“não perece completamente tudo aquilo que parece morrer,
porque a natureza forma de novo uma coisa a partir de outra,
e não permite que nada seja gerado senão com a ajuda da morte de outra coisa.”1
O tempo, a espessura do tempo no corpo, no gesto, nas mãos.
Como se inscreve o tempo na matéria? Como se ressignificam os objetos simbólicos até ao limite da forma?
Em Maria José Oliveira, as matérias dialogam e a usura entrópica dissolve a imagem, transforma-a num corpo em devir. Contudo, sinto que há, aqui, da minha parte, uma imprecisão na linguagem. Todos os corpos devêm. É essa a natureza do mundo. Por isso, a artista, num gesto demiúrgico, seleciona, evidencia a ação e a obra de arte transforma-se numa sucessão de tempos, materialidades emergentes, matérias vivas e inanimadas.
A água, recetáculo da concha-mão, volta ao corpo primordial, não se fixa num contentor. A seu lado, emerge o sal, resquício da evaporação.
O fogo consome o papel. A ação do fogo não é visível, apenas os seus vestígios.
O livro é consumido pelos bibliófagos, cuja escala ínfima não nos permite fixar o olhar na ação. Emerge a latência de um corpo em transformação.
Noutros casos, o contentor faz-nos adivinhar uma pré-existência. Invólucros do corpo humano habitam a exposição. Há, contudo, uma presença-ausência que teima em existir nestes espaços negativos, deixando-os em suspenso.
Colheres moldadas em papel e casca de ovo, memórias antropomórficas do uso, continuam reconhecíveis, mas aproximam-se do limite em que deixam de poder cumprir a sua função.
Entre o contentor e o conteúdo, dão-se a ver os resquícios de um torso, o interior de um corpo cuja estrutura óssea subsiste. As entranhas flutuam como um espectro.
O processo artístico transforma matérias comuns e frágeis, recusando intencionalmente conferir ao objeto a aparente perenidade de uma matéria nobre. Pois, somos todos poalha das estrelas. E, talvez, no universo, a matéria mais rara não seja o ouro ou a prata, mas a água, condição de vida. Matéria orgânica. Poiesis material.
Todos os corpos se transformam, desde as estruturas astronómicas ao ínfimo que aprofunda.
Perante o mistério da criação, a água mistura-se com o barro. O corpo é contentor e conteúdo argiloso. As mãos da artista tornam-se as mãos de Deus. O primeiro Ser nasce à luz desta ambiguidade.
Com curadoria de Paula Parente Pinto, a exposição Eu que já fui eu pode ser visitada no MNAC, em Lisboa, até dia 4 de outubro.
1 LUCRÉCIO, Da Natureza das Coisas, Livro I, versos 262-264, Tradução de Luís Cerqueira, Editora Relógio de Água, 2015. Título Original: De rerum natura (I a. C.).