang parece interessado em preservar possíveis narrativas, dimensões e territórios em estado de latência, implicando-os em processos contínuos de interpretação e projecção. Insistindo numa ambiguidade formal cuidadosamente construída que sustenta o universo transcendental do artista. Acredito que é precisamente nesta recusa da evidência que reside a força do trabalho de Pedro Zhang. Ao frustrar expectativas de clareza e resolução quanto ao que é real, a sua pintura afirma-se como um espaço de pensamento, mais do que como um objecto à mercê de um olhar mais ou menos passivo. É no intervalo - entre o que se vê e o que se intui, entre o que se revela e o que permanece oculto, entre aquilo que se advinha anteceder e aquilo que nela se anuncia como desdobramento - que a obra encontra a sua máxima intensidade. É, talvez, nesses elementos - uns luminosos, outros dispersos, profundos e insistentes - que se concentra a energia desta proposta: uma persistência de índole fantasmagórica, que se prolonga mesmo quando o sentido permanece, obstinadamente, fora de alcance. Uma persistência de aparições com a qual nos vemos implicados - à semelhança de quando acordamos - a discernir, sem garantia, o que pertence ao real, o que se insinua como premonição e o que subsiste enquanto matéria de sonho.
A exposição pode ser visitada até dia 30 de maio de 2026.
BIOGRAFIA
Maria Inês Augusto, 34 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) na área dos Serviços Educativos como estagiária e trabalhou, durante 9 anos, no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada durante várias edições e colaborou, em 2023 com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas. Desenvolve, actualmente, um projecto de Art Advisory e curadoria, colabora com o Teatro do Vestido em assistência de produção e tem vindo a produzir diferentes tipos de texto.
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