João Pedro Soares (JPS): Sugiro que comecemos esta conversa com um breve resumo do teu percurso até chegares ao projeto Archives of the Earth (2021-2026).
Isadora Alves (IA): Comecei a trabalhar como atriz com dezasseis anos, iniciei estudos muito cedo… Também fiz muito desporto, sobretudo radical, e acho que encontrei no teatro a mesma sensação de presença, ou sensações muito semelhantes, sem esse lugar da competição. Comecei logo a trabalhar como atriz, mas fui sempre recolhendo referências híbridas, estudando filosofia, dança, coreografia e mantendo-me também muito aficionada por história da arte, mesmo com dezasseis, dezassete anos.
JPS: Dirias que foi o início do teu trabalho autoral?
IA: Sim. Porque, ao mesmo tempo, que fui fazendo peças de teatro ou colaborando com coreógrafos, fui também começando a fazer as minhas próprias peças, que normalmente tinham que ver com a criação de um objeto cenográfico com o qual o corpo se relaciona, com a relação de colocar o corpo num lugar. De procurar lugares onde o corpo está numa presença ativa, acentuada, de relação com as coisas. Na altura em que estudava no conservatório, na Escola de Teatro e Cinema, por exemplo, acontecia várias vezes que eu pedia para ser avaliada por performance e não por uma peça de teatro, e estas criações surgiam sempre, já desde essa altura, em espaços não convencionais…
JPS: Depois, o que se seguiu?
IA: Assim que acabei o conservatório, já trabalhava como atriz. Fazia teatro clássico, cinema de autor, tudo coisas de que eu gosto muito. Estudei um ano no Brasil, na Universidade de São Paulo. Estudei escultura, também fotografia e processos analógicos de revelação. Ainda nessa altura, passei muito tempo nos Andes, especialmente na Bolívia, e a relação que tenho com a montanha, que vem desde a infância e que foi moldando a minha prática, cresceu ainda mais nesse período. Há um lugar, tanto na minha vida pessoal como no trabalho, que tem sempre que ver com o exterior, com os great outdoors, com paisagens muito, muito amplas.
JPS: O contato com montanhas surgiu cedo na tua vida, mas quando é que começaste a relacionar-te com maior proximidade com este tipo de lugares, tantas vezes considerados inóspitos?
IA: Quando fui selecionada como jovem artista europeia, e muito a partir desse programa, conheci várias pessoas com práticas semelhantes à minha. Pessoas como, por exemplo, o Christoph Matt, um designer eco-social, que mora perto de um glaciar e que me convidou a pensar cada vez mais no exterior. Depois desse momento, nos últimos quatro ou cinco anos, o meu corpo de trabalho movimentou-se para lugares muito expansivos… como glaciares, vulcões e desertos. Cada um destes lugares é muito específico e, por isso, acabo também por desenvolver uma relação única com a paisagem política, social e ecológica desses locais.
JPS: Archives of the Earth resulta precisamente desse contato com o Christoph Matt?
IA: Eu e o Christoph já nos conhecíamos há algum tempo e, inclusive, formámos um coletivo chamado Sympoietic Society com mais oito artistas e fizemos vários projetos nos Alpes austríacos sobre glaciares e rios. Foram duas as situações que nos levaram até este projeto. Por um lado, o Christoph estava a morar na Islândia quando começaram as erupções. Por outro, eu tinha começado a desenvolver alguns trabalhos que chamei de Visões. Apresentei uma escultura, a Visão 1 – Flashbox, ou caixa-relâmpago, que é um trabalho em torno da figura do oráculo. Interessava-me muito encontrar uma comunidade, não formada, de pessoas que perderam a visão em vida e conversar com elas sobre a ideia que têm do futuro e sobre como sentem questões climatéricas, em específico, os relâmpagos. Na continuação deste pensamento - em que a natureza é um lugar expandido e que comunica ativamente - a minha ideia seguinte era trabalhar sobre o Empédocles e a sua queda no Etna1. E foi aí que, em conjunto com o Christoph, testemunhando estas erupções e percebendo que o lugar onde acontecem na Islândia é o lugar mais próximo da filosofia de Empédocles, começámos a trabalhar num projeto que foi crescendo e que só fez sentido depois de muitas idas ao terreno, de muito trabalho de pesquisa e da ajuda de uma comunidade, com a qual criámos uma relação em Reykjavik. JPS: Então, numa primeira instância, Archives of the Earth surge dessa matriz, digamos, mitológica, mas depois começa a tomar forma concreta nesse território. Como é que se concretiza essa prática que vocês chamam de investigação performativa?
IA: A investigação performativa é um trabalho de campo que acaba por se assemelhar à pesquisa científica, porque parte dos mesmos preceitos, muito simples e semelhantes aos de qualquer pessoa que gosta de alguma coisa: permanecer durante muito tempo num lugar e colocar continuamente questões. Concretamente, eu e o Christoph construímos uma espécie de esculturas, uns objetos DIY que têm uma certa portabilidade. Estas peças foram feitas a pensar nos objetos que se acoplam ao corpo e que são portáteis, em referência ao alpinismo, em que fazer uma mala é algo muito importante. Nesse sentido, construímos também malas nas quais estes objetos encaixam: o do Chris é uma mesa de chão e a minha é uma mesa de barriga.
