Em 2014, o reputado geólogo Jan Zalasiewicz escrevia acerca do conceito de tecnofósseis[1], isto é, vestígios e artefactos produzidos por humanos que, por serem na sua maioria constituídos por materiais raros na natureza (como alumínio, plástico ou titânio), apresentam a impossibilidade de uma degradação orgânica, originando uma nova estratigrafia geológica, agora considerada de tecnoestratigrafia. Face a isto, considerações podem ser tecidas a respeito do tipo de fósseis e registos geológicos que serão encontrados no futuro, deixados pelo legado da época do Antropoceno.
Ecos Geológicos, uma exposição com curadoria de Sofia Nunes, reúne duas gerações distintas de artistas para trabalhar estas questões. Numa curadoria sintética e disposta numa sala pequena e contida, apresenta-se um conjunto de obras de um magnetismo peculiar, possuídas por um ímpeto centrífugo que nos impele à aproximação e ao desvelar das suas gramáticas.
De Joana Escoval encontram-se três obras de carácter escultórico diverso, uma vez que agregam matérias naturais, como algas e moluscos aquáticos, com elementos processados, como betão, aço inoxidável ou latão. Em destaque The world as a passing cloud (2021) e From star to sound (2025): a primeira coloca numa parede uma viga de betão cuja origem parece remeter a uma doca marinha, onde camadas agregadas de crustáceos, restos de criaturas aquáticas e algas se acumulam; duas espirais de ouro e cobre completam o objeto. A segunda, constituída por uma pedra vulcânica depositada no chão, de onde sobressai uma espiral metálica, apresenta nos seus interstícios rochosos discretos líquenes. É interessante notar a relevância que a artista confere aos fatores naturais, como auxiliares compositivos das peças, tais como a água do mar e o ar. Tal não é mero capricho, pois, com efeito, observam-se oxidações e deposições, marcas destacadas pela exposição às intempéries, que conferem aos objetos escultóricos uma história imaginária e especulativa que extravasa o campo visivo.
Sobre líquenes, estes organismos místicos que fogem às categorizações científicas e taxonómicas atuais, pois encontram-se num campo neutro entre o reino das plantas, dos animais e dos fungos[2], é exibido um poema de Fernando Lanhas, do qual se cita uma passagem: “Todo o mundo/ são os líquenes/ e os sonhos; […]” Depois, segue-se um conjunto de quinze seixos pintados, realizados pelo artista entre 1949 e 1999, que unificam com uma simplicidade brilhante, a pintura e os seus gestos, com a geologia e suas sedimentações. Cada seixo possui um traço distinto, normalmente feito com tinta de óleo, que flui pelos contornos rochosos, criando uma simbiose entre dois domínios que à primeira vista parecem opostos. Embora se for considerado que grande parte dos pigmentos possuem origem mineral, talvez não sejam assim tão distantes. Parece, justamente, ser esta a conclusão que Lanhas subtilmente convoca.
Por fim, seguem-se três quadros de Pedro Henriques: telas grandes em madeira com perfis metálicos de alumínio, que ocupam o espaço com uma potencialidade hipnótica, em abstrações pintadas a acrílico e tinta de cura ultravioleta. Espantosamente, estes parecem pintados a laser ou por uma máquina industrial, mas são as mãos do artista que simulam um traço residual, robótico, futurístico ou pós-humano. Em esbatimentos de um preto que parece queimado e impregnado na tela, surgem, no fundo, clarões néon púrpura, amarelos e azuis. Numa espécie de blue screen ou glitch, que conferem uma ilusão de dimensionalidade multimédia às pinturas. Além disso, pequenas inserções de traços livres, em tons claros ou esbranquiçados, criam um contraste surpreendente que remete a mecanismos de computação e coding.
Em suma, Ecos Geológicos, de forma inteligente e concisa, agrega diferentes práticas artísticas que exploram dimensões geológicas, como a estratificação e a fossilização, motivando inclusive uma reflexão sobre formas futuras de registos e marcações geológicas, fomentadas pela digitalização do mundo e pelo aumento de resíduos tecnológicos à escala global; o tempo o dirá.
Patente no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira, até ao dia 22 de fevereiro. Entrada livre.
[1] Zalasiewicz, Jan & Williams, Mark & Waters, Colin & Barnosky, Anthony & Haff, Peter. (2014). The technofossil record of humans. Anthropocene Review. 1. 34-43.
[2] Sobre isto veja-se a aprofundada análise feita no capítulo The intimacy of strangers de Sheldrake, Merlin. (2020). Entangled Life. Penguin, Random House.