Tomando como inspiração uma viagem do artista ao Egito, os mitos e a cosmologia árabe acabam por influenciar uma estética minimalista, que congrega uma plasticidade terrena, modesta, composta por elegantes formas e linhas cuidadas, que congregam as peças de cerâmica expostas com uma fluidez e leveza inesperadas. Contudo, a aparente simplicidade esconde mistérios que fazem o olhar perscrutar atentamente as texturas do grés, que se perdem nas cadências incertas e espontâneas do vidro, onde a sua fragmentação, motivada pelos diferentes tempos de cozedura face à argila de grão fino, origina um efeito experimental de fragmentação altamente sugestivo.
Manuel Caldeira introduz um termo que permeia todas as peças expostas, uma linha conceptual que subjaz às formas ali originadas: a ornitomancia. Isto é, tal como o artista explica: “A arte de ler o futuro através do voo, do pouso e do silêncio das aves.” Daí que a mestria com que dota a cerâmica de uma leveza pressentida, se acometa num ritmo de materialidades que lembram a avifauna. Asas pendidas, torsos, bicos, penas, imaginam-se entre as formas, texturas e composição das peças apresentadas. Existe algo que remete à sacralidade dos templos antigos, algures nas areias do tempo soterrados, onde hoje só restam pequenas memórias incompletas de argila feitas. É justamente neste primitivismo calculado que encontramos aquilo que Caldeira considera ser uma “arqueologia inventada”.
Mas nem tudo é cerâmica, pois, como indicado inicialmente, encontram-se duas pinturas no segundo piso que congregam formas abstratas, motivos anteriormente observados em algumas peças, onde a aguarela confidencia esbatimentos e derrames aquosos, trazendo outros sentidos à exposição, que intersectam e complementam a materialidade arenosa da argila a que Caldeira nos habituara no piso de cima. Nestas pinturas, leitmotivs vistos na cerâmica manifestam-se agora diante de tons azulados e vermelhos alaranjados, cores sacras no Antigo Egito, símbolos da vida, do céu e da criação. Também se encontra rente ao chão um busto de bronze que lembra um pássaro, no qual marcas tácteis são visíveis, sincopadas em ritmos hipnóticos que brilham nos contrastes da luz pela superfície do objeto, revelando, com subtileza, a importância técnica deste metal, coincidente com a Idade do Bronze, e o subsequente apogeu e desenvolvimento do Antigo Egito.
A exposição permeia dois pisos, numa dimensão bem ponderada, onde a dispersão, ou o voo mental e imaginativo – para além da fruição estética – é motivo mais que suficiente para justificar uma visita. Encontra-se patente na Galeria Balcony até dia 21 de março. A entrada é livre.