Partindo da luz e da sua importância decisiva na pintura ocidental, mas também do papel basilar que este elemento tem na fotografia, estabelece-se uma oposição ao gesto mecânico, à ação eletrónica e automática que supostamente aproxima a fotografia de uma ideia de autonomia face ao agente do gesto que a espoleta, propondo um enquadramento sistémico do conceito de autoria.
A fotografia existe na inevitável adulteração das cores do mundo, seja pela fuga mútua entre imagem e o que ela representa, seja na assunção do preto e branco como sintoma da memória materializada, como nos leva a entender Miguel von Hafe Pérez, curador da exposição, no texto de folha de sala. Esta disciplina artística perturba naturalmente a narrativa do mundo na sua dimensão intocável. É, acima de tudo, uma decisão.
A luz deixa de se limitar a condição técnica da imagem e transforma-se em operador estrutural da organização visual do mundo - modela, oculta, recorta e hierarquiza, tornando visível aquilo que, de outro modo, permaneceria indiferenciado. Em muitas das obras aqui reunidas é através da gestão da luminosidade que se constroem atmosferas de suspensão, de distância ou de proximidade, reforçando a ambiguidade entre observação e envolvimento, entre presença e afastamento. Trata-se de uma intenção autoral do mundo que gravita entre diferentes níveis documentais. À beira do real, estas imagens fazem com que a autoralidade se fragilize e levite entre o intencional e o subjetivo, entre o pensamento estruturado, o contexto social e estético e a intensidade com que estas imagens se ancoram no mundo. No espaço expositivo, a fotografia depende igualmente da sua intersticialidade no processo de se fazer imagem, seja na vizinhança expositiva seja na capacidade de ressonância. Deste modo, a imagem fixa deixa de o ser imediatamente, ou pelo menos no momento em que, inadvertidamente, surge o olhar e o que ele carrega - geram-se campos de tensão entre autor e espectador.
Entre a encenação e o aparentemente ocasional registo do real é latente a tentativa de captação do fugaz presente do indicativo. Há uma leve sugestão de narrativa ao longo da exposição, que principia no registo urbano e geográfico, chegando a ser geológico, em direção à inscrição do corpo, que se revela também, em alguns trabalhos, topografia, e noutros, gesto e ação, como uma certa revelação sociológica. A ideia de paisagem expande-se também para o campo da música, através da instalação de Albano Silva Pereira, que integra Love Sick, canção de Bob Dylan.
Os Encontros de Fotografia constituem um polo histórico da arte contemporânea em Portugal. Criados nos anos 1980, tiveram um papel decisivo na aproximação do país ao circuito internacional da fotografia contemporânea. O próprio CAV - Centro de Artes Visuais - nasce na continuidade desse projeto. Sopro Luminar apresenta uma seleção da coleção de fotografia formada ao longo de mais de quarenta anos, revelando a diversidade de abordagens, linguagens e posicionamentos que a atravessam.
Com obras de Albano Silva Pereira, António Júlio Duarte, André Cepeda, André Príncipe, Bernard Plossu, Cristina Garcia Rodero, Daniel Blaufuks, Daniel Malhão, Dieter Appelt, Duarte Belo, Edgar Martins, Frédéric Bellay, Gabriel Basílico, Inês Gonçalves, Jorge Molder, José Manuel Rodrigues, José Pedro Cortes, Julião Sarmento, Marianne Müller, Paulo Catrica e Paulo Nozolino. Sopro Luminar é uma co-produção entre o CAV e a VNBM, no âmbito do programa de apoio da RPAC, promovido pela Direção-Geral das Artes, e com o apoio do Município de Viseu. A exposição pode ser visitada na Quinta da Cruz — Centro de Arte Contemporânea de Viseu, até 21 de fevereiro.