JPS: E depois para onde levaram as malas e estes objetos?
IA: Caminhámos com eles durante a noite até à península de Reykjanes, que é uma baía ao pé de Reykjavik, onde começaram as erupções em 2021, que continuarão provavelmente durante os próximos cem anos. O Archives of the Earth começa ao mesmo tempo que há uma renovada atividade vulcânica num lugar que tem sete sistemas vulcânicos… sete ou oito… na verdade, há muitas coisas que não se sabem. Aqui encontramos criações de pequenas crateras, mas os vulcões existem de uma forma diferente. Muitas vezes são rachaduras no chão e a terra abre. Porque este lugar é exatamente o lugar onde a placa da Eurásia e a norte-americana se encontram. Então, estas coordenadas acontecem entre placas tectónicas.
JPS: São então essas as coordenadas para onde caminharam?
IA: Nós caminhamos até estas coordenadas, sim, que são pensadas com geólogos, vulcanólogos, especialistas em catástrofes e pessoas das comunidades locais que vivem lá. Depois, ficamos parados nesse mesmo local durante um dia inteiro, ao longo de uma exposição solar. Ficamos nesta espécie de fotossíntese. O Christoph passa o dia inteiro ao meu lado, em silêncio, a retirar pigmentos do solo e a separá-los. São terras muito ricas, inclusive em muitas coisas desconhecidas, mas também ricas em minerais, e faz serigrafia no próprio lugar. Normalmente em formatos retangulares, em que conserva ou retira uma pequeníssima parte de um pigmento daquele solo para o papel.
JPS: E tu o que fazes enquanto isto acontece?
IA: Ao mesmo tempo, estou parada e tento escrever o que está à minha frente. Tenho uma máquina de escrever, portanto, a minha escrita é condicionada pelo léxico deste objeto, que é o único que sobrevive a estas condições climatéricas, muitas vezes com graus negativos. E, assim, produz-se uma relação entre o caminhar, parar, observar, e a criação, com o corpo, de um vínculo que vai além do que é entendível conscientemente com a paisagem. Por meio desta metodologia e através da exposição do corpo ao tempo, o que volta deste trabalho são sempre pares, compostos por uma serigrafia do solo e uma impressão escrita.
JPS: São duas impressões únicas, de um tempo geológico, de movimentos tectónicos, de um momento específico no decorrer de uma erupção…
IA: Exato. A decisão é que esta serigrafia e este poema aconteçam ali, naquele momento, e só naquele momento. Os textos não sofrem edição, assim como não há retoque na serigrafia, como se houvesse um encapsulamento daquele lugar e daquele tempo.
JPS: Ao incorporarem e encapsularem este tempo geológico, que tipo de conclusões conseguiram, até agora, extrair desta investigação artística? Conseguiram alguma complementaridade entre ciências, como a geologia e a vulcanologia, e as vossas práticas?
IA: Eu acho que sim… até porque a investigação artística, bem como a científica, é precedida por uma relação de profundidade… de procura de profundidade com as coisas, através de uma certa paixão, de um gosto que encontramos nós naquele território e encontraram as pessoas com quem trabalhámos. Então, este lugar de amor, digamos assim, com aquele território, acontece entre todos nós e é partilhado. Este é um lugar que nunca teve habitação humana e que nunca a terá. Por isso, é um território que põe em questão elementos de forma muito específica e onde a natureza é bruta, de um modo singular… Também acontece que algumas impressões e poemas surgem em lugares onde não houve pesquisa científica e, de repente, um arquivo que é sensível – que até pode ser tosco de alguma forma e que tem o seu lugar de ironia face à relação com a ciência - também se torna um registo passível de estudo, que acaba por ajudar alguns cientistas e a comunidade.
JPS: Chegaram a trabalhar em proximidade com algum cientista?
IA: Aconteceu termos este projeto em conjunto com a Céline Mandon, uma vulcanóloga que, durante este período, esteve a trabalhar nestas coordenadas com máquinas muito semelhantes à minha, sendo que delas retira números. O que ela faz com o Instituto de Meteorologia da Islândia é, de alguma forma, decantar a composição do ar e dos gases geotermais nos lugares onde costumamos estar. Porque são lugares onde a Terra está visivelmente em movimento. Muitos dos poemas que escrevo, por exemplo, falam do vento, porque este é um dos elementos mais ativos, ou do ar e da densidade do ar, da mesma forma que o Christoph separa pigmentos que, até para cientistas, são desconhecidos. No fundo, a Céline trabalha sobre a matéria invisível e dá nome à invisibilidade. Há uma partilha muito grande da prática, apesar de termos linguagens diferentes.
JPS: Essa complementaridade entre arte e ciência é fascinante e parece-me cada vez mais necessária. Isso leva-me também a uma questão: referes este lugar como um espaço em bruto, a terra em erupção, uma série de gases… parece-me um local inóspito e onde é difícil trabalhar. Houve algum desafio específico que sentiste no terreno, algumas dificuldades que queiras partilhar?
