Vivemos tempos de grande pressão no sistema terrestre, sendo cada vez mais premente a exploração de formas alternativas de existência, de métodos de construção e de produção mais sustentáveis, e a procura pela inventiva de um paradigma regenerativo. Com essa missiva, Terra Crua surge como exposição multidisciplinar que busca trazer à atenção do público em geral o potencial da terra – recurso natural, local e disponível – como matéria-prima para a arquitetura contemporânea. Terra Crua, com curadoria de Madalena Vidigal e assistência curatorial de Reka Szilvasi, é uma exposição ambiciosa ao nível conceptual, que mantém essa fasquia numa excelente concretização formal. A exposição consegue aglutinar de forma brilhante todo o percurso do trabalho com a terra crua, desde a matéria até à ação.
Dividindo-se a galeria em diferentes etapas no processo de conhecimento e trabalho em torno da terra, começa-se por pensar esta matéria nas suas macro e microescalas, refletindo sobre o que está debaixo dos nossos pés, vendo amostras de solo de diferentes partes do país, desde os solos vulcânicos e acinzentados da Madeira até aos solos amarelos e áridos de Mértola. Uma vasta paleta de cores é mostrada, revelando as diferentes tipologias do solo português e fazendo-nos compreender, tal como referido na exposição, que “[a]pesar da sua dimensão, Portugal apresenta uma grande diversidade de solos, resultante da variedade de formações geológicas e condições ambientais.” Nesta oscilação de escalas, somos convidados a observar num nível macro os monólitos de solo (extrações de um perfil), mostrando um corte vertical de terreno, com o intuito de observar as características físicas e a estratificação; depois, num nível micro, mergulhamos em vídeos e fotografias microscópicas que nos revelam a terra enquanto matéria heterogénea, com enorme diversidade mineral, diferentes texturas e granulometrias.
A segunda parte da galeria compõe-se de uma tríade fundamental na construção com terra: ar, argila e água. Vemos instalações, objetos e textos que explicam, cientificamente, como este tipo de construção funciona. Observam-se dinâmicas entre o conhecimento empírico milenar e a articulação com o conhecimento tecnológico atual, o que permite compreender técnicas tradicionais portuguesas como o adobe, o tabique e a taipa com um renovado olhar. Depois, de forma coerente e gradual, a exposição desloca-se para componentes menos científicos e mais práticos, revelando paredes, tijolos e o resultado da construção com terra. Aqui, é também revelado o trabalho fascinante dos ateliers DOING.pt e CRU atelier, que têm vindo a trabalhar a ecoconstrução, incidindo em particular na terra crua. Observamos o projeto Terras de Lisboa, que destaca o potencial do solo enquanto recurso circular, iniciando também um debate sobre o ciclo de vida dos materiais, o reaproveitamento de matéria demolida e a própria questão habitacional. Convergindo no clímax da instalação Terra Casa, uma fachada construída totalmente em terra, que mostra de forma clara todo o potencial deste novo paradigma.
Além disso, pequenos detalhes - como as paredes expositivas terem sido pintadas com diferentes tipos de terra, ou a biblio-terra, uma biblioteca/arquivo que reúne um conjunto de obras acerca de arquitetura e construção com terra - complementam uma exposição feita com extremo cuidado, na qual, inclusive, toda a terra utilizada foi fornecida através de estudos geológicos de Lisboa e trazida de diferentes locais onde ocorrem escavações reativando esta tónica de circularidade e recuperação de matéria.
Terra Crua consegue de forma pertinente criar e elucidar um argumento sobre um novo paradigma arquitetónico, no qual arquitetura, território e comunidade se interligam e colaboram em novas possibilidades construtivas, sendo de visita obrigatória para quem se interessa por processos alternativos, ecoconstrução e futuros regenerativos.
A exposição encontra-se patente no MAC/CCB até 11 de outubro.