Um debruçar a pique no sistema prisional português, consolidando o já extenso percurso – iniciado em 1999 – que o fotógrafo tem vindo a trilhar em torno do universo prisional e judicial, questões de vigilância, punição e redenção.
Partindo de uma metodologia alicerçada na própria planta arquitetónica do estabelecimento prisional de Lisboa, onde seis alas irradiam de um centro, este último estruturado numa lógica de panóptico, uma série de fotografias a preto e branco incita o entendimento da prisão enquanto instituição, espaço arquitetónico e lugar poético-simbólico. Na fotografia de Medeiros, trata-se de um olhar incisivo e detalhado, altamente sensível perante uma estética idónea e vertical, que não cede espaço ao eufemismo, à sensibilização nem à brandura.
Mas, lembrando os modos e as lições de grandes mestres, em ecos de Robert Bresson ou Frederick Wiseman, se estas imagens que Pedro Medeiros apresenta se abstêm de tecer julgamentos, e se organizam diante de uma ética de trabalho evidentemente cuidadosa, também abrem espaço através dos enquadramentos, pelas brechas de luz entre as grades, diante do avião entalado entre o arame farpado e o muro de cimento, na enorme cicatriz de um corpo sentado, ou na caveira e no punhal que marcam a entrada, a oferecer pistas de leitura; a configurarem-se enquanto documentos de um arquivo visual/documental do sistema penitenciário português, onde a violência, o trauma, a esperança e a educação coabitam lado a lado.
É por isso que não existe uma organização sequencial ou categórica na exposição; ela não se agrupa por “temáticas” – o tema é a prisão. Isso implica mergulhar num paradoxo em que as oficinas de carpintaria e eletricidade existem mediadas pelas pistolas dos guardas, com duas balas cravadas no vidro do olhar constante do centro de vigilância, e em que a sala de estudo e o parque exterior, estão ladeados por arame farpado, perante o fluxo constante de aviões que trazem mais turistas à capital. Os degraus do cárcere, cada vez mais desgastados, e a Avenida da Liberdade ali tão perto.
O olhar assaltado pelas imagens de Medeiros, preso às imagens de Medeiros, e também solto para refletir sobre o sistema judicial, protegido para questionar as possibilidades futuras do estabelecimento prisional, constantemente escondido ou invisibilizado à maioria da população. Foram estas as breves elações, provocadas pelo trabalho fotográfico arrebatador de Pedro Medeiros.
A exposição encontra-se patente no Arquivo Municipal de Lisboa até dia 21 de fevereiro. Também nesse dia, às 15:00h, decorrerá uma visita guiada com a presença do fotógrafo e dos curadores. A entrada é livre.