IA: Eu acho que é inóspito como vários lugares… como um glaciar é muito perigoso, por exemplo. A Islândia é altamente monitorizada. Os lugares onde vamos não são completamente “kamikaze” (risos), apesar de uma erupção poder de facto acontecer a qualquer momento. As dificuldades são sempre a possibilidade de não se estar preparado o suficiente, de não se respeitar suficientemente estes locais, que são sítios que comunicam connosco. Eu acho que a comparação mais próxima com Portugal é a relação com o mar. Há dias em que vamos à praia, entramos na água e sentimos que o mar comunica, que diz não sabemos bem o quê, mas há qualquer intuição de que não devemos estar ali, que devemos sair da água. É parecido. Portanto, acho que uma escuta contínua do lugar é uma das coisas mais importantes. O grande desafio é sempre tentar escutar melhor.
JPS: Podes falar sobre a relação que este conjunto de sistemas vulcânicos estabelece entre o arquivo e o arquivista? Acho interessante esta dimensão do arquivo como algo que treme, que desaparece, que parte, que volta a reemergir. Parece-me que o arquivo também é bastante vulcânico…
IA: Sem dúvida. Acho que ao redor da ideia de arquivo e de paisagem há sempre uma relação com a morte. Neste lugar, em específico, o desaparecimento está muito próximo para mim; acontece uma coisa que é essa ressignificação desta ideia de morte, que, ao mesmo tempo, é uma reorganização de materiais e não uma morte propriamente dita. E isto acontece de forma concreta, e não simbólica, nesta paisagem, em que deixa de haver essa binaridade entre vida e morte, mas uma constante reorganização de materiais. Então, é também justo dizer que, nestes lugares, estamos sempre perto da vida, do começo da vida. A Islândia, geologicamente, é um dos lugares (se não o lugar) mais recentes do planeta. A península de Reykjanes ainda mais, visto que as placas da Eurásia e da América do Norte são divergentes, abrem, no mínimo, dois centímetros e meio por ano, ou mais… . Habitar este lugar entre erupções parece-me uma possibilidade de sentir os quatro elementos de Empédocles, uma sensação de que as coisas se estão a reorganizar-se. Para além disso, um vulcão ou um sistema vulcânico é uma máquina de terra que está constantemente a arquivar terra por cima de terra por cima de terra.
JPS: Existe uma dimensão profundamente poética em tudo isto, parece-me. Archives of the Earth é um projecto em continuidade que começa quando as erupções começam. Anteriormente, referiste que estas podem durar mais de cem anos. Isto significa que Archives of the Earth pode ter também esta continuidade temporal?
IA: Claro que pode.
JPS: O que é interessante, pois também estabelece esta dimensão oracular do arquivo e da prática artística enquanto predicativos de um futuro especulativo, de como este espaço pode alterar-se…
IA: Sim, neste caso, e porque a pesquisa se torna performática, a ideia é: o que é isto de ficar parado num só sítio durante muito tempo? E perguntar: “o que é que existe, o que é que pode vir até mim, o que é que está a dialogar comigo? Existirão palavras para isto?” A ideia oracular, a maneira como a vejo, é não pensar de forma linear no passado, presente e futuro, porque as situações ganham sentidos imprevistos. Há qualquer coisa que eu sinto como atriz e performer que tem a ver com um estado de presença e conexão com tudo, seja uma plateia, seja, neste caso do Archives of the Earth, uma imensidão mais-que-humana. Existe, claro, a criação de arquivo, que pode desaparecer, mas se o projeto continuar durante todo o tempo que nós conseguirmos, manter-se-á vivo. Por exemplo, temos dado aulas em universidades, escolas, conferências, e criado ferramentas e metodologias para desenvolver uma linguagem de relação com a paisagem. Isto são coisas partilhadas, questionadas com muitas pessoas, em suma, continuadas…
JPS: E que outras continuidades existem no teu percurso artístico atual?
IA: Tenho estado há cerca de dois anos a trabalhar com a Arizona State University, onde tenho passado muito tempo, e tenho trabalhado no deserto de Sonora. Em conjunto com populações locais, cientistas e membros de diferentes comunidades indígenas, investigamos ecossistemas noturnos. Nesse sentido, estou, neste momento, a preparar uma exposição em Portugal, para 2027, sobre a extinção da noite como fenómeno, a necessidade de se estar no escuro e experienciar a escuridão.
1 Empédocles (490-430 a.C.) foi um filósofo e pensador pré-socrático grego, criador da chamada teoria cosmogénica dos quatro elementos clássicos: terra, ar, água e fogo, enquanto raízes de toda a matéria. A sua filosofia procurou explicar a complexidade do mundo natural e da matéria enquanto transitoriedade. De acordo com uma lenda antiga, atirou-se para dentro do vulcão ativo do Monte Etna numa tentativa de provar a sua divindade e imortalidade, acreditando que o fogo vulcânico o tornaria um deus.